Brasileiro toma posse em órgão do café após forte campanha

Fonte: Valor | Mauro Zanatta e Cristiano Romero

A posse do economista Robério Oliveira Silva na Direção-Executiva da Organização Internacional do Café (OIC), no dia 1º de novembro, em Londres, marca a segunda vitória da presidente Dilma Roussef na estratégia de ocupação de cargos em foruns econômicos internacionais, em contraste com as derrotas sofridas pelo Brasil nos dois mandatos do ex-presidente Lula. A primeira foi a eleição de José Graziano da Silva para a direção geral do braço das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

A eleição de Robério foi resultado de uma intensa operação diplomática comandada pela cúpula do Itamaraty e que teve ativa participação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e de Graziano.

A campanha brasileira para eleger Robério Silva começou no início deste ano, sem alarde, pela Colômbia, terceiro maior produtor mundial de café e país natal do ex-diretor-executivo, Néstor Osório, que renunciou ao cargo há um ano para assumir o posto de embaixador na ONU.

Em seu périplo, Robério Silva encontrou-se com o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, que havia sido seu colega no conselho da Associação dos Países Produtores de Café (APPC), em Londres. Com o apoio decisivo dos colombianos, o subsecretário de Assuntos Econômicos do Itamaraty, embaixador Valdemar Carneiro Leão, principal organizador da campanha brasileira, ajudou Robério a consolidar o apoio do segundo maior país cafeeiro, o Vietnã. Assim, estavam garantidos os votos dos principais produtores mundiais.

No passo seguinte da campanha, a estratégia brasileira foi visitar os maiores consumidores de café, entre eles, França, Alemanha, Itália e Estados Unidos. Os franceses deram seu apoio. Os italianos, apesar do contencioso diplomático provocado pela não extradição do terrorista Cesare Battisti, também sustentaram o candidato brasileiro. Estados Unidos e Alemanha não optaram por Robério.

Embora fosse a favorita desde o início, a candidatura brasileira enfrentou a resistência dos americanos, que fecharam com o candidato do México, Rodolfo Trampe Taubert. O embaixador Carneiro Leão chegou a levar uma carta do ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, à secretária de Estado dos EUA, Hilary Clinton, para tentar mudar a posição americana.

O movimento do Itamaraty não mudou o voto do governo Barack Obama, mas ajudou a constranger a campanha dos EUA em favor do mexicano. Países que antes planejavam seguir a orientação americana, como Honduras, acabaram optando pelo candidato brasileiro. Na semana da eleição, o ministro Guido Mantega telefonou ao colega francês François Baroin para pedir votos em favor de Robério. O ministro Antônio Patriota entrou na disputa ao tentar conquistar a simpatia de seu contraparte alemão, Guido Westerwelle.

Entre os grandes países consumidores, a Itália foi quem primeiro abraçou a candidatura de Robério Silva, graças a vínculos antigos do economista com industriais locais, como o legendário Ernesto Illy, morto em 2008, e a multinacional Lavazza. Cada vez mais próxima do Brasil, principalmente em razão da possibilidade da venda de caças supersônicos, a França também fez força na Europa para auxiliar Robério. Embora seja grande consumidora e tenha alguma proximidade com produtores brasileiros, a Alemanha apoiou o mexicano.

Graças a um minucioso trabalho de bastidor conduzido por José Graziano, e das antigas conexões de Robério no continente, os países africanos apoiaram em peso o Brasil. Essa costura diplomática foi crucial para que, na véspera da votação, o candidato mexicano se retirasse da disputa. Antes, já haviam desistido os candidatos da Índia e do Gabão. Assim, Robério Silva foi eleito por aclamação dos 77 países da OIC.

Atual diretor do Departamento do Café do Ministério da Agricultura, Robério Silva tem estreita ligação com o tema. Foi secretário-geral da Câmara de Comércio Exterior (Camex) e secretário de Produtos de Base do Ministério do Desenvolvimento, ambos no governo Fernando Henrique Cardoso, além de secretário-geral da Associação dos Países Produtores de Café (APPC) entre 1994 e 2002.