.........

Barreiras ao país tumultuam logística nos mares

.........

O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, afirmou ontem que, apesar do autoembargo do ministério que suspendeu as exportações de carnes pelos 21 estabelecimentos investigados na Operação Carne Fraca, os contêineres dessas empresas que já estiverem em trânsito rumo aos países importadores serão devolvidos ao Brasil antes esmo de chegarem ao seu destino.

"Temos hoje em torno de cinco mil contêineres com carnes no mar, navegando em direção aos países, e estamos rastreando todos. Aqueles que forem de plantas citadas na investigação serão devolvidos ao Brasil, não chegarão nem ao seu destino", afirmou o ministro a jornalistas estrangeiros, em uma videoconferência transmitida ao vivo pelo Facebook.

À imprensa internacional, Maggi garantiu que "a maciça maioria" desses cinco mil contêineres, porém, não são de plantas investigadas e seriam recepcionados nos portos de destino. E que somente seis das 21 empresas suspeitas nas investigações policiais chegaram a efetuar algum tipo de embarque.

O ministro deve ter pensado como agricultor e esqueceu-se de um detalhe: navios com contêineres, diferentemente dos graneleiros, não podem dar meia-volta. Eles não carregam somente carnes. Com capacidade para 800 a até mil contêineres, esses navios são contratados para levar um amplo portfólio de produtos de um país a outro, entre químicos, eletrônicos, televisores, equipamentos médicos e celulose. Somente uma parte refere-se aos chamados reefers, os contêineres refrigerados para o carregamento de cargas perecíveis, como carnes.

Segundo fontes do setor, os armadores devem chegar ao destino para honrar contratos e dificilmente atenderiam ao chamado do governo para trazer a mercadoria de volta. Pesa ainda o fato de, durante as semanas de navegação, as determinações dos países receptores eventualmente mudarem, abrindo novamente o mercado para a carne brasileira.

"Não se pode impedir que um navio descarregue as outras cargas", afirma Wilen Manteli, diretor-presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), citando normas e cláusulas que regem o comércio internacional. Ele acredita, no entanto que a intenção do ministro ao dizer que o produto "nem chegaria ao seu destino" tenha sido uma tentativa de evitar novos problemas ao setor brasileiro de carnes.

Segundo Manteli, seria possível o desvio da carne para outro país de destino, dependendo da rota, volume, contrato e prazos de entrega, desde que acordado entre o dono da carga (frigorífico) e o armador (dono do navio), ou ainda, – e havendo espaço – o retorno da carga no retorno para o Brasil.

Para os navios que já saíram, a apreensão é grande. Em entrevista à "Bloomberg", a chinesa Shanghai Yadongsheng Import-Export disse ter dez contêineres com carne brasileira em um navio da Hamburg Sud a caminho do porto de Xangai. O produto seria destinado a supermercados e restaurantes, com previsão de chegada no fim de abril. Se a questão não for resolvida até lá, a Yadongsheng diz que terá de destruir o carregamento.

A China foi um dos primeiros – e grandes – compradores a banir as importações de carnes do Brasil. Nas horas seguintes, Hong Kong, Egito, Chile, Argélia, Jamaica, Trinidad e Tobago tomaram igual decisão. Japão e União Europeia embargaram as importações das 21 unidades investigadas. Ontem, o Canadá suspendeu dois frigoríficos investigados, a Malásia elevou o controle sanitário para a carne brasileira e São Vicente e Granadinas suspendeu todas as compras, também em caráter temporário.

O efeito cascata dessas decisões já começa a ser sentido no país. Já na segunda-feira, a chinesa Cofco Meat pediu a seu fornecedor brasileiro para não embarcar mais carnes. A empresa não pretende cancelar os pedidos até que fique claro quanto tempo o embargo irá durar. A divisão de carnes da Cofco comercializou 107,2 mil toneladas de carne importada em 2015 – sem precisar quanto veio do Brasil.

Nos portos brasileiros, os terminais não comentam a situação, alegando que informações sobre as operações devem ser obtidas diretamente com os frigoríficos.

Por Cristiano Zaia e Bettina Barros | De Brasília e São Paulo

Fonte : Valor