.........

Bem-estar das galinhas vira desafio para os varejistas

.........

Divulgação

As galinhas poedeiras normalmente passam a vida em gaiolas pequenas e superlotadas; sem ciscar, se estressam e desenvolvem transtornos comportamentais

"Pão de Açúcar, por que você continua vendendo ovos no Brasil que são produzidos de maneira cruel demais para serem vendidos nos EUA, Canadá e União Europeia? Por favor, pare de comprar ovos de galinhas confinadas em gaiolas". O post é um dos vários publicados durante o mês de janeiro na página do Facebook da empresa. Seguem-se outros. "Estou chocada e decepcionada". Ou ainda: "Não consigo acreditar que uma empresa renomada, em pleno século XXI, seja condescendente com maus-tratos de animais".

O tema do bem-estar das galinhas nas mídias sociais é novidade para o maior grupo varejista de alimentos do Brasil. Mais acostumado a críticas de ordem mercadológica e operacional – o atraso na entrega do delivery, filas no caixa e falta de produto -, a empresa passou a lidar recentemente com esse novo elemento nas redes, com enfoque bem mais específico: o ativismo em torno dos animais de produção.

Não entram bois, vacas nem frangos na conta. O olhar agora está voltado para galinhas poedeiras e suínas em gestação – essenciais na cadeia de proteína animal, mas cuja forma de produção passou a ser questionada pela chamada "sociedade consciente".

Desde que se comprometeu a não comprar mais ovos gerados por galinhas confinadas em gaiolas, o Pão de Açúcar se tornou alvo desse ativismo, que se organizou rapidamente para explorar nos canais sociais toda a sua indignação.

O problema? A varejista restringiu às marcas próprias, Qualitá e Taeq, o compromisso comercial de adquirir ovos de galinhas criadas sem as gaiolas, deixando de fora os demais fornecedores. "Não aceitamos comprometimento se não abranger 100% dos ovos", diz Lucas Alvarenga, que liderou recente protesto em frente à sede da empresa.

Alvarenga é vice-presidente da Mercy for Animals no Brasil. Sem tradição no ativismo, o ex-empreendedor da área de moda, de 32 anos, hoje recruta e supervisiona os programas locais da ONG, fundada em Ohio (EUA) em 1999. Em pouco mais de um ano no país, a Mercy for Animals já angariou quase 5 mil voluntários inscritos.

Visto como "a bola da vez", o Brasil recebeu em 2016 duas organizações de defesa animal. Menos sonoras ao brasileiro comum, Mercy for Animals e Animal Equality juntaram forças à Humane Society Brasil, maior, mais antiga e já conhecida do empresariado do país. As três se filiaram ao Fórum Animal, entidade brasileira que reúne quase 120 ONGs com pautas tão díspares quanto castração de gatos e proteção de bichos silvestres.

Se antes os trabalhos de sensibilização da sociedade eram norteados para o mercado "pet", agora são os animais de produção que atraem olhares. A transição, diz Vivian Mocellin, gerente de relações corporativas da Animal Equality Brasil, é um caminho sem volta.

"As pessoas não têm noção do que acontece na cadeia de produção no Brasil", diz ela. Jornalista e antropóloga de formação, Vivian, 33, sempre atuou pela causa animal. Já conhecia a ONG, criada há uma década por três ativistas da Espanha, quando soube que ela desembarcaria por aqui. "Aí eu decidi que iria me dedicar ‘full time’. A Animal Equality segue a linha do altruísmo efetivo – trabalho com planejamento, objetivos e metas".

Divulgação

Em março, a Mercy for Animals protestou em frente à sede do Pão de Açúcar

Nos próximos dois anos, Vivian e seus colegas pretendem alcançar os maiores nomes do varejo brasileiro e, preferencialmente, ao menos meia centena de restaurantes importantes do país. Para isso, eles buscam obter acordos de transição que privilegiem a soltura de galinhas e suínas em gestação, encerrando décadas de práticas encaradas como cruéis e dolorosas.

"O Brasil é um país com potencial, por isso viemos para cá", explica Vivian. "Na Europa essas práticas foram proibidas e nos EUA mais de 400 empresas já se comprometeram a não comprar ovos de confinamento. Naturalmente, a próxima frente seria o Brasil". O país é grande produtor e consumidor de ovos. A produção somou 39,1 bilhões de unidades em 2016.

Pergunte a qualquer ativista e a resposta será longa e permeada por referências científicas e empíricas: as galinhas poedeiras passam a vida em gaiolas de arame (chamadas de gaiolas em bateria), pequenas e superlotadas. Seu espaço equivale ao tamanho de uma folha de sulfite. Sem também poder ciscar, contrariando a sua natureza, se estressam e desenvolvem transtornos comportamentais. Não raro, brigam e se ferem. Por esse motivo, seus bicos são cortados. A situação das suínas, acrescentam, não é diferente: elas passam quatro meses enclausuradas em gaiolas que não permitem sequer meias-voltas, sob o risco de afetar a gestação – e a produção.

A questão está longe de se manter restrita. Em mercados desenvolvidos, consumidores mais sofisticados têm cobrado – e conseguido – melhoras em algumas cadeias produtivas. A pressão pela retirada de antibióticos da produção animal, a redução de agrotóxicos, a fabricação de produtos com menos açúcar e sem glúten passaram a ser analisados com atenção pelas empresas. Há uma mudança em curso, com impactos em seus rendimentos financeiros.

Essa mudança também desafia produtores rurais e traders de commodities, que antes precisavam se preocupar só com a produção e o fornecimento e agora precisam estar atentos à preferência por alimentos saudáveis ou "naturais".

Nesse contexto, a chegada do bem-estar da galinha à pauta comercial não deveria causar estranhamento. No Brasil, Cargill, Unilever, Nestlé, McDonald’s, Giraffas e Casa do Pão de Queijo já anunciaram publicamente cronogramas para o fim das aquisições de ovos de aves confinadas.

Com encontros mensais para definir estratégias de atuação, os ativistas têm similaridades que vão além da pauta animal. Buscar celebridades que literalmente vistam a camisa da campanha é um denominador comum. Fundadas longe de Los Angeles, as ONGs migraram para a cidade do cinema atrás de rostos hollywoodianos que tragam luz e dinheiro à causa (Yasmim Brunet apresentou-se neste mês como a primeira "campaigner" da Mercy for Animals Brasil).

Outra característica compartilhada é o caráter investigativo. Visitas "secretas" a granjas são consideradas armas importantes para evidenciar a crueldade animal.

O Pão de Açúcar foi atacado por não ter anunciado planos envolvendo todos os seus fornecedores. "Mas só as nossas marcas próprias representam 80% do que Pão de Açúcar e Extra movimentam. Claro que há um trabalho a ser feito [para os demais 20%], mas a mudança não acontece tão rápido", diz Paulo Pompilho, diretor de Relações Corporativas do grupo. Walmart e Carrefour ainda não se posicionaram sobre o assunto. Questionados, informaram, por e-mail, que estão em conversas com os ativistas.

Pompilho afirma sentir fala de diálogos mais propositivos com esse ativismo, a exemplo do que foi feito nas discussões sobre a compra de carne bovina oriunda de gado criado em áreas desmatadas da Amazônia. "A nossa preocupação é fazer uma mudança inclusiva e sustentável na cadeia. Precisamos de discussão técnica. Para a granja, o custo de produção de galinhas soltas sobe de 20% a 40%. Estamos no Brasil e eles precisam entender que o tempo aqui não é o mesmo da Europa".

(Bettina Barros | De São Paulo)

Por Bettina Barros | De São Paulo

Fonte : Valor