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Alta dos grãos põe em risco o café da manhã dos britânicos

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O tradicional café da manhã britânico, com ovos e bacon fritos, poderá se tornar um prazer mais raro, já que a alta dos custos das rações começa a forçar um "êxodo" de produtores da carne suína para outras atividades. A produção poderá recuar até 20% no Natal, uma vez que muitos criadores britânicos estão considerando a possibilidade de desistir do negócio para evitar as perdas crescentes com cada suíno vendido, segundo pesquisa feita pela National Pig Association (NPA). Nesse contexto, cerca de 8 mil matrizes já foram abatidas desde o começo deste ano.

A carne suína é o mais recente produto básico da dieta dos britânicos a sentir o aperto provocado pela alta dos custos dos insumos – exacerbada pela seca que atinge os Estados Unidos este ano, que elevou os preços de soja e milho, usados nas rações – e a relutância dos supermercados de cobrar mais dos clientes, cujos orçamentos já estão apertados. Todos os pecuaristas estão sendo afetados, mas a ração representa uma proporção maior dos custos para os criadores de suínos.

Lester Bowker, de Devon, que está desistindo da criação de suínos após 21 anos, diz que está economicamente inviável para as fazendas familiares permanecerem no negócio. "No momento, estamos em compasso de espera (…) não estamos investindo no negócio. Portanto, tenho pensado: ‘Qual é o sentido em prosseguir?’", diz ele. Os pecuaristas britânicos fazem parte de uma tendência mundial, na medida em que os custos das rações e o enquadramento nas regras para a criação afetam fornecedores do mundo inteiro.

O rebanho suíno do Reino Unido já caiu praticamente pela metade na última década, para 420 mil matrizes, e a produção doméstica já cobre menos da metade da demanda. A carne suína barata importada da Europa continental tem parte da culpa, mas os criadores afirmam que isso não vai perdurar, já que o cenário também prejudica os concorrentes.

Nos Estados Unidos, 8,57 milhões de suínos foram abatidos em julho, 5% mais que no mesmo período do ano passado. O Departamento da Agricultura dos EUA (USDA) estima que a produção doméstica de carne suína cairá 1,3% em 2013 em consequência da pressão de custos. Chris Hurt, economista da Purdue University, de Indiana, estima que o segmento sofrerá uma perda de até US$ 4 bilhões no país no próximo ano.

Os produtores europeus vão, a partir do ano que vem, enfrentar custos maiores para se adequar às regras de bem-estar animal. "Esse não é um problema do Reino Unido, é mundial", diz o criador Mike Sheldon, que alerta para as evidências crescentes de que produtores de todas as partes do mundo estão liquidando seus rebanhos. Sheldon produzia 260 leitões por semana, mas diz que agora vai fazer algo "completamente diferente".

Com os produtores desativando suas atividades, a oferta poderá atingir "um grande pico" no segundo trimestre de 2013, segundo alerta James Hart, um criador de suínos que está a meio caminho de uma "seleção" em um rebanho que já contou com 10 mil animais.

Recentemente, alguns varejistas melhoraram os preços pagos aos criadores. A J. Sainsbury vem pagando um adicional de 10 pence (16 centavos de dólar) por quilos acima do preço do mercado desde a metade de agosto, embora isso vá ser revisto em outubro. Já a Morrison está pagando um ágio de 5 pence. Ambas estão absorvendo o golpe em suas próprias margens, em vez de repassá-lo para os consumidores. Para alguns criadores, a maioria dos quais vende para os grupos varejistas por meio processadores, isso ainda representa uma perda.

Richard Longthorpe, presidente da NPA, calcula o custo britânico de produção em cerca de 1,60 a 1,70 libra por quilo – e a alimentação representa quase dois terços desse valor. O preço do mercado está no momento em torno de 1,50 libra (US$ 2,41). "O mais importante desta vez, e isso é irônico, é que o preço do suíno por si só está numa fase costumeira de alta", diz ele. "O que isso significa é que muitos podem se dar ao luxo de abandonar os suínos no momento."

Os problemas de fluxo de caixa significam que muitos produtores estão tomando essa decisão. Recentemente, Hart tentou falar com o gerente de seu banco para uma revisão de seus contratos. "Mas ele me disse: ‘Estarei ocupado na semana que vem, pois todos os pecuaristas estão me ligando, querendo estender suas dívidas". (Tradução de Mario Zamarian)

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Fonte: Valor | Por Louise Lucas e Gregory Meyer | Financial Times