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Alta de alimentos já preocupa menos a FAO

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Temores sobre a repetição de uma crise alimentar global como a de 2008 aumentaram no mês passado, depois que o índice de preços globais de alimentos da FAO, o braço das Nações Unidas para agricultura e alimentação, subiu 6% em julho e cresceram as preocupações de importadores sobre uma explosão dos custos dos grãos em razão da estiagem nos EUA.

Mas nesta quinta-feira, o mesmo indicador, que mede mensalmente as oscilações médias de preços de uma cesta formada por cereais, oleaginosas, lácteos, carnes e açúcar, deverá mostrar que houve uma estabilização em agosto, conforme sinalizações do mercado. Depois de ter chegado a 213 pontos em julho, a ascensão não prosseguiu e o índice variou pouquíssimo em agosto, pelo menos não a ponto de ampliar o nervosismo na cena internacional.

Foi provavelmente com base em resultados preliminares sobre o comportamento desse indicador no mês passado que os chefes de três agencias internacionais que tratam de questão alimentar – a própria FAO, o Fundo Internacional para Desenvolvimento da Agricultura (Ifad) e o Programa Alimentar Mundial (PAM) – divulgaram ontem um comunicado sobre as causas da alta dos preços e da fome no mundo.

A mensagem por trás da linguagem diplomática da FAO e das outras agências é que não há crise de preços de produtos alimentares e é possível evitar a repetição da dura crise de 2008. Ou seja, a comunidade internacional está melhor preparada do que há cinco anos para enfrentar a atual situação nos mercados internacionais de alimentos, caracterizada por fortes altas nos preços de milho, trigo e soja – e para evitar que essa situação se transforme "em uma catástrofe, atingindo milhoes de pessoas nos próximos meses".

O diretor da FAO, José Graziano da Silva, e seus colegas Kanayo Nwanze (Ifad) e Ertharin Cousin (PAM) destacam a criação de novos instrumentos para lidar com esse cenário – como o Foro de Resposta Rápida, que serve para coordenar a posição de grandes exportadores e importadores, alem de tradings de cereais e soja. Eles também consideram que, para responder a uma alta dos preços, é importante ter estratégia, e sugerem que os importadores evitem o pânico e não corram para comprar, o que pode ajudar a elevar as cotações. Da mesma forma, países produtores devem evitar impor restrições às exportações.

As três agências notam que houve três picos de preços de alimentos nos últimos cinco anos, e que problemas meteorológicos estão entre as causas de cada uma delas, ao lado, por exemplo, de uma crescente especulação financeira. "Estamos vulneráveis porque, mesmo em um bom ano, a produção global de grãos é apenas suficiente para atender à crescente demanda por alimentos, ração e combustível, isso num mundo onde há 80 milhões a mais de bocas a serem alimentadas a cada ano", afirma o comunicado.

Para prevenir uma possível degradação da situação, as agências recomendam vigilância e preparação "para o pior no curto prazo", ao mesmo tempo em que pregam trabalho por soluções no longo prazo.

Relatório do Deutsche Bank, por sua vez, prevê que mais picos de preços podem ser alcançados no curto prazo, mas que não há crise à vista, já que a relação entre oferta e demanda é apertada e os estoques de alimentos são baixos. Mas o debate em torno da produção de etanol de milho pode aumentar, uma vez que 40% do cereal nos EUA é utilizado para a produção do biocombustível.

Analistas do banco Société Générale também destacam diferenças em relação à crise de 2008. Notam, por exemplo, que a oferta global de trigo e arroz, as duas commodities mais importantes para a alimentação humana, permanece relativamente sólida. E destacam que, na média, os preços agropecuários aumentaram 25% desde junho, mas continuam 15% abaixo dos picos de 2008 e 2011. Para o Rabobank, o custo da ração continuará a subir e intensificará a competição por terras e insumos, forçando a produção de itens de maior valor agregado.

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Fonte: Valor | Por Assis Moreira | De Genebra