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Apesar da perspectiva de chuva, agricultores temem mais perdas com a chegada do frio no Sul do Brasil

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Emater alerta que as baixas temperaturas dos próximos dias podem prejudicar as lavouras remanescentes de soja e milho

Roberto Witter

Foto: Roberto Witter / Agencia RBS

Efeitos da seca ainda são observados no Rio Grande do Sul

A chuva não adianta mais para recuperar a safra frustrada e asperdas bilionárias na economia do Rio Grande do Sul. Porém, a perspectiva de precipitações regulares e bem distribuídas até a primavera anima o campo — e exige cautela. Especialistas alertam que a redenção para os problemas no verão não deve ocorrer completamente no inverno.

– Não se pode querer compensar tudo no ciclo de inverno. É preciso manter o planejamento de rotatividade e prazos para plantio – observa Alencar Rugeri, engenheiro agrônomo da Emater.

A corrida por informações sobre novas culturas já foi deflagrada. A linhaça e a canola surgem como alternativas ao trigo em algumas regiões. Entre os agricultores do noroeste do Estado, uma das regiões mais castigadas pela seca, a maior preocupação é com a cobertura de solo, o que indica um aumento no cultivo de aveia.

Antes da chuva, porém, a preocupação é que o frio provoque outro revés na safra de verão. Segundo a Emater, as baixas temperaturas previstas para os próximos dias podem prejudicar as lavouras remanescentes de milho e soja. Rugeri destaca que a variação extrema de temperatura é um risco para a planta.

O consultor Jorge Vargas observa que o objetivo deve ser reter o máximo de água no solo para tentar evitar perdas maiores na safra de verão. Se depender do clima, há esperança de sobra. Além da chuva mais frequente a partir de abril, a previsão é de volumes considerados bons até mesmo na primavera, quando começa a safra de verão.

– Tudo dependerá de como o solo vai absorver a água, mas se a primavera for mesmo chuvosa, há boas perspectivas de safras melhores – salienta Julio Renato Marques, professor da Faculdade de Meteorologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Precipitação acima da média pode reduzir racionamentos
Enquanto no campo a chuva chega tarde demais, já que a maior parte das perdas é irreversível, nas cidades ela é uma bênção. Em Erechim, no norte do Rio Grande do Sul, o lago de captação da barragem da Corsan está 2,05m abaixo do normal. Se diminuir mais 50 centímetros, haverá racionamento.

A obra de transposição do Rio Cravo deve resolver o problema por pelo menos 20 anos. Mas o prazo para conclusão é de pelo menos 18 meses. Enquanto isso, o cenário no lago é desolador. A terra rachada que serve de pista para crianças estaria submersa se a situação fosse normal.

Na região, há 35 municípios em situação de emergência. Em Floriano Peixoto, as torneiras ficam secas das 13h às 17h, e os caminhões-pipa não vencem a demanda no interior. O drama é semelhante em Barão de Cotegipe e Benjamin Constant do Sul.

Municípios como Silveira Martins, Agudo e Restinga Seca, no centro do Estado, estão em alerta. Em São Gabriel, a prefeitura retomou a entrega de água potável para o interior. O desabastecimento também atinge o Noroeste e o Vale do Rio Pardo. Em Santa Cruz do Sul, só neste mês foram entregues pelo menos 227 cargas de água potável.

– O mais grave do La Niña foi a falta de chuva e o calor intenso na primavera, quando há o enchimento dos reservatórios – observa Estael Sias, meteorologista da Central de Meteorologia.

Segundo ela, a recuperação ainda é parcial no Estado. As regiões mais problemáticas são Missões, Alto Uruguai e Planalto Médio. Estael observa, porém, que a situação é diferente da seca de 2005, quando a escassez foi mais intensa em março. E revela uma tendência de chuva mais regular a partir da chegada do outono.

Conforme boletim do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), abril deve ter chuva acima da média na maior parte do Estado, em especial na Campanha e no Oeste. Em maio, as precipitações devem superar a média em todo o Rio Grande do Sul. Para junho, a previsão é de chuva dentro da média histórica.

– A seca acabou em parte do Estado, mas só chuva mais bem distribuída nos próximos meses será suficiente para recuperar o nível dos reservatórios – ressalta Glauco Freitas, meteorologista da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária do RS (Fepagro).

Fonte: Ruralbr | ZERO HORA