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Brasil global e lições da Rio+20 (Artigo)

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GILBERTO LIMA JR.

O Brasil mais uma vez foi o protagonista de uma conferência mundial sobre o clima e a sustentabilidade que envolveu centenas de nações. Compareceram 188 delegações de Estados membros, além de três observadores, mais de 100 chefes de Estado e 4.075 profissionais da mídia. Na agenda oficial e nos fóruns paralelos, 45 mil pessoas debateram e encaminharam propostas com vistas ao consumo mundial responsável, o combate ao desperdício, a utilização de energias renováveis na produção de bens, os incentivos à reutilização ou reciclagem de produtos, o endurecimento com os fabricantes quanto à logística reversa de materiais e o tratamento de resíduos sólidos, a compensação ambiental aos países em desenvolvimento por parte dos países desenvolvidos, a preocupação com o fenômeno do êxodo ambiental provocado por desertificações e outros males provenientes da agressão ao meio ambiente, resumidos em 13 projetos principais, cujo investimento projetado soma US$ 513 bilhões até 2022.

Durante o Fórum de Sustentabilidade Corporativa, organizado pelo Global Compact, da ONU, mais de mil empresas trataram sobre as práticas sustentáveis e assumiram compromissos, como a Microsoft, que apontou para redução a zero a emissão dos gases de efeito estufa em seus bancos de dados, laboratórios de desenvolvimento e viagens aéreas de funcionários, mediante compensações entre a emissão e a captação de CO2, com aquisição de crédito de carbono a partir de 1º de julho de 2012. A Arcelor Mittal, líder na produção mundial de aço, comprometeu-se a reduzir em 8%, por tonelada de aço produzido, o montante de suas emissões.

A brasileira Natura esteve em evidência por posicionar-se além do discurso politicamente correto, fazendo a diferença na hora de fabricar, adquirir e posicionar suas linhas de produtos, primando pela sustentabilidade em toda a cadeia, desde a seleção das matérias-primas, passando pela produção até o varejo.

Na China, o governo de Zhou Xiansheng está determinado a implementar as prioridades do último plano quinquenal quanto à transformação do modelo econômico do país pela via da gestão ambiental e do desenvolvimento de indústrias de baixo consumo energético, popularização da produção limpa e estímulo ao consumo verde. Ou seja, querem fazer do limão uma limonada. Acuados pela cobrança global por figurarem entre os maiores poluidores do mundo, querem ser os maiores fornecedores de máquinas e equipamentos voltados à eficiência energética e à sustentabilidade.

E quanto ao Brasil? Em um dos debates da conferência foi abordado sobre a imagem brasileira no mundo no que se refere ao aspecto ambiental. Somos percebidos como poluidores, em função das notícias e imagens nos rotulando como desmatadores da Amazônia. Imagens exaustivamente exploradas de árvores caindo, contrabando de madeiras etc. são veiculadas globalmente dando-se a entender que o mundo corre risco pela irresponsabilidade ecológica brasileira. É preciso reverter essa percepção da população global, primeiro coibindo efetivamente os desmandos e crimes ambientais e, sobretudo, mostrar nossas vantagens comparativas, como o fato de termos 47% de nossa matriz energética limpa, utilizando gás natural, etanol, biocombustíveis, energia eólica e energia solar. Detemos 12% da água doce do mundo, figuramos entre os países com maior número de áreas de reserva e proteção ambiental e 83% de nossa frota de veículos é flexfuel, evitando milhões de toneladas de gases tóxicos na atmosfera.

O Top of Mind mundial nos permite associar Japão, quando pensamos em alta tecnologia; Itália, quando pensamos em design; moda, quando pensamos na França; e daí por diante. Por que não investirmos de forma séria e profissional numa ampla estratégia de conversão de nossa produção destinada ao mercado global, inserindo as práticas sustentáveis, obtendo certificações ambientais para nossas empresas, produtos e serviços?

Precisamos replicar as melhores práticas fazendo surgir milhares de empresas exportadoras comprometidas com o meio ambiente efetivamente. Num mundo competitivo, dominado pelos baixos custos baseados em baixos salários e encargos sociais asiáticos, ou de alta tecnologia dos países ricos, é preciso se diferenciar pela via da inovação tecnológica, do design e da sustentabilidade em nossa oferta exportável.

Se houvesse um programa voltado ao diferencial competitivo exportador associado a ampla campanha global de posicionamento da imagem do Brasil sustentável, desde que continuada, atingiríamos nas próximas décadas o Top of Mind associados à ideia de produtos sustentáveis perante o consumidor global. Além dos dividendos naturais, poderíamos assegurar uma efetiva mudança no perfil de nossa pauta exportadora, hoje associada às commodities que, por sua vez, não carregam a melhor imagem do ponto de vista de meio ambiente. O mais difícil é essa visão ser enxergada e percebida no Top of Mind dos responsáveis pela formulação de nossas políticas públicas no campo comercial, responsáveis inclusive pelo posicionamento da imagem de nosso país no mundo.

*GILBERTO LIMA JR. Consultor em negócios internacionais, presidente da GoingGlobal Consulting e membro do Conselho do World TradeCenter (gilberto@goingglobalconsulting.com.br).

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE – DF Jornalista(s): GILBERTO LIMA JR.