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Avançam pesquisas do IAC em busca de um café sem cafeína

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A pesquisadora Maria Bernadete Silvarolla, do IAC: é preciso quebrar "bloqueios biológicos" para elevar a produtividade

Após descobrirem em 2004 uma variedade de grão de café que não contém cafeína, pesquisadores do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), vinculado à Secretaria de Agricultura de São Paulo, continuam a avançar na busca de um produto que seja comercialmente viável, ainda que o processo seja naturalmente lento e que o prazo para isso ainda seja medido em anos.

Batizada de "AC", em homenagem a Alcides Carvalho, considerado o maior melhorista de café do país, a variedade possui apenas 0,1% de cafeína, praticamente nada se comparada aos GRÃOS tradicionais de arábica (com teor de 1,2%) e robusta (teor de 2,4%).

A pesquisadora Maria Bernadete Silvarolla lembra que a característica foi encontrada em três exemplares do banco de germoplasma do instituto, um cafezal com cerca de 60 mil plantas. Eles atingiram esse teor mínimo de cafeína através de uma mutação genética natural de GRÃOSarábica, sem a interferência do homem.

"Fizemos um pente-fino nos cafezais para obter variedades que pudessem, através de cruzamentos convencionais, levar a esse resultado. Mas encontramos exemplares prontos". Maria Bernadete afirma ter analisado perto de 3 mil plantas entre os anos de 1999 e 2003. "Dá até para ficar louca", brinca a pesquisadora.

Em 2004, veio a surpresa. A descoberta ganhou visão internacional com a publicação, no mesmo ano, de um artigo na revista científica "Nature", uma das mais renomadas do mundo.

Desde então, o desafio tem sido tornar esses GRÃOS naturalmente descafeinados comercialmente viáveis. O obstáculo ainda é elevar a sua produtividade. Enquanto uma boa média é de 20 a 30 sacas de café colhido por hectare, a variedade "AC" rende, no máximo, 10 sacas. "É isso o que eu estou tentando corrigir. Temos que quebrar bloqueios biológicos", diz a pesquisadora.

O trabalho de melhoramento genético convencional, no entanto, é vagaroso. Os cruzamentos são realizados à mão e transferem os genes do grão naturalmente descafeinado para sementes de uma cultivar modelo de café arábica. Uma vez que a muda de café é plantada, só vai gerar seus primeiros GRÃOS depois de um prazo de quatro anos.

O IAC obteve recentemente a segunda geração de plantas obtidas desses cruzamentos e os resultados foram satisfatórios, mas diz que só poderá comprovar que chegou à produtividade desejada depois de quatro colheitas. "Precisamos encontrar características boas de dois ancestrais diferentes. Antes de 2020 não teremos nada a mostrar".

Para a pesquisadora, a nova variedade de grão contribuiria para elevar os ganhos dos agricultores, que passariam a ter um produto diferenciado nas mãos com grande aceitação no exterior. "É uma opção para o lavrador ganhar, não a indústria", afirma ela. Um grão naturalmente sem cafeína, por exemplo, poderia obter a certificação de orgânico.

De acordo com dados internacionais, apenas 10% de todo café consumido no mundo (foram 40 milhões de sacas em 2010) é descafeinado. Embora não existam indicadores confiáveis sobre a tendência de consumo desse tipo de café, no Brasil ou no mundo, especialistas afirmam que os consumidores mais ávidos são os americanos e os europeus. No Brasil, o gosto pelo descafeinado ainda é restrito a muito poucos – menos de 1% dos consumidores.

Para se chegar ao café descafeinado é necessário submeter os GRÃOS a processos químicos – normalmente o solvente diclorometano -, o que o desqualifica para a certificação. No Brasil, a descafeinização é feita apenas por uma empresa, a Cocam Cia. de Café Solúvel e Derivados, na região de Catanduva (SP). Procurada, a empresa não quis conceder entrevista.

Além de prestar o serviço à indústria de retirada da cafeína dos GRÃOS, a Cocam vende esse subproduto a outros segmentos industriais. Por seu efeito estimulante, que age diretamente sobre o sistema nervoso central, a cafeína é utilizada em larga escala para a manipulação de refrigerantes e energéticos, fármacos (de analgésicos a inibidores de apetite) e cosméticos. Além da cafeína natural, a indústria se abastece também de cafeína sintética.

Fonte: Valor | Por Bettina Barros | De São Paulo