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AGRONEGÓCIOS – Safra recorde vai gerar renda menor

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Produtores devem se preocupar em travar preço de parte da produção

Produtores devem se preocupar em travar preço de parte da produção

Supersafra significa volume de grãos sendo colhidos em grande quantidade o que não quer dizer necessariamente ganhos diretos para o produtor. Como o avanço da colheita e a produção abundante tendem a reduzir cotações, a rentabilidade do atual ciclo de produção dos grãos de verão estão em queda. Ainda que a queda nos valores seja reclamação corrente entre produtores, especialistas garantem que são inegáveis os ganhos da supersafra para o Estado como um todo.

A safra 2016/2017, de acordo com o mais recente levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), deve agregar ao País 41,3 milhões de toneladas a mais de grãos do que as 186,6 milhões do ciclo passado, chegando a 227,9 milhões de toneladas, com um aumento de 22,1%. No Estado, a alta deve ser de 5,5%, passando de 33 milhões de toneladas para 34,4 milhões nesta temporada. Apenas em relação ao principal grão de verão, a soja, a previsão é que a produção gaúcha cresça 8,3%, alcançando 17,5 milhões de toneladas.

"Supersafra não tem relação direta com rentabilidade, mas esse grande volume que está sendo produzido, mesmo com cotações em queda, gera riqueza. São mais operações de compra e venda de fertilizantes, sementes, processamento, transporte. Isso tudo é movimentação econômica. O PIB do agronegócio deverá crescer acima de 6%. Ou seja, do ponto de vista PIB e volume, temos ganhos. Haverá uma supersafra, sim, mas, às vezes, temos safra menores e mais lucrativas ao produtor", resume Antônio da Luz, economista da Federação da Agricultura do Estado (Farsul).

Com preços em queda e levando em consideração que os valores tendem a cair ainda mais com a entrada da safra no mercado, o produtor deve sentir um baque nos rendimentos. O economista da Farsul, porém, diz que isso não significa que o produtor esteja vendendo pelo preço reduzido. "Para se proteger, a primeira coisa que o produtor já deveria ter feito era seguir a recomendação da Farsul e ter travado o preço de parte da produção quando estava na casa de R$ 80,00 a R$ 90,00. Neste momento, estaria entregando a preços acima do mercado, hoje em torno de R$ 59,05 em Passo Fundo, que é referência. Mas isso precisava ter sido feito logo no início do plantio, no ano passado. Em média, a recomendação é travar entre 30% e 40% da produção", avalia Luz.

Luiz Fernando Gutierrez, analista da Safras & Mercado, avalia que, com o câmbio em queda, juntamente com as cotações em Chicago, dependendo do preço praticado na hora da venda pelo produtor, a rentabilidade será muito baixa ou zero. "Em termo de volume, a supersafra é inegável devido ao clima perfeito ao longo do tempo agora, na etapa final, na colheita. A questão cambial é principal revés", lamenta Gutierrez.

O economista também alerta para outra fator negativo: o baixo nível de comercialização antecipada, que tende a ser um dos menores das últimas safras. E para quem está segurando a venda esperando que suba em pouco tempo, Gutierrez diz que não há nada que indique a volta aos patamares anteriores. "O único ponto de inversão que vejo é a ocorrência de algum problema climático nos EUA, já que o clima é imprevisível. Mas a perspectiva é boa para a soja, com o plantio iniciando daqui duas ou três semanas", diz o analista.

Para o professor do Centro do Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (GVAgro), Felippe Serigati, apesar do diagnóstico de poucas mudanças no horizonte, qualquer notícia nova de commodities ou choque exógeno pode mudar completamente o cenário. "Por exemplo, ninguém sabe como o mercado (e, portanto, a taxa de câmbio) reagirá conforme se avança com as delações na Lava Jato.

