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Boas perspectivas para a soja em 2012/13

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A disparada das cotações internacionais da soja nas últimas semanas, após meses de negociações em patamares já elevados, deverá estimular a ampliação da área plantada com a oleaginosa no país e garantir margens polpudas aos produtores brasileiros na safra 2012/13. Carro-chefe do agronegócio nacional há mais de uma década, a soja poderá, assim, retomar a dianteira na colheita de grãos e fortalecer sua liderança no valor bruto da produção (VBP) agrícola e nas exportações do setor.

Com a "ajuda" de um câmbio também mais atraente, os bons preços que marcaram o primeiro semestre levaram à aceleração das vendas antecipadas e praticamente já definiram mais um ciclo de aumento da área de cultivo em Mato Grosso, que encabeça a produção de soja do Brasil. Conforme o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), vinculado à Federação da Agricultura e Pecuária do Estado (Famato), a movimentação dos produtores indica que área, produtividade e produção deverão aumentar em relação ao ciclo 2011/12 – 4,8%, 2,7% e 7,7%, respectivamente.

Segundo as mais recentes projeções do Imea, a área semeada com soja deverá alcançar 7,4 milhões de hectares em 2012/13 em Mato Grosso, 1,7 milhão mais que em 2008/09 e um novo recorde. A colheita, por sua vez, está calculada em 23 milhões de toneladas, 5,5 milhões mais robusta que em 2008/09 e, se confirmada, também a maior da história. Ainda de acordo com o instituto, 48,3% da produção prevista – e que sequer foi plantada – já foi negociada, quando nesta mesma época do ano passado, quando estava em andamento a comercialização da safra 2011/12, o percentual era de 21%.

Como o Imea calcula que 94% das sementes, 92% dos fertilizantes e 95% dos defensivos necessários para a semeadura da oleaginosa já estejam comprados em Mato Grosso, pode-se – quase – garantir que só um acidente grave será capaz de evitar o avanço. E o clima, principal protagonista de "acidentes graves" no campo, por enquanto dá sinais de que será favorável. Previsões meteorológicas atuais sinalizam boas e desejáveis chuvas para o início do plantio no Estado, em 15 de setembro.

Nas contas da Céleres, consultoria com sede em Uberlândia (MG), 35% da soja que deverá ser colhida no país em 2012/13 já está comprometida com tradings e esmagadoras graças aos "excelentes patamares de preços pagos no mercado interno e à proximidade dos trabalhos de cultivo da nova safra". A Safras & Mercado estima que 33% da futura produção nacional já esteja comprometida, com destaque para os elevados percentuais em Mato Grosso (48%), Goiás (40%), Bahia (32%) e Minas Gerais (32%). Mesmo o Rio Grande do Sul, que historicamente antecipa pouco as vendas, já tem cerca de 15% da colheita esperada "travada".

Segundo o Departamento da Agricultura dos EUA (USDA), a colheita deverá atingir 78 milhões de toneladas do grão no Brasil no novo ciclo, ante 65,5 milhões em 2011/12 e 75,5 milhões em 2010/11. A Conab, ligada ao Ministério da Agricultura, ainda não divulgou estimativas para 2012/13, mas calculou a colheita em 66,4 milhões de toneladas em 2011/12, ante 75,3 milhões no ciclo anterior.

Esta forte quebra da produção na safra recém-encerrada, provocada por uma longa estiagem gerada pelo fenômeno La Niña e concentrada na região Sul do país, pode ser considerada a primeira lufada em direção ao avanço nacional que deverá ser observado em 2012/13. Avanço esse puxado por Mato Grosso, já que Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina terão pela frente uma temporada de recuperação após as perdas bilionárias apuradas na safra passada. Conforme a Conab, a colheita de soja no Sul ficou em 18,6 milhões de toneladas em 2011/12, uma queda de quase 35% sobre 2010/11.

