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Brasil ‘ajuda’ Syngenta a conquistar a ChemChina

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Silvia Zamboni/Valor

Laercio Giampani, presidente da Syngenta no Brasil: país pode ser o "número 1"

A um mês da provável conclusão de sua venda para a ChemChina, a suíça Syngenta acelera o passo para fortalecer ainda mais sua posição no mercado brasileiro, crucial no investimento da estatal chinesa. "O Brasil é o segundo negócio no mundo para a Syngenta e tem potencial para ser o primeiro", afirmou Laercio Giampani, presidente da multinacional no país, ao Valor.

Segundo ele, o Brasil já responde por 20% do faturamento da companhia e perde apenas para a América do Norte (EUA e Canadá), que em 2016 representou 25% de um montante global de US$ 12,8 bilhões. Cerca de 67% das vendas da divisão América Latina da Syngenta, que foram de US$ 3,3 bilhões, tiveram origem no Brasil.

Nenhuma grande mudança estratégica ou qualquer investimento relevante deverão ser anunciados pela Syngenta até a aprovação de venda para a ChemChina. Em fevereiro, a chinesa estendeu o prazo de sua oferta de US$ 43 bilhões pela suíça para até 28 de abril, com a perspectiva de que a transação será aprovação dos órgãos regulatórios.

Nesta semana, a União Europeia aprovou a fusão de US$ 145 bilhões entre as americanas Dow Chemical e DuPont, a primeira das três megafusões nessa área que estão na fila de análise. O sinal verde da UE para a compra da americana Monsanto pela alemã Bayer, por US$ 66 bilhões, deverá sair no mês que vem.

Nesse xadrez, o Brasil é peça indispensável, por ser um dos poucos países que apresentam oportunidades de crescimento tanto geograficamente quanto em produtividade. E, num mercado cada vez mais disputado, a Syngenta tem apostado na ampliação da capilaridade regional de seus negócios.

"O Brasil é um continente e nós estamos presentes em todos os municípios que têm agricultura. Isso gera oportunidades", disse Giampani, em referência ao desenvolvimento de tecnologias específicas para as diferentes regiões do país.

Líder no mercado brasileiro de defensivos – pelo menos até a aprovação da compra da Monsanto pela Bayer -, a Syngenta planeja subir para a segunda colocação no mercado de sementes. O plano não é novo, mas ganha traços cada vez mais firmes desde que a companhia integrou os negócios de químicos com os de sementes, em 2008.

Segundo Giampani, a estratégia de avanço em sementes não pode ser dissociada da área de defensivos. Nossa estratégia é a combinação das tecnologias". Segundo a companhia, o negócio de sementes no Brasil cresceu, em receita, cerca de 20% entre 2015 e 2016. No ano passado, a área de sementes da divisão America Latina gerou receita de US$ 448 milhões, 12% a mais que em 2015.

Em 2016, segundo dados preliminares da Kleffmann, consultoria especializada em agronegócio, o mercado brasileiro de sementes movimentou cerca de US$ 4,5 bilhões, ou cerca de 9% do faturamento global. Nessa frente, cujas vendas são lideradas por Monsanto e DuPont Pioneer, o país perde só para EUA e China.

Para a safra 2017/18, as perspectivas da Syngenta são positivas. "Acho que nós temos um Brasil mais pronto para a safra do que tínhamos no passado", avaliou o presidente da múlti no país. Na safra 2016/17, o clima ajudou o agricultor, e a supersafra de grãos deve aliviar endividamentos. Mas são muito os desafios.

"A gente tem menos volatilidade, com um câmbio melhor definido, mas, ainda assim, há muitas incertezas", disse o executivo – que destacou que, em 2015/16, a falta de recursos de bancos e do governo levou a companhia a "financiar" a safra. "O agricultor continuou dependente de crédito e quem forneceu fomos nós".

Em 2016, as operações de barter – troca de insumo por produção – representaram cerca de 17% das vendas da Syngenta no Brasil. Também como solução na área de financiamento, a companhia emitiu, em dezembro, Certificados Recebíveis do Agronegócio (CRA) de R$ 135 milhões, menor que os R$ 321 milhões de 2015. A soma das demais alternativas financeiras totalizou R$ 173 milhões também no ano passado.

As turbulências vividas no mercado brasileiro trazem desafio adicional às múltis que estão investindo no país. "A Syngenta trabalha pensando no Brasil e o ônus é que temos de trazer retorno num país que tem muita volatilidade", afirmou Giampani.

Por Kauanna Navarro | De São Paulo

Fonte : Valor