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Algodão ‘patina’ com clima e preços baixos

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O clima adverso deve afetar o rendimento e a qualidade da produção brasileira de algodão nesta safra 2011/12. Ao mesmo tempo, os preços baixos já desestimulam os agricultores a manter os investimentos para a próxima safra.

Em Mato Grosso, maior produtor nacional da fibra, a colheita já foi realizada em 35% da área. O excesso de chuvas frustrou a expectativa de um aumento de 5% a 10% na produtividade, que deve ficar em 250 arrobas por hectare.

"Como tivemos um ciclo de mais chuvas, a preocupação é se vamos atingir bons níveis de qualidade. Vamos ver qual foi o resultado quando apresentarmos o algodão aos compradores, para saber se há rejeição", conta Jaison Vavassori, gerente comercial da Unicotton, cooperativa que reúne 64 produtores em Primavera do Leste (MT).

De acordo com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), os preços da pluma na semana encerrada em 20 de julho recuaram 1,2%, a R$ 48,90 a arroba em Primavera do Leste, patamar semelhante ao observado um ano atrás. Contudo, a queda nas cotações no mercado externo causa apreensão.

Desde o início do ano, o algodão já caiu 21,26% na bolsa de Nova York, segundo o Valor Data. Em 12 meses, a baixa chega a 26,81%. A desvalorização é explicada pelos amplos estoques e pela queda da demanda, reflexo da crise econômica, que derrubou as exportações de têxteis da China (maior consumidor mundial de algodão) para EUA e Europa.

Segundo o Imea, as exportações de algodão de Mato Grosso somaram 23 mil toneladas em junho, o menor volume do ano. A Turquia foi a maior compradora, com 5,7 mil toneladas, seguida da China, com 5,6 mil toneladas.

Como cerca de 50% da produção mato-grossense foi comercializada, de forma antecipada, a preços na casa de US$ 1 por libra-peso, os agricultores temem que importadores quebrem contratos. Ontem, os contratos de algodão para dezembro fecharam o dia a 72,19 centavos de dólar em Nova York.

João Carlos Jacobsen, vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), acredita que o risco de desacordos com as tradings existe, embora entenda que sejam casos bastante pontuais. "Há dois anos, a situação era inversa: os preços ficaram mais altos e a grande maioria dos produtores cumpriu os contratos mesmo vendendo por menos, às vezes pela metade do valor de mercado naquele momento", lembra Jacobsen, que produz algodão no oeste da Bahia.

A estimativa era de que 60% a 70% do algodão produzido no oeste baiano tivessem sido vendidos antecipadamente, mas essa proporção deve passar de 80% com a queda de rendimento esperada para a região, depois da seca que castigou as lavouras. "A produtividade está em torno de 220 arrobas por hectare, mas ainda há possibilidade de piora. No ano passado, o rendimento fechou em 270 arrobas", compara Jacobsen.

Já o mercado interno, diz Vavassori, ainda patina após a crise do ano passado. "Por conta dos altos preços do algodão, muitas indústrias têxteis acabaram fechando."

O fato é que as cotações em baixa do algodão devem motivar uma forte redução na área plantada na safra 2012/13, especialmente no Brasil, nos EUA e na Argentina, que investirão mais em grãos como soja e milho, de maior retorno atualmente. De acordo com um consultor ligado à Bolsa Brasileira de Mercadorias (BBM), a expectativa é que o Brasil diminua em 25% a área destinada à fibra na próxima temporada. Na Bahia, segundo Jacobsen, a tendência é que 30% a 40% dos campos com algodão sejam direcionados para a soja.

Em seu último relatório, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou uma colheita de 1,9 milhão de toneladas de algodão em pluma no Brasil nesta safra, ante a previsão inicial de uma média de 2,02 milhões de toneladas. No ciclo passado, o país colheu 1,96 milhão de toneladas.

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Fonte: Valor | Por Mariana Caetano | De São Paulo