Assuntos econômicos,Cereais, Fibras e Oleaginosas,Meio ambiente – “Falta respeito ao campo”

 

Curitiba / Paraná (01 de novembro de 2015) – A agropecuária mudou muito nas últimas décadas, houve introdução de novas técnicas, tecnologias e de uma visão empresarial que passou a nortear a gestão das propriedades rurais. O saldo dessa transformação todos conhecemos: maior produtividade, melhor qualidade da produção e o agronegócio passando a ser o fiel da balança da combalida economia brasileira.

Uma análise sobre os processos que levaram a atividade rural a esse novo patamar de excelência está no livro “Novo Mundo Rural”: A antiga questão agrária e os caminhos futuros da agropecuária no Brasil” lançado este ano pelo engenheiro agrônomo Xico Graziano, ex-chefe de gabinete do presidente Fernando Henrique Cardoso e uma das cabeças pensantes mais respeitadas do país quando o assunto é agricultura. Graziano virá ao Paraná no próximo dia 4 de dezembro, onde ministrará a palestra magna “Como está o país e para onde ele vai” do Programa Empreendedor Rural.

Segue abaixo entrevista na qual o consultor faz um balanço da atividade rural no Brasil:

FAEP – Em seu novo livro, o senhor fala de um novo mundo rural que emergiu no Brasil nas últimas décadas. Que mundo é esse?
Xico Graziano – Um mundo onde a tecnologia venceu e onde a produtividade impera e o conhecimento se sobressai, uma economia agrária fortemente vinculada aos mercados agroindustriais. Trata-se de uma agropecuária completamente distinta daquela dos anos 70. Mudou a realidade e, infelizmente, muita gente ainda raciocina como antigamente. Isso precisa mudar.

FAEP – Na sua opinião, qual a importância do associativismo no desenvolvimento da agricultura Brasileira?
XG – Sendo a economia rural cada vez mais competitiva e pressionada pelos oligopólios, o cooperativismo e o associativismo são as melhores receitas para fortalecer a renda setorial. Juntos, os produtores negociam em melhores condições seus custos, ganham escala e obtém preços de venda mais compensadores.

FAEP – Costuma-se dizer que “da porteira para dentro” a atividade agropecuária vai muito bem. Quais os principais problemas que devem ser resolvidos “da porteira para fora”?
XG – Nossa grande deficiência está, sabidamente, na infraestrutura de comercialização da safra, cujas deficiências são graves no Centro-Oeste, especialmente. Os portos estrangulam o comércio exterior, as ferrovias não saem do papel, as hidrovias permanecem inoperantes. Tudo isso onera os custos.

FAEP – Desenvolvimento econômico, desenvolvimento social e respeito pelo meio-ambiente. É possível aliar estes três fatores na produção agropecuária?
XG – Essa é a inexorável equação da sustentabilidade, o caminho para o futuro na agropecuária. Ainda passaremos por um grande aprendizado, novas tecnologias precisam surgir, mas precisamos dominar a agenda socioambiental.

FAEP – Apesar de ser um setor competitivo, que gera empregos e divisas, muitas vezes o agronegócio é visto como vilão por uma parcela da sociedade. Por que isso acontece?
XG – Ninguém consegue explicar direito essa tragédia no marketing do campo. Razões históricas, ligadas ao passado escravocrata, o desmatamento, uso de agrotóxicos, existem na opinião pública urbana uma série de restrições típicas da sociedade que não valoriza suas origens. Nos Estados Unidos e na Europa, os agricultores são venerados como os construtores da pátria; aqui viramos “ruralistas”. Falta respeito ao campo.

FAEP – Na atual conjuntura econômica e social, ainda faz sentido existirem invasões de terra?
XG – Nunca fez sentido invadir terras, pois configura um ato antidemocrático, algo medieval, quando se fazia justiça com as próprias mãos. É o Estado quem deve decidir se a terra é passível de desapropriação, jamais o MST. Hoje em dia, existe 1 milhão de famílias assentadas em projetos de reforma agrária no Brasil; a prioridade é torná-las produtivas, fazê-las evoluir. Precisa acabar a rosca sem fim da reforma agrária.

FAEP – Para onde aponta o futuro da agricultura brasileira?
XG – Aponta para a consolidação de um modelo de produção tropicalizado, baseado no plantio direto na palha, com a integração entre lavoura, pecuária e silvicultura, muito profissionalismo, muita cooperação, capaz de alimentar os brasileiros e ainda de vender alimentos para todo o mundo. O Brasil se tornará o maior país agrícola do planeta e, ademais, será uma potência agroambiental.

Federação da Agricultura e Pecuária do Paraná – FAEP

Fonte : Canal do Produtor