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Aqui se planta, aqui se colhe

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Fonte:  ISTOÉ Dinheiro | Por Hugo Cilo

A produção de alimentos no Brasil está em forte crescimento e pode levar o País a se tornar o celeiro do mundo em algumas culturas, nos próximos anos. Mas ainda há muito por fazer antes de chegar perto dos EUA, líder global absoluto do agronegócio

 

A expressão “Brasil, celeiro do mundo”, cunhada na era Getúlio Vargas para  definir o gigantesco potencial agrícola do País, pode se tornar realidade em diversas áreas do agronegócio nos próximos anos, caso os preços internacionais dos alimentos mantenham o atual ritmo de alta. A conclusão consta do estudo “Brasil – Projeções do Agronegócio 2010/11 a 2020/21”, divulgado na terça-feira 14 pelo Ministério da Agricultura, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

O levantamento sugere que o inevitável aumento do consumo global, especialmente em nações emergentes como China e Índia, abrirá um sólido ciclo de prosperidade para o campo brasileiro. Um dia antes, na segunda-feira 13, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), divulgou um estudo apontando para a alta de preços das commodities nos próximos dez anos. Ou seja, os planos do Brasil incluem surfar nessa onda global. “Somos hoje o segundo maior produtor internacional de produtos agrícolas”, disse o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, durante a divulgação do trabalho.

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“Estamos nos aproximando cada dia mais do líder em culturas importantes, os EUA, e isso nos dará uma inédita importância no cenário mundial.” O desempenho das exportações mostra que essa importância tem ganho cada vez mais musculatura. Entre janeiro e maio deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado, os embarques ao Exterior de produtos agrícolas  (exceto carnes) cresceram 21,8%, para US$ 35,7 bilhões. “O desempenho do agronegócio foi um dos poucos destaques na economia e sustentou a balança comercial brasileira”, disse José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). “Não é à toa que o governo tem festejado tanto.”

Enquanto o governo comemora os resultados do agronegócio e almeja uma posição de maior relevância entre as maiores economias do planeta, nas lavouras os produtores se movimentam para aumentar a produção. Até 2021, segundo o estudo do Ministério, a oferta de arroz, feijão, milho, soja e trigo deverá crescer 23% no País – algo próximo a 175,8 milhões de toneladas anuais, ou 32,9 milhões de toneladas a mais que a safra 2011. “Os números mostram que nosso potencial agrícola será fundamental para enfrentar a fome no mundo”, disse Rossi.

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Wagner Rossi, ministro da Agricultura: "Teremos uma inédita importância no cenário mundial"

Antes de o País assumir, de fato, a condição de celeiro do mundo, o governo precisará transformar o otimismo em aumento de produtividade. “A produtividade no Brasil está em crescimento, e isso é inegável”, diz Flavio Roberto França Júnior, analista da Safras&Mercado. “Mas a liderança só virá quando a defasagem tecnológica em relação aos EUA for equacionada.” Segundo ele, nos últimos anos, o câmbio tem estimulado essa modernização. “Porém, há muito a ser feito.”

Por enquanto, um dos destaques é a soja, cultura na qual o Brasil deverá alcançar a liderança mais cedo. A atual produção, de 74 milhões de toneladas por ano, deverá superar os 90 milhões de toneladas dos EUA até o final da década, prevê o estudo. Por outro lado, em culturas como milho e trigo, o agronegócio brasileiro ainda está distante do americano. Para comparar: isoladamente, a produção de milho nos EUA, com 330 milhões de toneladas, equivale ao dobro de toda a safra brasileira de grãos. “O Brasil terá liderança em culturas pontuais, mas precisaremos esperar muitas décadas até que o País se transforme no maior fornecedor mundial de alimentos”, diz França Júnior.

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Se o Brasil vai mesmo se tornar líder ou se manter na vice-liderança em produção de alimentos, só o tempo dirá. No entanto, é um consenso entre especialistas e empresários que o avanço do agronegócio só será bem-sucedido caso seja acompanhado pelo fortalecimento da indústria. Para a economista do IBGE, Adma Hamam Figueiredo, os efeitos positivos do campo brasileiro só serão convertidos em crescimento econômico se houver agregação de valor às commodities. “Não podemos nos contentar em apenas plantar e colher, como ocorreu durante séculos com as colônias”, diz Adma. “Esse ambiente é, sem dúvida, um momento de grande oportunidade para o País.”