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Agrotechs impulsionam profissão de meteorologista

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Divulgação

Amanda Balbino, 25, formou-se em ciências atmosféricas e atualmente trabalha na Agrosmart, startup com sede em Campinas, no interior de São Paulo

O uso cada vez mais intenso da tecnologia no campo e o surgimento das agrotechs, startups voltadas para o setor agropecuário, começam a abrir um novo mercado de trabalho para os meteorologistas. O movimento ainda é incipiente, mas já existem profissionais da área de ciências atmosféricas trabalhando para otimizar os processos das lavouras brasileiras. "O agronegócio, em particular, tem sido uma importante opção para os recém-formados, principalmente em São Paulo e nas regiões Sul e Centro-Oeste", afirma Edilson Marton, coordenador da graduação em meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

É o caso de Amanda Balbino, 25. Bacharel em ciências atmosféricas pela Universidade Federal de Itajubá, ela trabalha desde 2015 na Agrosmart, uma startup que nasceu no interior de Minas Gerais e hoje tem sede em Campinas, no interior de São Paulo.

O negócio da Agrosmart é melhorar a produtividade e otimizar o uso dos recursos na agricultura. Para isso, a startup monitora diversas variáveis ambientais e gera informações que auxiliam nas tomadas de decisão do produtor rural. Hoje, a Agrosmart emprega três meteorologistas e está em busca de mais um. "Nossos primeiros funcionários foram meteorologistas", diz Mariana Vasconcelos, fundadora da Agrosmart, que explica o porquê. "No mercado de agricultura, a meteorologia é essencial, pois ter uma previsão eficaz do clima é fundamental para planejar a operação."

Além da formação em meteorologia ou ciências atmosféricas, Mariana lista algumas competências comportamentais importantes para trabalhar na Agrosmart. "É um ambiente bem diferente do acadêmico, para onde vão muitos meteorologistas", diz a empreendedora. "Em uma startup é necessário ter agilidade, iniciativa e visão orientada ao usuário, além de gostar de desafios."

Amanda, uma das meteorologistas da Agrosmart, entrou na área meio por acaso. Quando foi fazer sua inscrição para ingressar na faculdade estava certa que queria cursar engenharia ambiental, mas havia a possibilidade de marcar dois cursos diferentes. Então ela descobriu ciências atmosféricas, e foi nesse que passou. "Eu entrei já pensando em pedir transferência para engenharia ambiental mais para frente, mas me apaixonei pelo curso", conta. "Gostei de entender os fenômenos atmosféricos e passei a ver como eles impactam a vida das pessoas."

Logo que ela terminou a graduação, ficou sabendo de uma vaga na Agrosmart e se candidatou. Só que, de novo, não era isso que estava nos planos. "Imaginava o mais comum, que era ir para um emprego público", diz. "A vaga em uma startup me atraiu por ser uma rotina cheia de desafios, mudanças constantes e que possibilitaria me desenvolver. Saber que o trabalho é relevante para os nossos clientes também é fundamental para mim."

Aluno do curso de meteorologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Matheus Bonifácio Pamplona, 20, também começou a trabalhar recentemente em uma startup, a Canopy Remote Sensing Solutions, com sede na Grande Florianópolis (SC) e especializada em inventário e monitoramento florestal a partir de dados de sensoriamento remoto. O primeiro contato de Pamplona com o setor florestal foi em um programa de iniciação científica que fez durante a faculdade. "É um caminho que dá para seguir, apesar de ser mais raro", diz ele.

A Agronow, uma startup com sede em São José dos Campos, no interior paulista, também vai contratar um meteorologista em breve. Com 14 funcionários atualmente, a empresa ajuda os produtores a monitorarem suas safras. Para isso, usa imagens de satélite e um algoritmo desenvolvido pela equipe, capaz de mapear o desenvolvimento de culturas e prever sua produtividade. "O produtor entra na plataforma, insere a localização e qual cultura quer mapear. A partir disso pode saber a produtividade que terá naquela área", diz Walkiria Sassaki, diretora de operações da Agronow.

Hoje, a previsão está disponível para culturas de soja, cana de açúcar, milho, pastagem, floresta nativa e eucalipto. Logo a empresa vai incluir também algodão, amendoim, feijão e trigo. O meteorologista agora será necessário porque a plataforma da Agronow vai incluir parâmetros meteorológicos. "Já usamos hoje de maneira regional, e queremos aprofundar mais esses dados para poder ser mais assertivo", afirma Walkiria.

O perfil procurado pela Agronow requer um profissional flexível e com capacidade de adaptação ao ambiente de startup. "Se tem vontade de ter um chefe próximo fica mais complicado", diz Walkiria. "Para trabalhar com a gente a pessoa tem que ter capacidade de autogestão e de fazer trabalho em equipe."

A Aegro, que oferece um software de gestão agrícola e tem sede em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, também está em busca de um meteorologista. Hoje, a startup tem 12 funcionários, entre cientistas da computação e agrônomos. "Quando se fala em otimização dos processos agrícolas, caímos em dois pontos de risco: clima e fertilidade do solo. O meteorologista que buscamos precisa saber fazer a previsão do clima para o futuro e analisar o passado por meio do histórico de produção", diz Pedro Duss, cofundador e CEO da Aegro. "A partir do momento que tivermos essa pessoa internamente poderemos embutir esse conhecimento na nossa ferramenta." A expectativa de Duss é fechar a contratação até o fim do ano.

A SciCrop, agrotech instalada no Google Campus, em São Paulo, usa dados meteorológicos no serviço que oferece aos clientes, mas ainda não vê razão para incluir um meteorologista na equipe interna. Por isso fez parceria com uma das empresas mais tradicionais do mercado, a Climatempo. "Eles têm um histórico de modelagem de muitos anos e isso é relevante para o serviço que oferecemos", diz Renato Ferraz, cofundador da SciCrop. "Com a parceria contamos com uma equipe de meteorologistas e há especialistas em cada cultura". Desde 2015 no mercado, a SciCrop tem uma equipe de nove pessoas, entre profissionais de tecnologia e agrônomos.

Por Adriana Fonseca | Para o Valor, de São Paulo

Fonte :  Valor