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Barreira do Brasil ao camarão irrita exportador equatoriano

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Claudio Belli/Valor

Alexis Fabara, diretor do Pro Ecuador, afirma que o governo do país não deseja abrir um contencioso na OMC, mas a pressão dos exportadores é crescente

A resistência do Brasil em abrir seu mercado para o camarão do Equador começa a alimentar entre os criadores do país sul-americano a expectativa de encaminhar a disputa ao escrutínio dos juízes da Organização Mundial do Comércio (OMC). Não é o que deseja o governo do presidente Lenín Moreno, que tomou posse no fim de maio, depois de uma década de gestão de Rafael Correa, mas é uma saída cada vez mais lembrada pela Cámara Nacional de Acuacultura (CNA), entidade que representa a cadeia produtiva equatoriana.

"Temos que negociar com base em interesses comuns, mas seguindo as regras estabelecidas pela OMC. Se estamos cumprindo todas as exigências sanitárias [estabelecidas pela Secretaria da Pesca do Ministério da Agricultura], queremos vender nosso produto no Brasil", afirmou Jose Antonio Camposano, presidente da CNA, ao Valor. "Queremos evitar uma disputa comercial [na OMC], mas os próprios restaurantes brasileiros pediram a liberação das importações – não só do Equador, mas em geral -, depois dos problemas provocados pela doença da mancha branca no Brasil", disse Alexis Villamar Fabara, diretor do Escritório Comercial do Equador no Brasil (Pro Ecuador), ligado ao Ministério do Comércio Exterior do país.

Como já informou este jornal, as importações de camarão equatoriano "sem cabeça, descascado e congelado" foram liberadas pelo Ministério da Agricultura em novembro, depois de pedido da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). Mas a Associação Brasileira dos Criadores de Camarão (ABCC) conseguiu barrar essa abertura na Justiça, sob o argumento de que a abertura implicaria riscos sanitários. O ministério, que já habilitou 23 empresas equatorianas para exportar, recorreu da decisão, mas ainda não há uma sentença definitiva sobre o caso.

"Não temos como inundar o mercado brasileiro, mas queremos garantir um nicho", afirmou Febara. "Respondemos por cerca de 25% das importações de camarão da União Europeia, que é um dos mercados mais exigentes do mundo do ponto de vista sanitário. Temos todas as certificações [sanitárias] que os europeus exigem e recuperamos nosso nível de produção quando tivemos nossos próprios problemas com a mancha branca, em meados da década passada. O Brasil tem déficit e queremos ajudar a cobri-lo", disse Jose Antonio Camposano.

Nas contas da CNA, esse déficit no Brasil, por causa dos problemas causados pela mesma doença no ano passado, aumentou para 70 mil toneladas – no total, as exportações de camarão do Equador alcançaram 365 mil toneladas em 2016, ou US$ 2,6 bilhões, e os embarques vem crescendo de 8% a 12% ao ano. Itamar Rocha, presidente da ABCC, continua a sustentar, contudo, que não há déficit e que a entrada do camarão equatoriano no Brasil representa risco sanitário.

Segundo o dirigente, a produção brasileira em cativeiro caiu para 60 mil toneladas em 2016, ante 76 mil em 2015, mas houve queda de preços ao produtor, o que comprova que não há déficit. "E lá eles têm dez doenças [conforme a CNA, são sete], contra quatro no Brasil [seis, segundo a CNA]. Ou seja, o risco existe", afirmou Rocha. Mas ele não esconde a preocupação com o tamanho da produção equatoriana em cativeiro. "Lá eles têm 220 mil hectares em produção, enquanto nós temos 25 mil", disse. E esse é o principal ponto criticado por Camposano, para quem o temor sanitário é apenas protecionismo disfarçado.

Por Fernando Lopes | De São Paulo

Fonte : Valor