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Boas perspectivas para produtores de borracha em 2012

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Leonardo Rodrigues / Valor / Leonardo Rodrigues / Valor
Segundo Sampaio, ex-secretário de Agricultura e produtor de borracha, indústrias preferem matéria-prima brasileira

Os produtores brasileiros de borracha não têm do que reclamar de 2011. O ano foi de preços internacionais recordes, graças a quebras de safras nos principais países produtores, e demanda aquecida no mercado interno.

E o cenário de cautela que deve predominar ao longo de 2012, devido às incertezas persistentes na economia mundial, ainda não assusta o setor. Segundo indústrias de beneficiamento, o que poderá haver neste próximo ano é somente o cumprimento das entregas contratadas, sem o "desespero" por mais matéria-prima que caracterizou principalmente o primeiro semestre de 2011.

"Estamos em uma situação confortável", diz Anette Buuck, sócia da Hevea-Tec, maior fornecedora de borracha natural para a indústria pneumática do país. A empresa, localizada no polo de São José do Rio Preto (SP), fechou este ano com 17,7 mil toneladas produzidas e comercializadas, contra 13,5 mil toneladas em 2010. Para 2012, a expectativa é que saiam da usina 21 mil toneladas de borracha. "Não vemos desaquecimento", afirma ela.

Essa aparente calma tem por trás a garantia de mercado cobiçada por qualquer segmento industrial: praticamente toda a borracha dos seringais brasileiros sai do campo já contratada. Isso porque o Brasil tem um déficit significativo de borracha natural. O país tem produzido uma média de 130 mil toneladas por ano e consumido 385 mil. "Nossa produção atende somente a um terço da demanda brasileira por borracha, relação que tem se mantido desde 1994", diz Heiko Rossmann, diretor da Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha (Apabor).

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A diferença na conta vem da Tailândia, Indonésia e Malásia, líderes mundiais na produção de borracha. Se há desaquecimento, o primeiro produto a ser cortado é o importado, explica João Sampaio, ex-secretário de Agricultura de São Paulo e ele próprio um produtor e entusiasta da cultura. "As indústrias dão sempre preferência ao produtor brasileiro por uma série de motivos", diz. Encomendas com 90 dias de antecedência, tarifa de importação, carta de crédito, frete de navios, riscos de demora do produto no porto justificam a compra nacional, "ainda que a borracha brasileira custe um pouco mais caro".

A garantia de compra da matéria-prima – que torna o cultivo de seringueiras uma espécie de "aposentadoria" para o produtor rural – foi somada este ano por preços que surpreenderam o próprio mercado. Durante boa parte do ano, as cotações da commodity, que tem como referência a Bolsa de Cingapura, orbitaram na faixa de US$ 4 mil a tonelada – patamar alto para a média histórica de US$ 2,5 mil a US$ 3 mil. Já seria bom o suficiente, não tivessem, já no raiar do ano, batido na casa dos US$ 5 mil. "Foi um ano excepcional para o produtor brasileiro", diz Marcos Vicente Santin, presidente da Apabor.

A quebra de safra na Tailândia e problemas na produção indonésia, ao mesmo tempo em que China e Brasil aumentavam a demanda, formou o caldo ideal para a guinada das cotações. A era dourada começou precisamente no último dia útil de 2010, permanecendo acima desse valor até 15 de abril. O estoque global de 2,5 milhões de toneladas recuou para 1,6 milhão de toneladas.

Os preços altos duraram até setembro, quando o cenário começou a virar. A China reduziu ligeiramente o apetite, na esteira de uma desaceleração de sua economia. No Brasil, a luz amarela apareceu no terceiro trimestre.

Com isso, os preços recuaram para o patamar atual de US$ 3,3 mil a tonelada. Para os produtores e beneficiadores de borracha, trata-se de um cenário muito mais realista. "Os US$ 5 mil do começo deste ano eram ponto fora da curva", diz Sampaio, lembrando que a queda foi minimizada pela valorização cambial. "Foi um crescimento louco, todos sabiam que aquilo não era realista", concorda Anette, da Hevea-Tec.

O desaquecimento econômico também deverá pôr fim ao período de "guerra" entre as indústrias por mais borracha, o que acarretou em um sobrepreço de até 10% no quilo negociado. Para Sampaio, o que acontecerá a partir de agora é que as indústrias passarão a comprar apenas o que está previsto em contrato. "Para nos afetarem, só uma desaceleração muito forte nos Estados Unidos e no Bric [Brasil, Rússia, Índia e China]". Como disse o ex-secretário, o primeiro corte será na importação do produto, algo que já começa a ser sentido.

Cerca de 80% da borracha natural segue para a indústria pneumática. Nesse mercado, cerca de 30% vão para as montadores, outros 30% para exportação e 40% para a indústria de reposição. Os 20% restantes da borracha natural do país dividem-se no chamado "mercado leve", que inclui de solas de sapato a limpador de para-brisas, preservativos a bicos de mamadeira.

O Estado de São Paulo responde por pouco mais da metade da produção nacional – são 77 mil hectares plantados com seringueiras de um total de 155 mil hectares no país. Mato Grosso do Sul destaca-se como outro potencial produtor, com investimentos em ascensão nos últimos anos.

Fonte:  Valor | Por Bettina Barros | De São Paulo