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As sequelas da Carne Fraca no frango

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Dirceu Portugal / Fotoarena/Folhapress

Granja de frangos no Paraná; produção pode ser afetada entre maio e junho

"Realmente, quebraram as duas asas do setor". Assim o secretário-executivo da Associação Brasileira de Produtores de Pintos de Corte (Apinco), José Carlos Godoy, resumiu o espírito dos diversos elos da cadeia produtiva da carne de frango diante das "sequelas" da Operação Carne Fraca, deflagrada há três semanas pela Polícia Federal (PF).

Embora o risco de bloqueio das exportações de carne de frango venha se dissipando – uma semana bastou para que os embargos mais importantes fossem retirados -, a frustração é grande na avicultura.

Após atravessar uma fase tenebrosa em 2016, ano que ficará marcado pela conjunção de consumo retraído, sobreoferta de frango no Brasil e no exterior e preço da ração nas alturas, a indústria de frango via a recuperação bater à sua porta.

Ajudada pela redução do preço do milho e pelo surto de gripe aviária que golpeou exportadores de frango na Europa e na Ásia, impulsionando as vendas do Brasil no primeiro bimestre, a indústria já se animava com os níveis de rentabilidade e acalentava a esperança de compensar este ano as perdas de 2016.

O baque da Carne Fraca, porém, exigirá um freio da arrumação que tende a atrasar a recuperação da cadeia produtiva da carne de frango – especialmente no que diz respeito ao volume de produção – por cerca de 60 dias, disseram ao Valor representantes de produtores de aves, exportadores e frigoríficos do país.

Até mesmo a paralisação temporária de abatedouros, via concessão de férias coletivas, está no radar, segundo o diretor do Sindicato das Indústrias da Carne e Derivados no Estado de Santa Catarina, José Antônio Ribas Júnior. "Com certeza, vai reduzir a produção de frango", afirmou ele, que também preside a Associação Catarinense de Avicultura.

A certeza de Ribas está ancorada no ritmo lento de retomada dos embarques ao exterior. "Como toda a carga passa por rigor maior no destino, isso tira a velocidade do fluxo de exportação", disse, citando o controle reforçado implementado por União Europeia e Arábia Saudita em razão da Carne Fraca. Segundo ele, a decisão de testar 100% dos contêineres que chegam aos portos deve afetar o volume de embarques, dado que as análises levarão mais tempo.

Na mesma linha, Godoy, da Apinco, avaliou que a produção de frango será reduzida, possivelmente entre maio e junho. Ele explicou que o tempo de resposta à Carne Fraca é mais dilatado na comparação com os frigoríficos de bovinos – que já reduziram os abates para ajustar os estoques – devido ao ciclo da avicultura. "Qualquer coisa que aconteça hoje no ritmo de produção só vai ser vista na ponta daqui a 70 dias", disse, ressaltando o prazo entre a incubação dos ovos e o abate das aves. Godoy afirmou que a produção de frango já estava "contida" neste início de ano – o milho caro em 2016 fez a indústria pisar no freio -, mas a investigação complica a situação.

De fato, os alojamentos de pintos de corte – indicador da produção futura de carne de frango – caíram 6% no primeiro bimestre no país, para 1,03 bilhão de aves, de acordo com dados da Apinco. "Já vínhamos reduzindo a produção porque não temos consumidor internamente, e agora vem uma coisa dessa? Quebra as duas asas", lamentou Godoy.

Por ora, os sindicatos do Paraná e Santa Catarina, os dois maiores produtores de carne de frango do país, ainda não foram procurados para tratar de férias coletivas, afirmaram o presidente da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação do Estado do Paraná, Ernane Ferreira, e o presidente da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Carnes, Indústrias da Alimentação e Afins do Estado de Santa Catarina, Miguel Padilha.

Até agora, os impactos se restringem aos frigoríficos interditados pelo Ministério da Agricultura após serem citados na investigação da Polícia Federal. Entre essas plantas está a unidade da BRF em Mineiros (GO) – o abatedouro, que completou 20 dias parado, recebeu o aval e voltará a funcionar já nos "próximos dias", informou a BRF no último sábado.

Para o vice-presidente de mercados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, a cadeia produtiva pode sofrer uma "pequena desaceleração" nos próximos meses. No auge da crise da Carne Fraca, houve relatos de redução da incubação de ovos, lembrou. "Isso vai ter efeito em alojamento [de aves]. Não se esperava que fosse retomar 97% dos mercados [embargados] em pouco tempo", afirmou.

No entanto, Santin crê na recuperação do setor, ainda que a Carne Fraca possa retardar o processo. Para ele, a rápida retirada dos embargos e a necessidade que diversos importadores têm do Brasil – que não tem gripe aviária – são um trunfo.

Na MB Agro, a avaliação é que a crise é passageira e que as margens da indústria seguem positivas. "Com custos baixos, as margens estão resistentes", disse o analista da MB Agro César Alves. Em março, a margem bruta da produção de carne de frango no sistema de integração ficou em 9%, acima da média histórica de 2%, segundo a MB Agro. Para Alves, mesmo que a indústria tenha segurado os alojamentos, o movimento não deve comprometer a recuperação do setor. O impacto da operação, disse, deve ser restringir às marcas de processados à base de carnes.

     

    Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

    Fonte : Valor