Artigos | O novo desafio rural

Por Roberto Simões*

Os produtores rurais, cuja importância no desenvolvimento econômico e social do Brasil não comporta discussões, estão sendo convocados a participar de mais um desafio, desta vez para consolidar, em tempos de ameaçadora escassez de água, outro papel que já desempenham, muitas vezes sem reconhecimento da sociedade, de guardiões dos recursos naturais. Numa iniciativa do Sistema Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (FAEMG), o programa Nosso Ambiente está sendo dinamizado para tornar mais expressiva a participação rural na defesa, preservação e consumo racional da água e demais recursos naturais.

A indiscutível força dos agricultores, que não param de bater recordes de produção de alimentos, será testada no desempenho de atividades mais amplas. É no campo que se observa, na plenitude, a estrita relação de recursos naturais e sistemas produtivos. No caso de Minas Gerais, quase 75% de seu vasto território são áreas rurais (vegetação nativa e atividades agropecuárias). Essa expressiva extensão de terras recebe e armazena água das chuvas, o que assegura ao estado estratégica participação na oferta hídrica e de energia elétrica ao país. Atualmente, os tempos são de incertezas sobre gestão da água e segurança hídrica para usos múltiplos – produção, consumo humano, geração de energia e manutenção de ecossistemas, entre outros.

Já se espalham pelo país conflitos envolvendo a irrigação agrícola, geração de energia e consumo industrial e humano da água. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o racionamento e a cobrança de tarifa de contingência ameaçam milhões de consumidores. Nas bacias que abastecem a região, as vazões outorgadas para consumo humano e abastecimento público correspondem a 62% e 44%, respectivamente, nos rios das Velhas e Paraopeba. À irrigação cabem as parcelas de 27% e 16%, enquanto o consumo industrial representa 10% e 40% das vazões. A economia de água e o combate ao desperdício, além da adoção de sistemas e equipamentos eficientes de distribuição, ganham destaque paralelamente às técnicas de reuso e ampliação do alcance de tecnologias de uso racional dos recursos hídricos.

A gestão da água, porém, não se limita à redução do consumo e à questão dos conflitos de uso: é fundamental considerar também a oferta como prioridade. O que envolve correta reservação da água e controle da erosão e sedimentos, entre outras ações, e o reconhecimento do produtor rural como provedor de serviços ambientais. Para completar, avulta a necessidade de aplicação e respeito à legislação ambiental. Na complexa equação, o programa Nosso Ambiente organizará projetos e seminários e promoverá capacitações. Seu diversificado conteúdo contempla a gestão ambiental da propriedade rural, proteção de nascentes e replantio de matas ciliares, saneamento rural, práticas conservacionistas e manejo de irrigação. O treinamento de produtores, a capacitação de sindicatos e a formação de líderes rurais em assuntos ligados às técnicas de preservação e defesa de recursos ambientais completam o programa.

O objetivo é dinamizar a já ampla ação ambiental coordenada há anos pela FAEMG. Já em 2015, Ano Internacional dos Solos, declarado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o programa multiplicará os projetos ambientais em Minas. De longo prazo, o desafio exige a colaboração de diversos atores institucionais e apoio empresarial. As primeiras iniciativas estão previstas para as nascentes das bacias dos rios Doce e das Velhas e do entorno do Lago de Furnas, e propriedades rurais cadastradas no Sistema Faemg. O sucesso do trabalho depende da indispensável participação dos agricultores e dos sindicatos rurais, para consolidar a relevância do campo na gestão das águas e o papel estratégico do produtor como guardião dos recursos naturais, mais do que nunca ameaçados pela ganância do homem.

* Roberto Simões – Presidente do Sistema Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (FAEMG)

Fonte: CNA

| Meio ambiente 19/05/2015