BB recupera mercado no crédito rural

Ruy Baron/Valor

"O BB está acompanhando o comportamento da poupança, que tem apresentado boa elevação", diz Tarcísio Hubner

A queda de juros, em tempos de margens de lucro mais apertadas no campo, provocou forte aumento nos desembolsos de crédito rural no país nos três primeiros meses do ano-safra 2017/18. De julho a setembro, o montante total liberado alcançou R$ 48 bilhões, 25,7% mais que em igual intervalo do ciclo 2016/17.

Com menos dinheiro em caixa, os produtoras reduziram as contratações no fim da temporada passada e adiaram a tomada de crédito para este início de vigência do atual Plano Safra, quando as taxas de juros subsidiadas pelo Tesouro ficaram entre 6,5% e 8,5%, até dois pontos percentuais abaixo dos níveis praticados anteriormente.

Segundo o Ministério da Agricultura, esse ritmo acelerado de desembolsos também vem sendo observado em outubro. E, como aconteceu até setembro, são os bancos públicos, sobretudo o Banco do Brasil, que estão liderando as operações no segmento, recuperando a participação que perderam para instituições privadas em 2016/17.

Segundo dados do Banco Central, os bancos públicos desembolsaram R$ 25,2 bilhões no primeiro trimestre do ano-safra 2017/18, 61,5% mais que em igual intervalo do ciclo anterior. Só o BB liberou R$ 20,7 bilhões, 60% mais. As cooperativas de crédito também registraram avanço – de 24,3%, para R$ 9,2 bilhões -, mas as instituições privadas liberaram 12,7% menos (R$ 13,1 bilhões).

Em todo o ciclo 2016/17, os desembolsos dos bancos públicos recuaram mais de 20%, em parte por causa da postura mais ativa nesse mercado de concorrentes privados como Bradesco, Santander e Itaú.

O Banco do Brasil saiu da zona de conforto e lançou mão de uma série de medidas para reduzir a burocracia, agilizar as liberações e se aproximar ainda mais dos clientes rurais, o que colaborou para a recuperação do terreno perdido. Mas não é só isso que explica a retomada.

O pulo do gato é que o BB tem aproveitado sua condição privilegiada de captar cerca de 90% da poupança rural do país para apressar o passo. A poupança rural é uma das principais fontes de recursos do crédito rural a taxas de juros controladas, normalmente o mais demandado, principalmente no início de cada ano-safra, e ainda mais procurado pelos agricultores em um cenário de redução de margens com o atual.

A poupança rural corresponde a 52% do "funding" do Banco do Brasil, que goza de ampla capilaridade por estar presente em todos os polos importantes de agronegócios do país. Como recebe subsídios do Tesouro para equalizar as taxas de juros, a poupança tem menor custo de captação.

Nessas operações, o governo banca parte dos custos administrativos do banco, diferentemente do que acontece com os contratos de crédito rural que têm como fonte os depósitos à vista, nos quais a instituição arca com 100% dos custos.

"O BB está acompanhando o comportamento da poupança, que tem apresentado boa elevação, mas não vemos problemas também em aplicar recursos de depósito à vista e LCA [Letras de Crédito do Agronegócio] para emprestar ao produtor", disse ao Valor o vice-presidente de Agronegócios do Banco do Brasil, Tarcísio Hubner.

Os desembolsos totais de crédito agrícola com base na poupança rural cresceram 42% de julho a setembro deste ano, para R$ 16,8 bilhões, enquanto os financiamentos baseados nos depósitos à vista recuaram 10%, para R$ 10,4 bilhões.

Nesse contexto, bancos privados já demonstram alguma preocupação em não conseguir cumprir as metas de aplicação de depósitos à vista no crédito rural exigidas pelo BC, até porque a queda de 6 pontos percentuais da taxa básica de juros (Selic) favoreceu o uso de fontes de recursos a juros livres, como a LCA.

O consultor Ademiro Vian, ex-diretor da Febraban, nota que o juro real da economia (diferença entre a Selic e o IPCA), já está em 5,71% ao ano, ante um juro real de 5,96% ao ano nas operações de crédito rural para custeio- diferença entre a Selic e a taxa de 8,5% ao ano desse tipo de operações.

O diretor do Departamento de Crédito e Estudos Econômicos do Ministério da Agricultura, Wilson Vaz, observa que todas as linhas de crédito do Plano Safra apresentaram aumento das contratações nos três primeiros meses da safra, e que o crédito para a comercialização também foi destaque. "Como os preços das commodities estão relativamente retraídos, o agricultor pega crédito para estocar a produção".

Fonte: Valor | Por Cristiano Zaia | De Brasília