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Atraso no plantio pode afetar safrinha de milho

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Em meio à queda de preços e as incertezas sobre a demanda provocadas pelos desdobramentos da Operação Carne Fraca, ainda são positivas as perspectivas para a safrinha de milho nesta temporada 2016/17. Mas, devido ao ritmo um pouco mais lento de plantio que o inicialmente projetado, a superprodução estimada poderá ser um pouco menor em Mato Grosso e Paraná, que lideram a colheita nacional.

Estudo recente do Banco Pine assinado pelo economista Lucas Brunetti, avalia que o atraso no plantio de fato eleva consideravelmente os riscos para a segunda safra do cereal. Mas outras previsões públicas e privadas também já atentaram para o problema.

Segundo dados do Departamento de Economia Rural da Secretaria de Agricultura do Paraná (Deral), no Estado a colheita de soja alcançou apenas 77% dos 5,2 milhões de hectares plantados, já que as temperaturas abaixo da média durante a primavera alongaram o ciclo desenvolvimento das lavouras. Assim, o plantio do milho, que avança à medida em que a colheita de soja é realizada, foi prejudicado e está mais lento que o previsto. Segundo o órgão, 94% da área estimada em 2,4 milhões de hectares foi semeada até semana passada. No mesmo período da temporada 2015/16, os trabalhos estavam praticamente concluídos.

Em Mato Grosso, dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), ligado à federação da agricultura e pecuária do Estado (Famato), mostram que 97,1% da área plantada com soja (9,4 milhões de hectares) foi colhida, e que a semeadura de milho terminou apenas na semana passada. Ainda assim, o Imea elevou sua projeção para a produção de milho safrinha de 25 milhões para 26,5 milhões de toneladas.

O relatório do Pine destaca que, no início da safra 2016/17, as análises apontavam que o plantio do milho de inverno estaria completo até o fim de fevereiro em Mato Grosso. Embora haja mais riscos, segundo a análise, a estimativa do banco para o aumento de área da safrinha em todo o Brasil continua elevada, e a produtividade deve bater um novo recorde histórico.

Se, por um lado, o plantio avançou em ritmo mais lento que o esperado, a antecipação do início dos trabalhos não deve ser ignorada. "Vale lembrar que, em Mato Grosso, uma boa parte das lavouras foi plantada mais cedo nesta temporada, ainda em janeiro", pondera Paulo Molinari analista da consultoria Safras & Mercados.

No Paraná, aponta a análise do Pine, o milho safrinha começa a ficar mais exposto ao risco entre 20 de maio e 10 de junho. Nesse período, as regiões norte e oeste do Estado, que abrigam mais de 70% da área de milho de inverno, estarão mais suscetíveis a geadas. Segundo o estudo, o atraso de duas semanas na semeadura fará com que, em 10 de junho, apenas 11% do milho no Paraná esteja pronto para a colheita, ante os 42% do modelo "sem atraso".

Para Daniele Siqueira, analista da consultoria AgRural,, algumas análises meteorológicas apontam que, num cenário sem forte influência de El Niño La Niña, como é o caso agora, a tendência é de aumento de geadas – e, portanto, de maiores riscos para as lavouras do Paraná. "De qualquer forma, nossa linha de tendência ainda aponta para uma safra muito boa", afirmou ela.

Em Mato Grosso, o principal risco é a seca. O milho não foi integralmente plantado na janela considerada "ótima" de chuvas para seu desenvolvimento vegetativo. No Estado, costuma ocorrer uma drástica redução das chuvas entre o fim de abril e início de maio.

Mesmo considerando os riscos, a estimativa do Pine é de produção total de 93 milhões de toneladas em 2016/17 no país (primeira e segunda safras). Se não houvesse ocorrido atraso no plantio, a previsão estaria em 100 milhões.

Por Kauanna Navarro | De São Paulo

Fonte : Valor