Os reflexos do La Niña no Sul do Brasil começaram a exercer uma influência mais flagrante nas cotações internacionais da soja em grão e seus derivados (farelo e óleo) em meados de dezembro de 2011, quando as lavouras do ciclo passado estavam em desenvolvimento. Puxada pela China, a demanda internacional não arrefeceu como se previa e os preços seguiram elevados, inclusive com prêmios positivos nos portos brasileiros mesmo durante o escoamento da safra mais magra que foi colhida.

Passada essa fase aguda de escassez no Brasil, que já forçou as grandes tradings (ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus) a importarem pequenos volumes do grão da "concorrente" Argentina – onde os danos do La Niña foram menores -, o mercado global passou a acompanhar as tendências para o Hemisfério Norte, cujas plantações da safra 2012/13 estão em desenvolvimento. E como não houve aumento significativo da área de cultivo nos EUA, maior produtor e exportador global, à frente do Brasil, e a seca e o calor hoje afetam as lavouras, as cotações não pararam de subir, catapultadas por investimentos especulativos. Mesmo em fase de "aversão" ao risco, os fundos mantiveram-se ativos na soja por conta da oferta global escassa.

Na bolsa de Chicago, referência global para as cotações do grão, os contratos de segunda posição de entrega (normalmente os de maior liquidez) acumulam valorizações de 31,7% em 2012 e de 18,1% nos últimos 12 meses, conforme cálculos do Valor Data. E isso apesar da queda de 1,01% registrada ontem, fruto de um ajuste de posições antes da divulgação pelo USDA, hoje, de um novo relatório sobre as condições das lavouras americanas.

Essas fortes altas, sobretudo as das últimas semanas, levaram o Ministério da Agricultura a adiar seus novos cálculos para o valor bruto da produção (VBP) das 20 principais culturas agrícolas do país em 2012, conforme informou ao Valor o coordenador de planejamento estratégico da Pasta, José Garcia Gasques. As últimas estimativas do ministério para o VBP da soja neste ano apontaram para R$ 47,7 bilhões, 13,6% menos que em 2011 por conta da menor produção. Mesmo sem uma revisão mais expressiva para cima, que deverá acontecer, a oleaginosa se mantém na liderança desse ranking.

Liderança que também foi mantida nas exportações do setor de agronegócios no primeiro semestre. Conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pelo ministério, os embarques do chamado "complexo soja" (grão, farelo e óleo) renderam US$ US$ 15,9 bilhões no primeiro semestre do ano, 25,4% mais que entre janeiro e junho de 2011. Apesar da redução da oferta em razão da seca que marcou a safra 2011/12 na região Sul, a forte demanda da China acelerou os embarques e determinou a alta observada. Com a escassez do grão e os chineses aparentemente bem abastecidos, a tendência é de arrefecimento no segundo semestre.

Se de fato for confirmada uma temporada menos produtiva nos EUA, a tendência é de preços também firmes na segunda metade deste ano. Ainda que seja normal que o início do escoamento da produção americana provoque alguma queda, o quadro poderá colaborar para margens maiores para os produtores brasileiros. Para Mato Grosso, as primeiras indicações do Banco do Brasil – principal agente liberador de crédito rural do país – são de manutenção da margem média entre R$ 880 e R$ 890 por hectare. Para o Paraná, que tem vantagens logísticas em relação ao Estado do Centro-Oeste, a expectativa é de aumento de R$ 829 em 2011/12 (nível baixo por causa das perdas) para R$ 1.398.

Mas, se para área plantada, produtividade, produção e preços ainda há muitas incertezas no ar, apesar das boas perspectivas, para as margens a "futurologia" é ainda mais complicada. "É cedo para cravar que será uma safra de rentabilidade recorde, mas o fato é que a sinalização é positiva", resume Flávio F. Junior, diretor da Safras & Mercado.

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Fonte: Valor | Por Fernando Lopes, Mariana Caetano, Fernanda Pressinott e Gerson Freitas Jr | De São Paulo