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Carlos Pereira da Silva, lavrador que espera chuvas há dois anos, à beira do açude Engenheiro Ávidos: "Se nada mudar rápido vou embora trabalhar na construção em São Paulo, como meu irmão"

Foice e enxada ao ombro, o lavrador Carlos Pereira da Silva chega da roça que começa a ser preparada na esperança de chuvas que há dois anos não ocorrem em Cajazeiras, sertão da Paraíba, e em grande parte do Semiárido nordestino. "Se nada mudar rápido vou embora trabalhar na construção civil em São Paulo como fez meu irmão", planeja Silva, à beira do açude Engenheiro Ávidos, alvo da pesca predatória. Os peixes estão rareando por conta do uso de redes e dos mergulhadores que, sem alternativas no campo, capturam espécies aquáticas em seus berçários para alimentar a família.

Criado há 80 anos pela barragem do Rio Piranhas, o reservatório do Boqueirão, como é mais conhecido, está com menos de um terço da capacidade, e acirra conflitos pelo uso da água, com risco ao abastecimento de cidades e cultivos irrigados. "Já se fala em racionamento", diz José Carlos Lima, ex-chefe do açude, dono de uma casa às margens do manancial, juntamente com outros funcionários aposentados do Departamento Nacional de Obras contra a Seca (DNOCs) e de proprietários que adquiriram o imóvel dos antigos servidores e hoje usam o lugar como balneário.

"Sem os açudes, o flagelo seria muito pior", afirma Lima, que no passado tinha poder sobre a água da região e vivenciou de perto as influências políticas e econômicas da chamada "indústria da seca". "Os tempos mudaram e hoje faltam recursos para manutenção do sistema", atesta.

O Boqueirão é um dos 176 açudes nordestinos hoje com volume abaixo de 40% da capacidade, segundo o último levantamento da Agência Nacional de Águas (ANA). No prédio da instituição, em Brasília, mapas em tempo real retratam o volume de água que entra em território nacional por meio das chuvas e dos rios e a quantidade que evapora, acumula-se em reservatórios ou escoa para o mar e países vizinhos. "É o ponto de partida para a tomada de decisão na gestão hídrica", explica o coordenador do monitoramento, Joaquim Gondim.

"É baixo o armazenamento de água no Brasil", avalia o consultor Francisco Gomide, professor da Universidade Federal do Paraná. Ele calcula que a atual estrutura nacional de reservatórios estoca água em volume correspondente a 150 dias de incidência de chuvas. Sem considerar os lagos das hidrelétricas, o coeficiente de armazenamento cai para apenas cinco dias. Nos Estados Unidos, a reserva equivale a 165 dias. "Países desprovidos de rios, com matriz energética a base de carvão, estão mais preparados que o Brasil para as mudanças do clima", afirma Gomide. Até 2025, diz, os estoques brasileiros de água tendem a diminuir 40%, em razão do pouco investimento na construção de reservatórios.

Os dados compõem recente estudo encomendado pela ANA para subsidiar o debate no Senado sobre aplicação da Lei das Águas (Lei nº 9.433/97). No Nordeste brasileiro chove (700 mm/ano) praticamente o mesmo que na Europa (790 mm), Ásia (740 mm), África (740 mm) e América do Norte (756 mm). No Brasil como um todo, o índice de chuva é o dobro da média mundial. "Mas falta visão sobre como potencializar esse recurso", diz Gomide. Sem estoques, lembra, a água é um bem altamente "volátil".

De acordo com o "Atlas Brasil de Abastecimento Urbano de Água", 55% das cidades têm acesso deficitário ao recurso. São necessários investimentos de R$ 22,5 bilhões em obras e melhorias na produção de água até 2025. Desse total, R$ 6,4 bilhões devem ir para o Semiárido nordestino.

Para o diretor-presidente da ANA, Vicente Andreu, o cenário é de preocupação: "O constante aumento da renda do brasileiro implica na maior demanda por recursos hídricos e a falta de reservatórios gera risco de racionamento, aumento dos custos de produção e fragilidade frente a eventos climáticos, como secas e inundações".

Além de abastecer torneiras, os açudes têm a função de perenizar rios, controlar cheias e permitir usos múltiplos, como irrigação e turismo, com potencial de gerar renda e beneficiar o desenvolvimento local. Ao longo de um século, o governo federal construiu no Nordeste 327 reservatórios de grande porte e 622 menores, em cooperação com os Estados. Ao todo, são capazes de acumular 30 bilhões de metros cúbicos de água – o equivalente ao consumo do município de São Paulo durante 50 anos. O mais antigo, o Açude do Cedro, em Quixadá (CE), foi construído por ordem de D. Pedro II após a calamidade da seca entre 1877 e 1879. Não muito distante, no município de Senador Pompeu, às margens do reservatório local há vestígios do cemitério e das estruturas de uma espécie de "campo de refugiados", onde os flagelados eram confinados durante a estiagem de 1932 para não espalhar miséria e doenças nas capitais.

A expansão atual está associada ao uso econômico, principalmente irrigação. Em maio foram concluídos os açudes Piaus (PI) e Taquara (CE), com investimento de R$ 160 milhões, prevendo projetos de piscicultura, hoje prejudicados pelo clima. "A produção intensiva e extensiva de peixes caiu neste ano quase pela metade, movimentando R$ 100 milhões, contra R$ 185 milhões em 2011", informa Emerson Fernandes, diretor-geral do DNOCs.

Em São João do Rio do Peixe (PB), o açude secou. "Sem água, as obras na cidade param e falta trabalho", conta Lindomar Pessoa, pedreiro que agora recorre à aposentadoria dos idosos da família para sobreviver. Como socorro, foi necessário abrir as comportas de um reservatório próximo, a Lagoa do Arroz, para alimentar um riacho que banha a sede do município. Instaurou-se um conflito, aquela fonte é utilizada para irrigação de cultivos e pastagem, e não se sabe até quando durará. Os canais estão tomados por ervas daninhas e, sem manutenção, romperam em diversos pontos. Quem mora longe do verde à beira da água chega a gastar R$ 2 mil por mês em ração, cujos preços dispararam na seca.

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Fonte: Valor | Por Sérgio Adeodato | Para o Valor, de Cajazeiras (PB)