BRF confirma venda de divisão de lácteos para Lactalis por R$ 1,8 bi

Regis Filho/Valor
Cláudio Galeazzi, da BRF: valor da operação de venda dos ativos poderia superar R$ 1,6 bilhão, se "tudo desse certo"

A BRF confirmou ontem à noite que assinou um memorando de entendimentos para a venda de seus ativos de lácteos para a francesa Lactalis, por R$ 1,8 bilhão. O memorando de caráter vinculante foi celebrado com a italiana Parmalat S.p.A., controlada do grupo francês Lactalis, e estabelece as condições para a venda de 11 unidades de lácteos e de marcas como Batavo e Elegê.

As unidades da BRF estão localizadas em Bom Conselho (PE), Carambeí (PR), Ravena (MG), Concórdia (SC), Teutônia (RS), Itumbiara (MG), Terenos (MS), Ijuí (RS), 3 de Maio I (RS), 3 de Maio II (RS) e Santa Rosa (RS). Nessas fábricas, há produção de refrigerados, leite longa vida, queijos, entre outros.

Segundo comunicado que a BRF enviou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o valor do negócio está "sujeito a determinados ajustes e à verificação de condições precedentes e aprovações regulatórias aplicáveis a transações dessa natureza".

À tarde, quando a venda dos ativos ainda não havia sido anunciada, e antes da inauguração de uma unidade de fatiados da BRF em Tatuí (SP), o CEO global da empresa, Cláudio Galeazzi, disse que a negociação com a empresa francesa "caminhava para o fechamento", mas que detalhes ainda estavam sendo negociados. Um desses detalhes era o uso da marca Sadia para queijos pela Lactalis por um período de tempo determinado.

Em Tatuí, Galeazzi disse que se "tudo desse certo" o valor da operação de venda dos ativos para a Lactalis poderia superar os R$ 1,6 bilhão antecipados pelo Valor na edição de ontem. Sua expectativa se confirmou.

As negociações entre a BRF e a Lactalis começaram há cerca de sete meses e foram complexas por conta da quantidade de ativos e marcas envolvidas, segundo fontes a par das conversações. Houve idas e vindas, segundo essas fontes, porque a BRF, em alguns momentos, mudou o escopo dos ativos que queria vender.

Além da proposta da Lactalis, a BRF ainda recebeu ofertas da também francesa Danone, da mexicana Lala e da canadense Saputo. Fontes familiarizadas com o tema afirmam que o desejo inicial da BRF era fechar negócio com a Danone, mas a empresa francesa não tinha interesse em adquirir toda a área de lácteos da BRF, mas apenas os refrigerados, cuja produção está concentrada na unidade de Carambeí. Já a Lactalis, que mostra ter grandes ambições no Brasil, tinha interesse em todos os ativos, inclusive no leite longa vida, um produto de margens tradicionalmente baixas.

Se para a BRF a venda dos ativos de lácteos significa sair de um segmento que nunca considerou atraente, para a Lactalis a compra das unidades e marcas da empresa brasileira é mais uma passo em sua estratégia de crescer no Brasil, um mercado ainda com grande potencial para avançar.

A francesa, que faturou € 16 bilhões em 2013 e é dona de marcas como Président, Parmalat e Lactel, começou a produzir queijos no Brasil em agosto do ano passado com a compra da Balkis. No mês passado, adquiriu, por R$ 250 milhões, ativos da LBR-Lácteos Brasil colocados à venda dentro do processo de recuperação judicial da companhia brasileira. Nessa operação, condicionou a compra dos ativos ao fim da licença para uso da marca Parmalat que a LBR tinha até 2017. Com isso, antecipou a retomada da marca no país.

Além de unidades em bacias leiteiras importantes do Brasil, com as recentes aquisições a Lactalis também terá um forte portfólio de marcas. A marca nacional da Lactalis deve ser Parmalat. Terá ainda produtos com as marcas Batavo, Elegê, que eram da BRF, além de Poços de Caldas, Boa Nata e DaMatta, compradas da LBR.

Com as recentes aquisições, a Lactalis terá 17 unidades no Brasil e deve se tornar, de imediato, a segunda entre as empresas do setor na captação de leite no país, com um volume estimado de 5,2 milhões de litros por dia ou cerca de 1,9 bilhão por ano.

Tanto a compra dos ativos de lácteos da LBR quanto os da BRF pela Lactalis tem de ser submetidas ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), já que envolvem empresas com faturamento superior a R$ 750 milhões por ano.

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Fonte: Valor | Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo e Tatuí (SP)