Cadeia citrícola pede desoneração do suco de laranja no varejo

Ibiapaba Netto: indústrias de olho no consumo doméstico
Após décadas voltadas exclusivamente ao mercado externo, as grandes indústrias que produzem suco de laranja no país (Citrosuco, Cutrale e Louis Dreyfus Commodities) decidiram se dedicar um pouco mais ao front doméstico para tentar ampliar as vendas do produto integral (sem adição de água ou açúcar), uma vez que a demanda internacional continua em retração. E, para tal, esperam contar com a apoio do governo federal.

Não será fácil. Da mesma maneira que a proliferação de bebidas mais baratas tem roubado consumidores do suco de laranja 100% desde o início da década passada em centros consolidados como EUA e Europa, no varejo brasileiro os refrescos e néctares, entre outros, também se consolidaram como rivais de peso – com a diferença que, por aqui, o suco de laranja integral não é e nunca foi um sucesso nas gôndolas, dada a arraigada "cultura do espremedor".

A esta altura, aliás, o espremedor já nem desponta mais como o adversário a ser batido. O ícone de alumínio ainda faz barulho em padarias, bares e restaurantes, mas nas residências o eletrodoméstico têm cada vez menos força para brigar com as bebidas prontas para beber. E é aqui que citricultores e indústrias de suco de laranja acreditam que há mais espaço nas geladeiras para o suco 100%.

Em grandes cidades como São Paulo, uma pequena parte desse espaço já é ocupado por marcas tradicionais como Fazenda e Xandô e, mais recentemente, por novatas como a Natural One, entre outras. Mas nada capaz de tirar o sono dos fabricantes das bebidas concorrentes. Para isso, é necessária a escala e a estrutura de distribuição das grandes indústrias, mas esse arsenal só será mais direcionado ao mercado interno caso os preços cobrados do consumidor brasileiro no varejo fiquem mais baixos.

É nesse ponto que entra o projeto de desoneração do suco de laranja 100% proposto pela Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), que representa Citrosuco, Cutrale e LDC. Não uma desoneração total, mas apenas no último elo da cadeia. O objetivo é isentar de PIS e Cofins as vendas das engarrafadoras aos varejistas – a alíquota é de 7,65% -, além de ICMS.

"Queremos que o suco de laranja seja tratado como o alimento saudável e que é e tenha o mesmo tratamento tributário de produtos da cesta básica enquadrados na Lei 10.925, de 2004", diz Ibiapaba Netto, diretor-executivo da CitrusBR.

Nas contas da entidade, com essas isenções o preço médio do litro do suco de laranja 100% reconstituído poderia cair de R$ 6,90 para R$ 4,34 nas gôndolas paulistanas, ao passo que o litro do suco 100% pronto para beber que em nenhum momento foi concentrado e congelado passaria de R$ 8,39 para R$ 5,25. Nos Estados Unidos o primeiro custa atualmente, em média, o equivalente a R$ 4,36, ao passo que o segundo sai por R$ 6,56.

Marco Antonio dos Santos: medida ajudaria toda a cadeia
É evidente que esses cálculos de redução de preços dependerão do comportamento das redes varejistas em relação às margens. Atualmente, os grandes supermercados costumam cobrar 15% de verbas contratuais e garantem uma margem estimada em 35% nas vendas de suco. Ou seja, absorvem 50% do valor cobrado do consumidor final.

"Se as quedas de preços previstas acontecerem, o suco de laranja 100% ficará competitivo em relação às bebidas concorrentes, inclusive aquelas a base de soja", afirma Netto. A CitrusBR apresentou seu projeto de desoneração há dois à então presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Kátia Abreu. Hoje ministra da Agricultura, Kátia já pediu uma análise sobre o pleito aos técnicos da Pasta.

A CitrusBR sabe que, em tempos de ajuste fiscal, a chance de uma desoneração como a proposta emplacar é pequena. Mas as indústrias de suco esperam que o tema amadureça no governo para que, quando houver uma oportunidade, as isenções saiam do papel. E se isso acontecer, projeta que o consumo doméstico poderá subir das atuais 56 mil toneladas equivalentes ao produto concentrado e congelado (FCOJ) ao ano para cerca de 200 mil até 2024.

Um volume ainda modesto se comparado às exportações, que costumam variar de 1 milhão a 1,2 milhão de toneladas ao ano. Mas o suficiente para compensar a tendência de queda das vendas sobretudo para os países desenvolvidos. Mesmo nos EUA, que tem ampliado as importações de suco brasileiro em decorrência da redução de sua oferta doméstica, a curva descendente do consumo de suco de laranja no varejo tem se mostrado difícil de reverter.

Porém, observa Ibiapaba Netto, nos EUA o consumo per capita de sucos integrais de frutas ainda é de 18 litros por ano, ante 0,8 litro no Brasil. Essa média brasileira inclui basicamente sucos de laranja e uva, com larga vantagem para o primeiro. "Ou seja, é possível assumir que é viável elevar essa média no país. No caso do leite, por exemplo, são 53,8 litros por habitante ao ano".

Segundo o dirigente, se as 200 mil toneladas anuais forem de fato alcançadas no mercado brasileiro, a produção de laranja, concentrada em São Paulo, terá que ser entre 60 milhões e 70 milhões de caixas de 40,8 quilos superior ao nível desta safra 2014/15, que nos polos paulistas deverá alcançar 284,4 milhões de caixas, segundo estimativa do Instituto de Economia Agrícola (IEA) e da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), órgão vinculados à Secretaria da Agricultura do Estado.

Assim, afirma Netto, os citricultores também serão beneficiados. "A desoneração seria uma boa notícia para todo mundo", diz Marco Antonio dos Santos, presidente do Sindicato Rural de Taquaritinga, no interior paulista, e da Câmara Setorial da Citricultura, em Brasília. Santos concorda que a conjuntura não permitirá que o projeto seja implementado este ano, mas quer manter a chama acesa. "Já apresentamos o projeto nos Ministérios da Agricultura, da Fazenda, na Câmara e no Senado".

Fonte: Valor | Por Fernando Lopes | De São Paulo