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Bourbon amarelo ‘apressado’ chega mais cedo na O’Coffee

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Silvia Costanti/Valor

Trabalhadores fazem coleta seletiva de café bourbon amarelo na O’Coffee

Numa tarde quente de fevereiro, com nuvens no céu estimulando a imaginação, um grupo de trabalhadores faz colheita seletiva de café bourbon amarelo na fazenda Nossa Senhora Aparecida, da O’Coffee, em Pedregulho (SP), na região da Alta Mogiana. Não seria nada de mais não fosse pelo fato de que a colheita da variedade está acontecendo com dois meses de antecedência nesta safra 2017/18. E poderia ter começado ainda em janeiro se as chuvas na região não tivessem impedido.

A colheita seletiva – grão por grão – da variedade bourbon amarelo numa área de cerca de 50 hectares das fazendas da O’Coffee – pertencente ao grupo SolPanamby, que também controla o Octavio Café – começou na terceira semana de fevereiro. Em condições normais de temperatura e pressão, teria início entre meados e o fim de abril.

A razão para esse cenário inusitado está no clima do ano passado. Úbion Terra, diretor-executivo da O’Coffee, explica que houve chuvas durante a colheita da safra 2016/17 do bourbon amarelo em maio do ano passado. Essas chuvas anteciparam a florada da safra 2017/18 da variedade, que tem como característica a precocidade. "As plantas estavam sob estresse hídrico, então a chuva precipitou o florescimento dos cafezais", diz.

Com o fim das chuvas, a florada seria interrompida, mas a área agronômica da O’Coffee decidiu entrar com a irrigação dos cafezais para dar seguimento ao processo e para que houvesse o "pegamento" das flores nas plantas, acrescenta Terra. Deu resultado. A florada, que normalmente ocorreria entre setembro e outubro, continuou, e a época da colheita também foi acelerada.

A área de bourbon amarelo que está sendo colhida corresponde a um terço da extensão plantada (150 hectares) com a variedade pela O’Coffee, que cultiva, no total, atualmente, 1.200 hectares de arábica de seis diferentes variedades (bourbon amarelo, mundo novo, catuaí, catucaí, acaiá e icatu) e produz cafés especiais desde 2011.

Embora a área seja pequena, a colheita antes da hora tem gerado uma certa euforia na O’Coffee. Isso porque a expectativa é que o bourbon amarelo colhido esteja "entre os melhores cafés da safra", segundo Úbion Terra. Isso significa que o destino do grão serão microlotes nos quais uma saca de café pode ser vendida a R$ 3 mil, estima ele.

Segundo o executivo, que era gerente-geral e assumiu a direção da O’Coffee em meados de 2016, após a saída de Edgard Bressani, os cafés colhidos nessas áreas de bourbon amarelo têm conseguido classificação de 89 pontos, conforme os critérios do protocolo de avaliação da Associação Americana de Cafés Especiais. Para ser classificado como especial, o café tem de ter nota de, no mínimo, 80 pontos.

Ter produto disponível mais cedo também é um atrativo para os clientes da O’Coffee, que exporta cafés especiais, diretamente, sem intermediários a 15 países, entre os quais Austrália, Nova Zelândia, Coreia do Sul, nações do Leste Europeu e outros.

Em menor dimensão, o clima de meados de 2016 também acabou adiantando a colheita em uma parte da área cultivada na O’Coffee com a variedade acaiá, que normalmente seria retirada dos cafezais em maio. Mas o volume é menos significativo.

Silvia Costanti / Valor

Vanderlei Serafim, da gestão agrícola da O’Coffee, mexe bourbon amarelo em terreiro suspenso para secagem de café

Ainda que a colheita antecipada do bourbon amarelo – café que tem como características doçura intensa, acidez pronunciada e notas de caramelo – venha sendo, de certa forma, comemorada na O’Coffee, há uma nuvem de preocupação no horizonte em relação à produção total de café da empresa nesta safra 2017/18.

A previsão inicial da O’Coffee é colher 28 mil sacas de café no ciclo 2017/18, que é de bienalidade negativa, depois de ter produzido 35 mil sacas na safra passada, quando a expectativa inicial era colher 31 mil sacas.

Mas o clima pode frustrar as previsões para o ciclo atual. Após chuvas abaixo do esperado em novembro e dezembro passados, o temor é que falte precipitação até maio, quando a colheita começa na maior parte das lavouras de café.

De acordo com Milton Verdade, conselheiro agronômico da O’Coffee, as chuvas em novembro e dezembro totalizaram 280 mm, bem abaixo da média de 500 mm esperada para os dois meses na região de produção da O’Coffee. "Se não chover até maio, o potencial é de pender para 25 mil sacas de café", estima. As chuvas são fundamentais neste momento, explica, porque a cultura está em fase de enchimento de grãos.

Milton Verdade observa que já existe um déficit hídrico nas lavouras, uma vez que em fevereiro as chuvas também ficaram abaixo da média na região, que é de 200 mm. Até o dia 22 de fevereiro, havia chovido 109 mm.

Por Alda do Amaral Rocha | De Pedregulho (SP)

Fonte : Valor