AGRONEGÓCIOS – Turquia alimenta exportação de gado vivo

Entre 2016 e 2017, cerca de 100 mil cabeças partiram do Estado

Entre 2016 e 2017, cerca de 100 mil cabeças partiram do Estado

/PORTO DE RIO GRANDE/DIVULGAÇÃO/JC

Thiago Copetti

Embarcados em navios-curral ou navios boiadeiros, e navegando cerca de 10 mil quilômetros, 100 mil cabeças de gado criadas nos campos gaúchos foram enviadas à Turquia entre 2016 e 2017. O país, por sinal, foi o destino de quase 100% dos embarques de gado em pé feitos no porto do Rio Grande nos dois últimos anos. Mercado aberto pelo Brasil em 2003, a venda de animais vivos para o exterior é considerada um segmento ainda novo no País e, apenas neste ano, ganhou uma entidade específica, a Associação Brasileira de Exportadores de Animais Vivos (Abreav). Na semana passada, três embarcações estavam no porto do Rio Grande para carregar gado e rumar para a Turquia.

Vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Gedeão Pereira explica que, apesar de Oriente Médio e Norte da África serem tradicionais clientes do Estado, a Turquia se sobressaiu nas compras nos dois últimos anos, porque os turcos valorizam raças britânicas, que predominam no Rio Grande do Sul. Além disso, acrescenta o assessor técnico especialista em bovinocultura de corte da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Rafael Linhares, o País e o Rio Grande do Sul ganharam mercado após uma grave seca na Austrália ter reduzido a oferta de animais no mercado externo. A Austrália é o maior exportador mundial de gado vivo.

Entre as prioridades da Turquia em suas compras estão animais pata terminação com idade entre dois e três anos, e não castrados. Isso porque ganham mais peso do que os castrados, rendem melhor e é mais saborosa carne (tem mais gordura), diz Gedeão. Uma das empresas que atua fortemente no Estado com foco neste mercado é a multinacional Minerva Foods, destaca o pecuarista, ressaltando que a empresa mantém grande estrutura para confinamento de gado na região de Pelotas, próximo do porto do Rio Grande. Procurada, a Minerva Foods disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que não iria se pronunciar sobre a expansão desse mercado.

"Pelo que soube, saiu gado daqui até para alimentar campos de refugiados na região da Turquia, em compra feita pela Comunidade Econômica Europeia. Levam gado com até dois anos, para abate mesmo, porque não têm espaço necessário suficiente para aumentar o seus rebanhos", diz Gedeão.

Já o assessor técnico da CNA ressalta que é a Turquia que está reaquecendo esse mercado no Brasil, onde o auge ocorreu entre 2013 e 2014, quando as exportações somadas de gado em pé nos dois anos somaram 1,3 milhão de cabeças, tendo como um dos principais destinos a Venezuela. Com a crise no país vizinho, o mercado passou a contar ainda mais com as vendas ao Oriente Médio, que voltaram a crescer neste ano. Nos noves primeiros meses deste ano, a alta em relação ao mesmo período de 2016 é de 23%, alcançando 248,7 mil cabeças. E a Turquia é hoje o maior comprador nacional: foi responsável por quase metade dos cerca de US$ 170 milhões exportados até o momento. A "conquista" desse mercado tem mais empenho turco do que brasileiro, avalia Linhares. "O que impulsiona esse mercado é o interesse do comprador, sempre. No caso da Turquia, houve revisão da certificação sanitária nacional recentemente, o que fez o Brasil se adequar às exigências turcas, abrindo a eles um novo fornecedor", explica o técnico da CNA.

Assessor técnico da Secretaria de Agricultura do Estado, Fernando Groff ressalta que a ampliação do mercado é benéfica aos produtores. Para montar um volume condizente com a capacidade dos navios – que podem abrigar até 9 mil cabeças, no caso das embarcações que chegam para captação no Estado -, as aquisições são feitas de grandes e pequenos produtores. Diretor técnico do porto do Rio Grande, Darci Tartari destaca que o câmbio, a valorização comercial do gado e as exportações como alternativa ao mercado interno são os fatores que estimulam a atividade. "Com o mercado aquecido, o produtor fica menos refém dos frigoríficos locais para vender seus animais", opina.

Negócio gera polêmica e divide opiniões

Volume ainda é baixo, diz Linhares

Volume ainda é baixo, diz Linhares

/CNA/DIVULGAÇÃO/JC

Visto com ressalvas pelo setor industrial, a venda de gado em pé divide as opiniões de representantes de frigoríficos e pecuaristas. No Estado, o negócio injetou US$ 76,2 milhões apenas entre janeiro e setembro deste ano, mas entidades como o Sindicato da Industria de Carnes e Derivados (Sicadergs) prefere não comentar o assunto.

Empresários do setor alegam que o produto vivo deixa de agregar valor e empregos no comparativo com as vendas de carnes processadas, e que reduz a oferta local, encarecendo o produto. Rafael Linhares, assessor técnico especialista em bovinocultura de corte da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), contesta. "O volume de animais vivos exportados é pequeno em relação ao rebanho brasileiro – foram 600 mil animais para um rebanho de 218 milhões registrado em 2016 pelo IBGE", diz Linhares.

O interesse turco, provavelmente, é desenvolver o parque industrial frigorífico e, para isso, precisa permitir a compra de gado vivo para abate imediato para terminar no país, mas, de acordo com Linhares, isso não torna a Turquia uma ameaça ao setor nacional. O técnico da CNA avalia que as compras apenas abastecem o mercado local e que o país segue comprando carne brasileira industrializada sem redução de volumes.

A logística

Uma das maiores exportadoras de gado vivo do mundo, a Minerva Live Cattle Exports iniciou suas operações em 2003 e tem centros operacionais localizados em quatro países da América do Sul: Brasil, Chile, Colômbia e Uruguai, de onde exporta para países da América Latina, Ásia, África e Oriente Médio. No Brasil, mantém a Minerva Live Cattle Exports, em Pelotas (RS), Ilhéus (BA) e Belém (PA).

A preferência dos turcos é por gado cruzado, zebuínos e taurinos (raças britânicas), que saem do Brasil principalmente pelos portos do Rio Grande e de Belém. Enquanto os navios-currais que chegam ao porto gaúcho abrigam no máximo 9 mil cabeças, normalmente, há navios com capacidade para até 20 mil cabeças.

A embarcação é chamada de navio-curral, adaptado ou construído especialmente para isso, com sistemas de alimentação e acomodação para o gado, que viajará até 15 dias antes de chegar ao seu destino.

Antes do embarque, os animais ficam confinados no entorno do porto ou em cidades próximas, para que a operação seja rápida. No entorno do porto gaúcho, por exemplo, há pelo menos três centros de confinamento, na cidade e em municípios vizinhos. Os embarques duram de um a três dias, em média, e podem levam entre 10 e 15 dias para chegarem ao Oriente Médio, por exemplo.

Farsul, CNA e Porto de Rio Grande

Fontes: Jornal do Comércio