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Após embargo dos EUA à carne, governo investigará vacinas

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O Ministério da Agricultura abriu uma investigação para apurar a causa dos abscessos – acúmulo de pus – que provocaram o embargo temporário dos Estados Unidos à carne bovina in natura do Brasil. A investigação, que deve ser concluída em até 60 dias, trabalha com a hipótese de que a vacina contra a febre aftosa tenha causado a inconformidade.

"Tudo indica que o problema é de vacinação, mas pode haver problema de manuseio, por exemplo", disse o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Novacki, na sexta-feira. Ele reiterou a posição do ministro Blairo Maggi de que os abscessos não fazem mal à saúde. Maggi viajará aos EUA para tentar reverter a suspensão.

O problema também já se refletiu na Europa. Na sexta-feira, a Comissão Europeia informou que o Brasil concordou em elevar os testes de segurança feitos sobre as exportação de carne, segundo a agência Reuters.

Na investigação, os técnicos do Ministério da Agricultura vão verificar a qualidade das vacinas, disse Novacki. Segundo ele, a Pasta tem condições de rastrear todos os lotes da vacina que foram usados.

Ao Valor, o vice-presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), Emílio Salani, ponderou que não é possível tirar conclusões sem uma avaliação clara. Além da vacina, a falta de higiene na aplicação também pode ter levado ao problema, assim como a limpeza das carcaças nos frigoríficos.

Salani também defendeu o rigor do processo produção da vacina contra a aftosa. Por determinação legal, amostras de todos os lotes de vacinas produzidas nos últimos cinco anos ficam retidos em uma central em Vinhedo (SP).

Além disso, todos os lotes da vacina contra a doença só recebem o selo holográfico que permite a comercialização após testes realizados no Laboratório Nacional Agropecuário (Lanagro), no Rio Grande do Sul, e dois testes em animais feitos em Sarandi (RS).

Como o uso das vacinas contra a febre aftosa é obrigatório no país – com exceção de Santa Catarina -, os pecuaristas devem comprovar a compra das vacinas por meio de notas fiscais. É por essa razão que o rastreamento da vacina é possível.

No setor pecuário, também há a suspeita de que nem todas as vacinas causem problemas. Duas fontes ouvidas pelo Valor afirmaram que as vacinas da argentina Biogénesis Bagó e da Boehringer dificilmente causam reações. Questionado, Salani disse desconhecer problemas com empresas específicas. "Essa informação não é de domínio do sindicato".

Entre os exportadores de carne bovina do Brasil, o clima é de desalento. Na sexta-feira, Novacki sugeriu que o fatiamento do dianteiro bovino – em vez da venda de peça inteira – elimina as chances de os abscessos aparecerem na carne. "O Chile reportou um caso em novembro. Foi determinado o fatiamento e o problema acabou", afirmou ele.

Mas o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Antônio Camardelli, disse que o fatiamento atenua o problema, mas não impede o aparecimento de abscessos. A única maneira de preveni-lo seria fazer "picadinho", mas isso é impossível comercialmente. (Colaboraram Fernanda Pressinott, de São Paulo, e Juliano Basile, de Washington)

Por Cristiane Bonfanti e Luiz Henrique Mendes | De Brasília e São Paulo

Fonte : Valor