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Ambientalistas aprofundam relações com empresas

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Fonte: Valor | De São Paulo

Não faz muito tempo, a palavra "negócio" era tabu entre as organizações ambientalistas. Hoje é vista como aliada para salvar o planeta. "É fundamental apoiar o setor privado no sentido de incorporar o capital natural nas equações econômicas", diz o biólogo Carlos Alberto Scaramuzza, superintendente de conservação do WWF-Brasil.

A entidade, que lançou mundialmente o conceito de "pegada ecológica" para medir impactos no uso de recursos naturais e ajudar as empresas a mitigá-los, incluiu no planejamento estratégico a necessidade de novos valores nos modelos de negócio. Segundo Scaramuzza, a tendência é o aumento da eficiência para a "produtividade total" e a mudança de sistemas para se fechar o ciclo da produção. No modelo "do berço ao berço" – ou seja, da fabricação ao retorno do produto como matéria-prima – são menores o consumo energético e a geração de resíduos.

A relação tem mão-dupla. Grandes empresas contratam ambientalistas para a alta direção e, no sentido inverso, organizações não governamentais buscam no mercado gestores com visão de negócio. "Como resultado, na construção do Diálogo Florestal, sentamos à mesa com indústrias de papel de celulose para aliar produção e conservação, dando um novo rumo para a Mata Atlântica, no Sul da Bahia", conta o ambientalista.

"Mas a sustentabilidade, em muitos casos, está ligada ao departamento de marketing das empresas e não à presidência", lamenta Scaramuzza. "Não podemos internalizar custos ambientais e jogá-los para a sociedade, mas há resistência", completa.

"Relatórios da ONU divulgados a partir de 2005 eliminaram dúvidas sobre o fato de que o mundo atravessa uma crise ambiental que tem forte relação com os padrões econômicos", argumenta Fábio Scarano, diretor-executivo da Conservação Internacional (CI-Brasil). Os dados turbinaram a incorporação da sustentabilidade pelo setor produtivo, nos últimos cinco anos. "Mas a relação das empresas com as questões ambientais ainda está em fase de namoro; falta o casamento", afirma. E como em toda paixão, compara o diretor, "há riscos de rompimento, especialmente se não há tempo para amadurecimento".

Para que a relação não seja efêmera, "a sustentabilidade precisa virar negócio e ser incorporada à matriz da empresa". Um desafio é medir valores intangíveis, relacionados à biodiversidade. O relatório "The Economics of Ecosystems and Biodiversity (TEEB), liderado pelo economista-chefe de fundos de investimento do Deutsche Bank, Pavan Sukdev, contabilizou entre US$ 2,5 trilhões e US$ 4,5 trilhões a perda anual com a destruição dos ecossistemas vitais do planeta. De acordo com o estudo, os serviços ambientais contribuem com 47% a 89% da renda dos mais pobres.