BRF amplia lista de aquisições no exterior

Principal objetivo dos executivos que assumiram a gestão da BRF com a chegada do empresário Abilio Diniz à presidência do conselho de administração da empresa, a internacionalização da companhia ganhou ontem seu principal capítulo – ao menos até aqui.

Com investimentos em torno de US$ 500 milhões, a BRF anunciou a aquisição de três empresas no exterior, ampliando sua presença na Argentina e no Reino Unido e estreando na Tailândia, quarto maior país exportador de carne de frango. Essas aquisições devem elevar em US$ 600 milhões o faturamento da BRF em 2016. Em 2014, a receita líquida da empresa totalizou R$ 29 bilhões.

Com o anúncio, feito na manhã de ontem, a BRF mais do que duplicou o montante investido na internacionalização. Desde que Abilio assumiu o comando da empresa, em abril de 2013, a BRF anunciou investimentos de cerca de US$ 900 milhões, considerando aquisições de companhias ou de participações em joint ventures, bem como a compra de marcas de alimentos.

A intensificação das aquisições no exterior também coincide com o período em que Pedro Faria está no cargo de CEO global da BRF. Antes de assumir a função, em 1º de janeiro deste ano, o executivo liderou área internacional da empresa, já prospectando potenciais alvos.

"As negociações anunciadas [ontem] reforçam o projeto de globalização da BRF", disse Faria a jornalistas, destacando que, desde abril de 2013, a BRF fez doze "movimentos globais", o que inclui a inauguração, em 2014, da fábrica de alimentos processados em Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos). "Empresa global é aquela que tem plantas esparramadas [pelo mundo] e realmente estamos tranformando a BRF em uma empresa global", disse Abilio.

No período, a maior aquisição é justamente a da tailandesa Golden Foods Siam, anunciada ontem, por US$ 360 milhões. Fundada em 1991, a empresa é uma das maiores produtoras de carne de frango do país asiático e tem capacidade para produzir cerca de 200 mil toneladas de produtos por ano, conforme Simon Cheng, executivo responsável pelas operações da BRF na Ásia.

Também ontem, a empresa anunciou que firmou um memorando de entendimentos com a Pampa Agribusiness para adquirir a Campo Austral, por US$ 85 milhões. Trata-se da segunda maior produtora de carne suína da Argentina – o país se tornou uma das prioridades na estratégia da BRF. Principal executivo da empresa para a América Latina, Alexandre Borges disse que a Campo Austral tem capacidade anual para produzir 25 mil toneladas.

Por fim, a BRF também anunciou ontem um memorando de entendimentos vinculante para adquiri, por 34 milhões de libras esterlinas (ou cerca de US$ 50 milhões) a Universal Meats, distribuidora de alimentos do Reino Unido que tem foco no atendimento ao food service – basicamente, os restaurantes.

Na avaliação de Pedro Faria, os negócios adquiridos no Reino Unido e na Tailândia são complementam. Para os tailandeses, os britânicos são os maiores importadores da carne de frango. Também há outras razões estratégicas – não citadas pelo executivo. Potência emergente no mercado de carne de frango, do qual o Brasil é líder, a Tailândia vinha ganhando mercado dos exportadores brasileiros em mercados importantes como o Japão.

"A BRF passa a ser a única empresa do planeta capaz de atender a [demanda] partir do Brasil e da Tailândia. A aquisição marca o deslocamento do eixo de gravidade da companhia para o Sudeste Asiático", ressaltou Pedro Faria. Na região, a BRF já havia investido na área de distribuição, com a aquisição, por US$ 19 milhões, de um fatia de 49% em uma joint venture em Cingapura.

Na série de aquisições feitas nos últimos dois anos, também se destacaram as compras dos ativos de distribuição de alimentos no Oriente Médio – a BRF comprou empresas ou participações em companhias em Omã, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e, mais recentemente, no Catar – esta última aquisição, de US$ 140 milhões, ainda depende da aprovação das autoridades reguladoras.

Do ponto de vista financeiro, o total de US$ 500 milhões a ser gasto pela BRF com as três aquisições anunciadas ontem – e que também dependem da aprovação dos órgãos antitruste – vão elevar o índice alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda em doze meses) da BRF, disse Faria. No entanto, ele assegurou que esse índice, que era de 1,24 vez no fim do terceiro trimestre, continuará em níveis "para lá de confortáveis", abaixo de 2,5 vezes.

De acordo com Faria, a BRF pretende financiar as três aquisições parte com recursos próprios – em junho, o caixa da BRF foi engordado com R$ 1,8 bilhão com a venda dos ativos de lácteos para a francesa Lactalis – e parte com o aumento da dívida. O executivo citou que uma possibilidade em estudo é emitir títulos de dívidas em pesos argentinos. (Colaborou Bettina Barros)

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo
Fonte : Valor