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Brasil puxa o crescimento da EuroChem

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Newscom

Strezhnev: objetivo é equiparar o mercado brasileiro ao europeu e ao russo

No comando de uma das empresas russas que mais investiram no Brasil no ano passado, Dmitry Strezhnev não está preocupado se o presidente Michel Temer vai terminar o mandato ou se a retomada da economia brasileira vai tardar. "Sob quaisquer governos, o Brasil sempre dependerá de uma agricultura forte e exportadora para crescer. Não tenho motivo para estar preocupado", afirma o CEO da EuroChem, terceiro maior fabricante de fertilizantes do mundo. O empresário escolheu o bar do Ritz Carlton para encontrar o Valor, no dia 24 de junho, três dias depois de Temer ter deixado o mesmo hotel.

Strezhnev não compareceu ao fórum empresarial promovido pelo governo e pela Câmara de Comércio Brasil-Rússia. "Para ser franco, temos uma empresa no Brasil e queremos ficar entre os três maiores em vendas de fertilizantes no país, mas isso depende mais de nossos clientes do que dos governos brasileiro ou russo", diz, antes de ponderar que torce por condições cada vez mais favoráveis para a agricultura no Brasil e pelo estreitamento das relações entre os dois países.

Há 14 anos no comando da EuroChem, Strezhnev tem 10% da empresa. O controle acionário (90%) é de Andrey Melnichenko, um dos grandes oligarcas da economia russa que se iniciou nos negócios aos 21 anos como banqueiro da Perestroika e migrou para o setor industrial. O controlador da EuroChem é dono ainda duas outras empresas globais de energia, Suek e SGK e teve um de seus bens pessoais, um iate de autoria do design Philippe Starck, exposto na imprensa europeia como um das principais embarcações de luxo do planeta.

Quando Strezhnev foi atraído à EuroChem por Melnichenko, tinha vendido sua própria fábrica de ônibus a um antigo colega de faculdade, Oleg Deripaska, outro oligarca que montara um conglomerado industrial de transportes (Ruspromavto) na Perestroika e para quem passou a trabalhar. Tornou-se CEO da empresa de fertilizantes aos 35 anos com o objetivo de internacionalizá-la. Lastreia a autonomia de seu discurso em relação ao Estado no fato de a EuroChem ter sido criada na leva da segunda geração das empresas russas privatizadas depois do fim da era soviética.

O grupo se vale da abundância em gás natural, insumo para fertilizantes à base de nitrogênio, para concentrar a produção na Rússia, mas hoje também tem plantas industriais na Bélgica e na Lituânia e vendas globais. O maior mercado é a Europa (33%), seguido da Rússia (18%), América do Norte (15%), América Latina (14%) e Ásia (11%).

A transferência da sede da empresa para Zurique, há dois anos, fez com que a EuroChem fosse apenas lateralmente afetada pelas sanções comerciais decretadas pelos Estados Unidos. "Do ponto de vista legal, somos uma empresa suíça, mas não somos indiferentes às sanções porque temos crédito junto a bancos russos e a elevação nas taxas de juros também acaba por nos afetar".

O dano colateral não o torna menos crítico da política americana. Exibe, em temas de geopolítica, quase a mesma fluência com a qual discorre sobre a mistura de nitrogênio e potássio de seus fertilizantes. Diz que fomentar a guerra entre russos e ucranianos é parte da mesma lógica que antagoniza sunitas e xiitas no Oriente Médio. Strezhnev compartilha das suspeitas dos dirigentes russos de envolvimento americano na guerra civil que levou ao assassinato de Muammar Gadafi, na Líbia. É crítico ainda da política dos Estados Unidos na Síria ("Eles destruíram um país que era um fantástico museu ao ar livre") e da guerra do Afeganistão, a partir da qual diz que se triplicou a produção de ópio naquele país.

Otimista com os BRICs ("São países com terras, recursos naturais, população jovem e grandes economias"), Strezhnev tem particular entusiasmo em relação ao Brasil. "Vocês têm água, ferro e não precisam de plantas nucleares", diz o empresário que é físico nuclear pela Universidade Estatal de Moscou e cujo país é um dos maiores exportadores de urânio do mundo.

