Algodão sofre menos com lagarta na Bahia

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Surto da lagarta helicoverpa nas lavouras de algodão do oeste baiano fez com que produtores buscassem alternativas "heterodoxas" para reduzir prejuízos

Os produtores do oeste baiano estão terminando a colheita de algodão da safra 2013/14 com uma boa notícia em relação ao ciclo anterior. A famigerada lagarta helicoverpa, que causou à cultura prejuízos de R$ 409 milhões em 2012/13, desta vez provocou perdas 27% menores, de cerca de R$ 300 milhões, nas contas da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba). E pelo menos parte dessa retração é creditada ao uso de uma variedade transgênica não certificada pelos caminhos oficiais. Estima-se que até 25% do algodão recentemente colhido na Bahia tenha a genética dessa semente.

Ela se alastrou no oeste da Bahia diante da "urgência sanitária" então criada pela incidência da helicoverpa. "DB" é como ficou conhecida a variedade, sigla formada a partir das iniciais de Damasceno Braga, "desenvolvedor" da genética. Na realidade, como explicou ao Valor o próprio Damasceno, a DB resultou do cruzamento de materiais genéticos próprios com a tecnologia Bt (I e II) da americana Monsanto, que contém o gene que confere a resistência a lagartas.

No mercado, não há consenso sobre o tamanho da área plantada com a variedade de Damasceno Braga. Algumas sementes teriam sido remetidas a outros Estados, mas estima-se no mercado que a maior parte ficou na Bahia e ocupou entre 50 mil e 80 mil hectares. Trata-se do equivalente a algo entre 15% e 25% da área plantada no Estado em 2013/14.

Braga conta que, quando o surto da helicoverpa eclodiu, ele testava sua variedade em uma fazenda do oeste baiano. Mas o desempenho da planta foi tão bom, lembra, que a notícia se espalhou pelas propriedades vizinhas. Em alguns dias, o caroço do algodão "DB" estava sendo distribuído aos produtores da região, que começaram a reproduzir o material.

"O negócio saiu do controle. Foi violenta a coisa", conta Damasceno. Ele garante que não ganhou dinheiro com isso, mas que o desfecho não foi de todo ruim. "O lado positivo é que pude testar meus materiais em uma escala maior".

Mas a tendência é que o feito de Damasceno não se repita nesta temporada 2014/15, que será plantada a partir de dezembro. Já em 2013/14 os produtores que cultivaram a DB foram à Justiça pedir uma espécie de "indulto", com receio de sofrerem represálias.

Os argumentos de emergência sanitária e a falta de oferta de sementes resistentes à lagarta ganharam reforço com a alegação de que as empresas de sementes estavam cobrando um "absurdo" pelas variedades oficiais, conforme petição protocolada em dezembro de 2013 na Vara de Barreiras (BA) pelos advogados Márcio de Souza e José Amando Júnior, contratados pelo Sindicato Rural de Luís Eduardo Magalhães para defender os produtores adeptos da DB.

Apesar de repudiar o uso de sementes nas condições apresentadas – adquiridas ao "arrepio" da legislação, conforme despacho judicial – a magistrada Manoela de Araújo Rocha, do fórum de Barreiras, decidiu determinar que os órgãos de fiscalização não punissem os produtores que já tivessem plantado a semente enquanto se discute o processo na Justiça. No entanto, determinou que os mesmos produtores comunicassem ao Ministério da Agricultura a localização e a quantidade de hectares plantados com a variedade DB.

Essa exigência, no entanto, não foi atendida. Segundo o coordenador de sementes e mudas do ministério, André Peralta, somente 13 produtores confirmaram que iriam plantar a variedade de Damasceno Braga, mas não informaram local e área cultivada. Peralta afirmou que há uma denúncia sendo investigada, mas que há dificuldade em provar que a variedade, de fato, resultou dos experimentos citados.

Neste momento, Damasceno Braga garante que está pleiteando o registro oficial de sua variedade no ministério e está na fase de Valor de Cultivo e Uso (VCU), etapa que antecede o registro. Ele revela que não tem curso superior e se considera um "agricultor melhorista". Autoditada, conta que sempre teve contato com a cultura. Foi cotonicultor até alguns anos atrás, mas agora só mantém plantios para fins de pesquisa. Já chegou a plantar 2,8 mil hectares da pluma em Mato Grosso nos anos 2000, e na década de 1980 foi o maior produtor da pluma no Paraná, com 1,5 mil hectares cultivados.

Os primeiros experimentos com a cultura, lembra Damasceno Braga, começaram quando ele era produtor de sementes no Paraná, no fim dos anos 1980. "Eu multiplicava sementes com a genética do Iapar e do IAC. Paralelamente a isso, eu ia fazendo as minhas pesquisas", afirma. Na petição inicial na qual o Sindicato de Luís Eduardo Magalhães defende o legado de Damasceno Braga, há menção ao período em que o "agricultor melhorista" trabalhou no grupo Itamaraty, do empresário Olacyr de Moraes, pioneiro no financiamento de pesquisas em genética de algodão nos anos 1980.

Hoje com 60 anos, Damasceno diz que sempre esteve envolvido com algodão. "Tenho uma intimidade muito grande com a planta. Um dom natural para lidar com essa cultura", conta. Ele diz que a DB é apenas uma das variedades que compõem o seu projeto, que ele ainda guarda a sete chaves. E lamenta a exposição que a DB teve antes da hora. "Eu precisava de mais tempo", diz.

De qualquer forma, ele defende que a DB apresentou um excelente desempenho no campo. Com custo de produção "baixíssimo", a variedade tem um ciclo de produção de 35 a 45 dias mais curto que o das outras variedades de algodão, resultado de uma fotossíntese mais acelerada da planta, detalha ele. "Além disso, a área foliar dessa variedade é menor, com isso, pode-se cultivar mais plantas por hectare".

O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Luís Eduardo Magalhães, Vanir Kölln, diz não ter informações sobre o real desempenho da variedade DB no campo. "Procurei não me envolver nisso".

A Associação dos Irrigantes da Bahia (Aiba) afirmou não ter levantamento que contemple a variedade DB. A estatística feita, segundo o assessor de agronegócios da entidade, Luiz Stahlke, apenas identificou que as variedades transgênicas resistentes à lagarta demandaram, em média, seis aplicações de inseticida neste ciclo 2013/14 – há três variedades comerciais no país que teriam ocupado cerca de 56% da área plantada, segundo a Céleres. Nas convencionais, foram 12 aplicações.

Em nota, a Monsanto disse não ter conhecimento do caso da variedade DB e que esse tipo de prática cria o risco de seleção de inseto resistente.

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Fonte: Valor | Por Fabiana Batista | De São Paulo