"Brasil e EUA devem ser parceiros", afirma economista do Departamento de Agricultura americano

Warren P. Preston, que está em Florianópolis (SC) para congresso nesta semana, disse que disponibilidade de área para plantar mais grãos é a maior vantagem competitiva do Brasil

Por: Leandro Becker

23/06/2015 – 04h31min

"Brasil e EUA devem ser parceiros", afirma economista do Departamento de Agricultura americano Divulgação/Divulgação

Para Preston, fóruns são importantes para promover a troca de conhecimento e criar redes de cooperaçãoFoto: Divulgação / Divulgação

Economista do Departamento de Agricultura americano (USDA, na sigla em inglês), Warren P. Preston está no Brasil para participar do 7º Congresso Brasileiro de Soja e do 6º Mercosoja, que começou segunda-feira e vai até quinta em Florianópolis (SC).

Em entrevista exclusiva, Preston disse que Brasil e EUA não devem ser rivais e ressaltou que ter mais área para grãos é a maior vantagem competitiva do Brasil. Veja a seguir, os principais trechos:

Como analisa a sequência de safras recordes de grãos do Brasil nos últimos anos?

O salto do Brasil em soja e milho se deu em um momento de crescente demanda por parte da China, avanço da produção de biocombustíveis, nos Estados Unidos e em outros países, e cenário favorável diante de problemas climáticos que limitaram a produção de milho americana. O Brasil aumentou a sua participação preenchendo o vazio deixado pelos EUA.

Como grandes produtores, Brasil e EUA são mais concorrentes ou parceiros?

A diferença na época de plantio faz com que os calendários de exportação não coincidam. Mas quando um produz safra recorde, a temporada de exportação pode se estender mais do que o normal e afetar os negócios e preços para o outro. Em geral, com a China sendo um grande importador de soja o ano todo, Brasil e EUA efetivamente trabalham como parceiros.

Até que ponto a dependência da soja pode ser um risco?

Percebemos que o Brasil está expandindo sua produção. Esta situação tem sido semelhante nos EUA. Mas ambos têm condições para atender a demanda por grãos sem causar prejuízo a outros setores, como a pecuária.
Como você avalia a expansão crescente do mercado chinês nos últimos anos?
Nos últimos 10 anos, o Brasil tornou-se mais dependente da China no mercado de soja, com negócios passando de cerca de 30% para mais de 70%. No caso dos EUA, a história é a quase a mesma: de 35% para cerca de 60%. Daqui para frente, no nosso caso, há limitações para expansão, principalmente de área para cultivo. Com isso, os ganhos terão de ser impulsionados pela maior produtividade.

Qual sua análise sobre o papel cada vez mais crescente da tecnologia no campo?

Os ganhos de produtividade no Brasil são muito semelhantes aos dos EUA. As melhorias em genética, manejo e máquinas foram muito importantes. Este crescimento tem colocado pressão adicional sobre a infraestrutura de transporte, mas aqui têm ocorrido investimentos em armazenamento e logística para atender à demanda.

A logística é um dos maiores entraves no Brasil. Qual importância tem no desempenho da agricultura americana?

Investimentos públicos e privados na logística de grãos dos EUA têm mantido os custos de transporte baixos e garantido competitividade na produção de grãos e nas exportações.

O preço da soja caiu e, no Brasil, isso foi compensado pela desvalorização do real. Qual foi o impacto nos EUA?

No último ano, o preço da soja caiu cerca de 30%. Poderia se esperar que a área cairia nos EUA, mas o preço da soja sozinho não é o único fator levado em conta pelo produtor, e parece que aqui atingiremos novo recorde. Para o Brasil, espera-se um pequeno aumento na área no próximo ciclo, já que a soja ainda é a melhor alternativa de renda.

O que se pode projetar para o futuro da soja em 10 anos?

A produção do Brasil deve aumentar de 94,5 milhões de toneladas para cerca de 129 milhões de toneladas em 2024/25 – crescimento de 3% ao ano. Este avanço deve vir do crescimento em área (2% ao ano) e produtividade (1,2%). Hoje, o Brasil responde por 30% da produção mundial, o que deve subir para 35% em 10 anos. Os principais mercados devem ser China e leste e sudeste asiático. Os principais produtores continuarão sendo Brasil, Argentina, Paraguai, EUA, Índia e China.

Como analisa o potencial do Brasil no mercado de carnes?

Exigências sanitárias continuam a ser uma preocupação para todos os países, especialmente para bovinos e aves. A capacidade do Brasil de produzir grandes quantidades de farelo de soja e grãos faz com que a expansão da produção de ração avance e ajude a alavancar as exportações. Obstáculos sanitários serão só um dos muitos desafios que terão de ser discutidos por meio de negociações e de mudanças nas práticas industriais.

O Brasil vive um ajuste econômico. Qual foi o efeito da crise de 2008 nos EUA e como atingiu o agronegócio?

Por causa da alta no valor das commodities agrícolas de 2006 até 2013, do crescimento da produtividade e da valorização no preço das terras, muitos produtores americanos não foram largamente afetados pela crise. Desde então, o USDA fez uma transição nos programas e políticas agrícolas, mudando o foco para garantir a proteção de receitas, incluindo seguro agrícola.

Produzir alimentos será o grande desafio mundial. Como suprir esta necessidade?

As melhorias na tecnologia e a oportunidade de destinar mais terra à agricultura em países como Brasil e Indonésia permitirão ao mundo superar este desafio. Mas será importante que a pesquisa siga ajudando a garantir melhor produtividade e variedade de sementes, além de políticas de equilíbrio ambiental e melhor infraestrutura.

Como projeta o impacto das mudanças climáticas nos resultados do agronegócio?

Em 2013, relatório do USDA concluiu que o aumento na temperatura e da chuva reduzirão a produtividade das culturas e impactarão na produção de animais. E apontou que novas estratégias de gestão, maior conhecimento meteorológico e desenvolvimento de sistemas integrados ajudarão a sustentar a produção agrícola.

Que lições o Brasil pode dar aos EUA e vice-versa?

Brasil e EUA têm muito em comum e podem aprender um com o outro. Temos agricultores produtivos e fortes sistemas de pesquisa agrícola. Como os dois países se esforçam para aumentar produtividade, certamente se beneficiarão diante do aumento da demanda e do consumo no mundo.

Fonte: Zero Hora