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Apesar de percalços, exportações de carnes devem se recuperar no ano

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Após um semestre difícil de esquecer em razão do acúmulo de notícias negativas no setor, os exportadores brasileiros de carnes começaram a segunda metade do ano mais otimistas. Tudo indica que os efeitos deletérios da Operação Carne Fraca – deflagrada em março pela Polícia Federal – se dissiparam, o que já impulsionou os embarques de carnes de frango e bovina no mês passado.

Embora o espectro das investigações policiais ainda gere apreensão, sobretudo após as revelações da delação dos executivos da JBS, analistas e executivos do setor acreditam que as exportações deste semestre podem compensar a queda no primeiro.

"O mês de julho foi excepcional", disse o analista César Castro Alves, da consultoria MB Agro. Em julho, os embarques de carne bovina in natura somaram 106,3 mil toneladas, crescimento de 29%. No caso da carne de frango, o aumento foi de 6,2%, para 385 mil toneladas, de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic).

Em termos de rentabilidade, os exportadores de carne bovina estão no melhor momento desde janeiro de 2006, segundo a MB Agro. Impulsionado pela queda do preço do boi para abate, o "spread" na exportação – indicador de margem bruta que apura a diferença entre o preço da carne exportada e o do boi – está em 25%, ante uma média história de 5%, disse Alves.

Além disso, a demanda externa, que vinha patinando nos primeiros meses do ano. Importadores relevantes como o Egito, que reduziu drasticamente as compras desde o último ano devido à escassez de dólares, retomaram as compras da carne brasileira. Em julho, os egípcios importaram 17,3 mil toneladas de carne in natura, ficando só atrás de Hong Kong entre os importadores.

Conforme uma fonte do setor, as compras do Egito aumentaram porque os importadores do país africano passaram a pagar antecipadamente pelos novos pedidos de carne bovina. Com isso, o Egito já mais do que compensou o efeito negativo do embargo dos Estados Unidos à carne bovina in natura do Brasil, acrescentou o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadores de Carnes (Abiec), Antônio Camardelli. Ao longo dos próximos meses, prosseguiu Camardelli, as vendas ao Egito devem continuar aquecidas. Além disso, a Abiec também trabalha com a perspectiva de retomar as vendas aos americanos ainda neste ano.

"A despeito de todos os acontecimentos, a expectativa é fechar 2017 igual ao ano passado", afirmou Camardelli, sinalizando que os embarques dos próximos meses seguirão em alta, anulando o efeito da queda de 5% nas exportações de carne bovina do acumulado entre janeiro e julho. Segundo dados da Secex compilados pela Abiec, o Brasil exportou 781,3 mil toneladas de carne bovina entre janeiro e julho, ante 818,2 mil toneladas vendidas um ano antes.

Em carne de frango, o momento também é de recuperação. De acordo com Alves, da MB Agro, os embarques do produto brasileiro estavam "engasgados", mas o cenário melhorou em julho. Aparentemente, afirmou o analista, a queda dos preços do milho fez os frigoríficos de carne de frango ganharem tanta margem que eles decidiram dar descontos nas exportações para aumentar o volume embarcado em julho.

De fato, julho foi o melhor mês para os exportadores de carne de frango desde a deflagração da Operação Carne Fraca, ressaltou ao Valor o presidente-executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o ex-ministro da Agricultura Francisco Turra.

Para a ABPA, o segundo semestre deve ser positivo para o setor. Conforme Turra, os países que seguraram as compras do produto brasileiro após a Operação Carne Fraca compraram pouco volume dos principais concorrentes do Brasil no mercado internacional – Estados Unidos e Tailândia. A maior parte deles, como o Japão, aproveitou o momento para consumir o estoque que estava elevado. Agora, com os estoques menores, os importadores retomaram as compras.

Em julho, o Japão já se destacou, ressaltou Turra. No mês passado, o país asiático comprou 36,2 mil toneladas de carne de frango do Brasil, incremento de 55% na comparação com julho de 2016.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor