Aumento da colheita de laranja no Brasil não deverá ampliar oferta de suco

Linha de produção da Cutrale no interior paulista: mais laranjas em 2015/16
Se na quarta-feira o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) voltou a revisar para baixo sua estimativa para a produção de laranja na Flórida nesta temporada 2015/16, ontem o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) elevou sua projeção para a colheita em São Paulo e nos principais polos de Minas Gerais. Mas, mesmo que o incremento no Brasil mais do que compense a retração no Estado americano, a diferença não será capaz de alterar o cenário de redução da oferta conjunta da bebida nos dois maiores fornecedores globais.

Conforme o Fundecitrus, mantido por agricultores e indústrias de suco e sediado em Araraquara, a soma das colheitas paulista, do Triângulo Mineiro e do sudoeste de Minas deverá resultar em 286,1 milhões de caixas de 40,8 quilos, 2,5% mais que o estimado em maio (279 milhões). A previsão de maio marcou a estreia do Fundecitrus nesse tipo de levantamento, portanto não há base de comparação. Reunidas na Associação Nacional dos Exportadores de Suco Cítricos (CitrusBR), as grandes indústrias exportadoras de suco brasileiro (Citrosuco, Cutrale e Louis Dreyfus Commodities) calcularam uma colheita de 308 milhões de caixas na região na safra 2014/15.

O aumento da projeção do Fundecitrus, que foi de 7,1 milhões de caixas, foi superior à queda estimada pelo USDA para a Flórida, que ficou em 5 milhões – de 74 milhões para 69 milhões de caixas, o menor volume desde 1963, graças à proliferação do greening (doença bacteriana que provoca a queda prematura dos frutos). Mas essa matemática não preocupa as indústrias exportadoras de suco. As empresas não acreditam que os preços da commodity perderão sustentação porque o aumento previsto foi causado sobretudo pelo reflexos das chuvas sobre o tamanho das frutas e não representará uma oferta maior de suco.

"Em novembro, foram necessários 237 frutos para encher uma caixa de laranja, oito frutos a menos do que seriam necessários na estimativa de maio, que previu 245 frutos", informou o Fundecitrus. Com mais água nas frutas, fontes do segmento passaram a considerar que o rendimento industrial das grandes exportadoras, inicialmente estimado em 280 caixas de laranja por tonelada de suco, será prejudicado. "Isso compensará com folga o aumento da produção da fruta", afirmou um especialista.

Essa equação ganha especial importância porque, depois de muito tempo, as cotações internacionais do suco têm sido guiadas mais pelos problemas relacionados à oferta do que à contínua deterioração de demanda global. Termômetro disso são as cotações dos contratos futuros de segunda posição da commodity na bolsa de Nova York. Na quarta-feira, em razão da correção do USDA para a Flórida, os preços alcançaram o maior patamar em mais de um ano. Ontem houve queda – os papéis para março caíram 101 pontos, para 64,55 centavos de dólar por libra-peso -, mas o patamar continua remunerando bem as indústrias brasileiras, que também têm contado com a ajuda da valorização do dólar sobre o real.

Segundo a CitrusBR, a demanda por suco de laranja brasileiro no exterior também está relativamente aquecida. Nos primeiros 11 meses do ano, houve aumento das vendas para os concorrentes americanos, por causa da oferta menor naquele país, e mesmo para destinos mais acostumados ao consumo de sucos de abacaxi e maçã, cujos preços internacionais subiram mais que o de laranja.

De janeiro a novembro, os embarques do Brasil somaram 969,9 mil toneladas equivalentes ao suco concentrado e congelado (FCOJ), 8,3% mais que em igual período de 2014. A receita dessas vendas ainda aparece com queda na comparação, mas o tamanho desse recuo diminuiu para 1,6% e as exportações chegaram a US$ 1,615 bilhão até novembro.

Por Fernando Lopes | De São Paulo

Fonte : Valor