Para quem não fez o travamento antecipado com uma boa cotação, a recomendação é ficar de olho no mercado, atenta e diariamente. Por mais que a tendência geral seja de baixa, ressalta economista, o mercado oferece oportunidades eventuais de travamento de preços um pouco melhores para quem precisa vender. "Algumas oscilações esporádicas sempre ocorrem, mesmo com tendência de baixa e de o mercado se manter assim. Quem precisa vender deve aproveitar momentos de subida do dólar. Não há outra estratégia melhor do que colocar tudo no papel e ter uma meta do que se quer ou precisa vender para quitar todas as contas", recomenda o analista.

Outra opção que Gutierrez avalia ser positiva é, em vez de vender, apostar em trocas que sejam mais lucrativas e pensar na safra futura. A recomendação é negociar uma cotação melhor e garantir sementes e insumos.

Cotações de trigo, arroz e milho também sofrem reduções no Rio Grande do Sul

Assim como para a soja, as perspectivas de uma grande colheita também são válidas para outras três importantes culturas gaúchas: arroz, trigo e milho. No ciclo passado, a produção dos três grãos foi duramente afetada pelo El Niño.

No caso do trigo, o Rio Grande do Sul contabilizou a produção de 1,46 milhão de toneladas, do qual 1 milhão foi de baixa qualidade. Neste ano, a expectativa é de que sejam colhidas 2,5 milhões de toneladas, aumento de 70% na produção e qualidade melhor. "No ano passado, praticamente não tivemos produção de trigo. Se pode dizer que a chuva levou quase tudo, sobrou apenas 500 mil toneladas de boa qualidade", avalia Élcio Bento, analista da Safras & Mercado.

A cotação do trigo, porém, vem em queda. No Estado, no ciclo passado, a tonelada chegou próximo a R$ 900,00. Hoje, está entre R$ 520,00 e R$ 530,00, influência de preços internacionais despencando, devido ao maior estoque do grão na história mundial, com expansão da safra nos principais países produtores.

No arroz, a situação é semelhante. Na safra 2015/2016, o maior prejuízo causado pelo El Niño foi a necessidade de replantio e o consequente aumento dos custos, entre os quais com insumos. As cotações mundiais, porém, não foram tão afetadas, pois havia elevado estoque do grão.

A grande vantagem para o produtor, que já colheu cerca de 60% da área plantada, é o custo médio menor de produção. Mesmo com queda de 2% no preço médio, o custo – que em 2016 chegou a R$ 47,34 por hectare – hoje está em R$ 40,00. "O preço da saca chegou neste ano a cerca de R$ 55,00 no Estado, e talvez caia para R$ 50,00 com o avanço da colheita, mas qualquer valor acima de R$ 45 traz rentabilidade", avalia Bento.

Na comparação com a soja, o milho tem um cenário "um pouco melhor", segundo Luiz Fernando Gutierrez, economista da Safras & Mercados, porque não tem mais muito espaço para cair. Apesar da safra entrando, isso ocorre ao mesmo tempo em que os EUA reduziram a área ocupada pelo grão. "A cotação do milho em Passo Fundo, por exemplo, está em R$ 24,00, ante R$ 52,00 há um ano. Não tem mais como cair", avalia Gutierrez.

O que está consumiNdo o lucro do produtor?

De acordo com o professor da GVAgro, Felippe Serigati, são três os principais fatores que consomem os ganhos do agricultor:

Taxa de câmbio: ao longo dos últimos meses, o real se valorizou. Isso significa que o setor pode ter que vender sua produção com um dólar mais barato do que aquele que ele contratou seus custos de produção no início do plantio;

Preço recebido pelo produtor: devido à queda da taxa de câmbio e à safra volumosa, os preços de diversos produtos agropecuários têm registrado contrações;

Problemas de infraestrutura: dada a precariedade da infraestrutura disponível no País para o escoamento e a armazenagem da grande safra produzida, não está clara qual será a rentabilidade efetiva desta safra para o setor. A situação pode ficar ainda menos favorável se as chuvas excessivas persistirem em algumas regiões do País.

/EMATER/DIVULGAÇÃO/JC

Thiago Copetti

Fonte : Jornal do Comércio