A EuroChem tem seus maiores clientes e mantém uma importância estratégia na identificação de novas demandas, como a dos fertilizantes ecológicos, mas tem um mercado estagnado. É no Brasil que Strezhnev ancora as maiores apostas de crescimento nas vendas do grupo. A meta é 10% de crescimento anual ao longo dos próximos 15 anos, o maior patamar projetado para as operações globais da EuroChem. O otimismo é lastreado no crescimento da demanda no Norte do país, especialmente na região do Matopiba (confluência dos Estados do Tocantins, Maranhão, Piauí e Bahia), onde a empresa já tem metade do mercado.

Foi a aposta no mercado brasileiro que levou a EuroChem a comprar o controle da Fertilizantes Tocantins, do empresário goiano José Eduardo Motta, no ano passado. "É uma empresa brilhante, que tem tido um crescimento excepcional", diz Strezhnev. A aquisição deu ao grupo no Brasil a mesma fatia de mercado (7%) que a empresa tem nos Estados Unidos, com cerca de 2 milhões de toneladas em vendas. "O objetivo é que o Brasil se transforme num mercado tão importante para nós quanto a Rússia e a Europa", diz. "Não é possível fazer isso sem um parceiro local. Foi a parceria com a Tocantins que nos possibilitou almejar uma meta tão ambiciosa".

Como o Brasil não detém jazidas importantes da matéria-prima dos fertilizantes, está condenado a ser um importador, mas a Tocantins não se limita a distribuir o produto. As quatro fábricas da empresa fazem a mistura dos componentes importados. As três unidades em construção no Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás também o farão. O objetivo da EuroChem é chegar, daqui a dez anos, a 8 milhões toneladas. Com esse patamar de vendas, a empresa passaria de quinta a terceira no mercado brasileiro. Para atingir a meta, pretende investir em infraestrutura e logística, basicamente transporte e armazenamento.

Os parceiros eleitos são a Hidrovias do Brasil e a VLI. Strezhnev sublinha num mapa os investimentos em terminais e armazéns que pretende fazer para aumentar a capacidade operacional de sua empresa. Os planos passam por um novo terminal em Itaqui (MA), e instalações logísticas ao longo da ferrovia que liga o porto de Vitória, no Espírito Santo, a Araguari (MG). Mostra-se ainda atraído pelos planos de uma ferrovia que ligaria o porto de Ilhéus (BA) à cidade de Porto Nacional (TO). Estima que os aportes nessas operações levem a EuroChem a investir U$ 200 milhões nos próximos cinco anos.

Para otimizar esses investimentos, Strezhnev já planeja parcerias com empresas que exportam soja para a Rússia, como a Amaggi, e se valem, portanto, da mesma logística da EuroChem, só que no sentido inverso, para que se evitem vagões vagos. O CEO da EuroChem não descarta linhas do BNDES para ampliar seus investimentos em infraestrutura no Brasil, mas ainda não formalizou contatos com o banco.

A EuroChem também pretende expandir, no Brasil, a linha de fertilizantes ecológicos. Hoje as vendas desse tipo de produto estão concentradas na Europa, mas Strezhnev vê no cultivo de frutas do Vale do Rio S.Francisco, majoritariamente destinado à exportação, um mercado potencial.

O CEO da EuroChem cita os 6 milhões de toneladas em grãos importados pela China, do Brasil, que podem chegar a 8 milhões em dois anos, como sinal da importância estratégica dos seus investimentos no país. Essa demanda chinesa, não tem dúvida, vai impulsionar o mercado brasileiro a aumentar a demanda de seus fertilizantes. "O Brasil tem um ativo importante que é uma produção agrícola barata", diz Strezhnev, ao listar as vantagens competitivas do agronegócio brasileiro: é um exportador muito agressivo, tem largas áreas de cultivo e, sob quaisquer presidentes, forte presença na política nacional.

Por Maria Cristina Fernandes | De Moscou

Fonte: Valor