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Brasil no mapa de empreendedor canadense

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Lucas Jackson/Reuters

Criada por Murad Al-Katib, AGT tornou-se a maior do mundo com cadeia de abastecimento integrada para pulses

O canadense Murad Al-Katib, eleito Empreendedor Mundial de 2017 em evento da consultoria EY realizado no sábado, em Mônaco, alimenta um plano: estimular a produção de feijão e lentilha também no Brasil e Argentina para exportar ao resto do mundo.

Filho de imigrantes turcos, Al-Katib abandonou em 2001 um emprego no governo canadense, quando sua mulher estava grávida de seis meses de gêmeos. No porão de sua casa, trabalhou num plano de negócio baseado na produção de proteínas vegetais e outros alimentos básicos para boa parte de países em desenvolvimento.

O plano começou a se concretizar em 2003 quando ele conseguiu convencer agricultores canadenses a substituir culturas tradicionais como trigo e oleaginosas por lentilha, ervilha, grão de bico e feijão.

Hoje, a AGT Food and Ingredients tornou-se a maior companhia do mundo com cadeia de abastecimento verticalmente integrada para pulses com valor agregado, alimentos básicos e ingredientes alimentares. Compra de produtores em torno de suas 46 unidades industriais localizadas no que ele considera serem as melhores regiões de crescimento de pulses no Canadá, EUA, Turquia, Austrália, China e África do Sul e exporta para mais de 120 países.

O Canadá tornou-se o maior produtor de lentilhas do mundo, visando o mercado externo. Só a AGT exporta 23% do produto comercializado no mundo. Também exporta a maior parte de sua produção de ervilhas para Índia e China.

Esse império de proteínas vegetais fez 17 aquisições em sete anos em cinco continentes. O faturamento total chegou a US$ 1,49 bilhão em 2016. A receita aumenta US$ 100 milhões por ano, em média. A margem tem sido de 5,5%.

Murad foi eleito o melhor empreendedor do mundo tanto por seu sucesso num negócio novo, como por seu engajamento social. Usou suas fábricas e rede de distribuição para fornecer pacotes de alimentos a mais de quatro milhões de refugiados sírios, por meio do Programa Alimentar Mundial, das Nações Unidas. "Eu sou engajado em ações sociais e ambientais, mas também sou realista. As proteínas vegetais têm demanda que cresce 10% ao ano", afirmou.

Murad Al-Katib considera inevitável que proteínas vegetais gradualmente substituam a produção de carnes, atenuando os estragos no ambiente. "Água está cada vez mais escassa, e não dá nem para comparar o que se gasta de água para produzir um quilo de carne bovina e um quilo de lentilhas".

Para ele, é preciso criar 2 bilhões de vegetarianos no mundo, para garantir alimentos para todos sem destruir mais o ambiente, na medida em que a população mundial tende a crescer para 10 bilhões de pessoas nas próximas décadas.

Além de vender a países em desenvolvimento onde pulses são alimentos básicos, o empresário é enfático sobre como esses vegetais oferecem características que as companhias de alimentos estão buscando e produtos que mais consumidores estão pedindo, nos mercados desenvolvidos.

Em entrevista em Mônaco, após ganhar o prêmio, ele disse que isso ocorre em razão dos benefícios dos pulses para a saúde, como o alto nível de proteínas e fibras, nutriente denso, pouca gordura, ausência de glúten e modificação genética. Além disso, são produzidos com menor uso de energia, menor emissão de gases-estufa, melhora do solo através de cultivo rotativo e melhor eficiência no uso da água.

"A geração de ‘millenials’ (segmento entre 18 e 35 anos) pede cada vez mais esse tipo de produtos vinculados à vida mais saudável", disse. A AGT está expandindo os negócios na Índia, África do Sul e China. Também diversificou unidades de negócios para áreas como arroz e fibras.

Ao Valor, Murad Al-Katib comentou que a América do Sul está no radar. "Não dá para ignorar o potencial do Brasil e da Argentina, tanto pelo consumo interno como pela força de exportação", disse.

Para o empresário canadense, um plano é estimular mais produção de feijão para exportar. A China é o único grande produtor que exporta. O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de feijão, com 3,3 milhões de toneladas em 2015, mas ainda teve que importar 304 mil toneladas para atender o mercado doméstico. Al-Katib mencionou variedades de feijão – marinho, pinto, preto, branco, fava etc -, mas vê potencial em produção de outras proteínas vegetais no país, incluindo lentilhas.

Não é a primeira vez que o potencial de produção de lentilhas no Brasil é discutido. No ano passado, o ministro de Agricultura, Blairo Maggi, disse que um novo caminho de vendas do Brasil para a Índia passava pela produção de lentilhas. A Índia é o maior consumidor mundial do produto e busca fornecedores seguros.

As estimativas são de que a Índia precisará importar cerca de 30 milhões de toneladas de lentilhas por ano em 2030 para atender a sua demanda interna. Em comparação, o Brasil exporta 63 milhões de toneladas de soja, o carro-chefe do agronegócio do país.

Por Assis Moreira | De Mônaco

Fonte : Valor