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AGRONEGÓCIOS – Preço baixo preocupa produtores de batata

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Preço pago pela saca fica entre R$ 30,00 e R$ 35,00, montante que não cobre, ainda, o investimento feito

Preço pago pela saca fica entre R$ 30,00 e R$ 35,00, montante que não cobre, ainda, o investimento feito

/SAM PANTHAKY/AFP/JC

Guilherme Daroit

Ainda impactada pelos preços abaixo do custo de produção recebidos em 2017, a cadeia produtiva da batata no Rio Grande do Sul teme ver se repetir o cenário neste ano. Com boa parte da primeira colheita já realizada nas regiões que fazem duas safras, a saca segue girando em torno dos R$ 30,00 a R$ 35,00, valor que não cobre, ainda, o investimento feito. A expectativa, porém, é de que os valores subam nas próximas semanas com a redução na entrada de tubérculos de outros estados, que já se encaminham para o fim de sua temporada.

"Por enquanto, está muito ruim, pelo segundo ano seguido. Dois anos assim é difícil segurar", lamenta o produtor Marcelo Tramontin, de São José dos Ausentes, município que é um dos três maiores produtores de batata no Estado, junto com Bom Jesus e São Francisco de Paula, todas nos Campos de Cima da Serra. Ao contrário de outros locais também tradicionais produtores, como Ibiraiaras, que fazem duas safras por temporada, a região mais fria do Estado tem uma colheita apenas, que se inicia agora e pode se estender até maio.

Pelo preço atual de venda, segundo Tramontin, os agricultores saem com prejuízo de quase R$ 10,00 por saca vendida, situação que se agrava pelas perdas da safra passada, quando, embora o seu custo de produção tenha ficado em R$ 38,00 por saca, chegaram a vender o conjunto por R$ 13,00. Outro produtor, Alexandre Fais, de São Francisco de Paula, ressalta que o investimento na produção nesta safra gira em torno de R$ 25 mil a R$ 30 mil por hectare, de maneira que, apenas para empatar o desembolso, os produtores teriam que conseguir preços de R$ 60,00 por saco, quase o dobro do atual.

Caso a situação não melhore, Fais não descarta ter de repetir o mais indesejável dos quadros vistos no ano passado, em que os produtores chegaram a não colher o tubérculo para evitar, pelo menos, os custos com a colheita em si. "Neste ano, está um pouco melhor o preço de venda, mas nossos gastos também subiram", comenta Fais, que planta 350 hectares. "E com gás, energia, combustível mais caros, tudo chega mais caro na prateleira. As duas pontas pagam a conta, tanto o consumidor quanto o produtor", acrescenta.

Em termos de qualidade e produção, a safra gaúcha deve se confirmar dentro de uma normalidade história. O impacto maior tem vindo na ponta do consumo, ao contrário de 2017. No ano passado, segundo o técnico agrícola da Emater-RS em São José dos Ausentes, Orlando Junior Kremer Velho, a baixa cotação teve a ver com a safra ter sido cheia em todo o País. "Historicamente, sempre dá algum problema em algum lugar. No ano passado, não, e isso impactou o preço", comenta. Neste ano, porém, houve problemas de cheias em algumas regiões e de estiagem em outras, minando os reservatórios e prejudicando a irrigação, o que, segundo o técnico agrícola, tenderia a melhorar os preços daqui para a frente.

Apesar disso, os preços ainda não reagiram – e, na sua opinião, nem parecem ter força para reagir, porque o consumo também caiu. Segundo o produtor, na Ceasa de São Paulo, por exemplo, que em situações normais comporta a entrada de 80 caminhões por dia, há dias em que estariam entrando apenas 30 – que, mesmo assim, não conseguem preço razoável. Um atenuante relativamente inesperado, de acordo com o produtor, tem sido o aparecimento de compradores argentinos, cuja demanda por batata brasileira não é regular. De acordo com Velho, o motivo é que o tubérculo argentino sofreu com a qualidade neste ano. O consumo por lá também é mais constante, por motivos culturais.

Caso se confirme o novo prejuízo, os produtores gaúchos possuem outra preocupação, que é o alto investimento nas lavouras de batata. Velho lembra que maquinários, por exemplo, são caros e específicos para a cultura, o que dificulta que os produtores migrem para o cultivo de outra espécie. O cenário será pior para quem entrou na cultura mais recentemente, tendo em vista os anos rentáveis que se sucediam até 2016. "A cada quatro anos, temos pelo menos um ano ruim, e o produtor tem que entender isso, desde o início saber que não são sempre anos de glória", argumenta Velho. Fais acredita que, para quem sobreviver ao ano, a tendência é de que a próxima safra seja melhor, pela provável queda na área plantada, mas ressalta que a confirmação da previsão depende da retomada da economia e, por conseguinte, do poder de consumo do brasileiro.

Propriedades que cultivam batata-doce buscam profissionalização para driblar cenário desfavorável

Em 2017, quantia do caixote não chegou à metade do que foi pago em 2016

Em 2017, quantia do caixote não chegou à metade do que foi pago em 2016

/LUIS ANTÔNIO SUITA DE CASTRO/DIVULGAÇÃO/JC

Mais modesto em produção, o cultivo da batata-doce no Rio Grande do Sul enfrenta, de certa forma, os mesmos problemas da batata-inglesa. Em 2016, a caixa do produto rendia ao produtor em torno de R$ 40,00, o que levou a um crescimento no interesse pela produção. No ano passado, porém, os caixotes não chegaram à metade do preço. "Tivemos muita oferta e um mercado de consumo desfavorável, e muito produtor quebrou por conta disso", comenta Bruna da Costa Santa Maria, coordenadora da Emater-RS em Mariana Pimentel, município próximo à Capital e que é o maior produtor do tubérculo no Estado, com cerca de 900 hectares plantados.

O crescimento da produção, inclusive em outros estados, como São Paulo, que mais do que triplicou sua colheita nos últimos cinco anos, anulou inclusive a expansão no consumo puxado pelos valores nutricionais da espécie. Neste ano, segundo Bruna, os preços continuam nos mesmos patamares aos produtores, que seguem vendendo as batatas-doces da safra passada, uma vez que a maior parte das plantações ainda não está em fase de colheita. Tanto em qualidade quanto em produtividade, em média 600 caixas por hectare, devem se manter dentro da normalidade histórica nessa temporada, segundo a coordenadora.

A saída para os produtores tem sido uma profissionalização maior na cultura, seja com acordos direto com compradores, seja buscando beneficiar o produto antes da venda, diminuindo a dependência de intermediários. Em 2016, por exemplo, uma cooperativa com 31 associados foi formada na região para "tentar organizar o mercado", como comenta o presidente da batizada Cooperativa Agrícola Figueiras da Costa Doce, Paulo Learsi. A entidade já produz farinha de batata-doce, buscando destino para os 30% do cultivo que não encontram comprador por problemas de tamanho ou formato.

Um passo seguinte, como uma agroindústria, teve de ser jogado para um futuro indefinido justamente pela descapitalização trazida por causa da queda nos preços na última safra. A aposta recaiu, portanto, na formação. "Como é uma cultura ainda rústica, poucos produtores utilizam uma tecnologia mais avançada. Não adianta trabalhar na ponta do preço, que é o mercado que rege, mas sim no custo, aumentando a produtividade", afirma Learsi, que conta que o tubérculo paulista já chega ao mercado gaúcho com preço mais baixo do que o local, mesmo com o frete.

Fonte : Jornal do Comércio