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AGRONEGÓCIOS – Ovinocultor comemora bom momento para a lã

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Soma de mais 500 mil animais ao plantel permitiu maior oferta

Soma de mais 500 mil animais ao plantel permitiu maior oferta

Luiz Eduardo Kochhann

O Rio Grande do Sul detém mais de 95% da produção brasileira de lã, fornecendo entre 11,5 milhões e 12 milhões de quilos por ano. Ainda assim, na comparação com os dados da década de 1980, a quantidade chega a ser três vezes menor. Isso porque, com o avanço do fio sintético e da agricultura de larga escala, o rebanho gaúcho de ovinos caiu de 13 milhões para 3,7 milhões de cabeças, ao longo dos anos.

Segundo a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), os rebanhos gaúchos tinham, na época, uma média de 2 mil ovelhas. Hoje, na mão dos pequenos produtores, as criações contam, em média, com 80. O ponto positivo está no acréscimo de mais 500 mil animais no último quadriênio, consolidando um rebanho de 4,2 milhões, capaz de aumentar a oferta de lã.

O presidente da Federação das Cooperativas de Lã do Brasil (Fecolã), Álvaro Lima da Silva, afirma que pelo menos 80% de toda a lã in natura produzida no Rio Grande do Sul em 2016 – 11,5 milhões de quilos – já está comercializada. A tosquia foi finalizada recentemente, após certo atraso devido às chuvas. Pelos cálculos da entidade, no momento, o subproduto está pagando as despesas da ovelha durante todo o ano, restando ainda, para o criador, o lucro com a venda da carne do cordeiro. "O cenário hoje é de preço firme, de valorização do produto e, consequentemente, de demanda cada vez maior no mercado internacional", afirma. O desafio, para Lima da Silva, é, ao menos, duplicar o rebanho, para assim se valer do cenário favorável.

Atualmente, a lã crua, em sua absoluta maioria, tem o Uruguai como destino. O país vizinho compra e processa 8 milhões de quilos da nossa matéria-prima e envia o produto beneficiado, principalmente, para a China, a maior compradora do mundo, seguida pelos Estados Unidos e outros países asiáticos. Cotada como commoditie no mercado internacional, a fibra tem aumentado a renda dos criadores devido à valorização do dólar e à retomada, nos últimos anos, do interesse dos consumidores pelos fios naturais em detrimento do sintético. O fio, de acordo com a Arco, também começa a ser utilizado na medicina e na indústria de vedação acústica.

Os preços variam conforme a raça e a micronagem, ou a "finura" da lã. As de melhor qualidade, como as oriundas da raça Merino Australiano, considerada fria e utilizada na confecção de ternos, entre outros bens, por se adaptar tanto ao frio quanto ao calor, valem mais de R$ 20,00 o quilo no mercado interno. As da raça Ideal, segunda mais valorizada, sai por R$ 15,00 o quilo. A da ovelha Corriedale, maior parte do rebanho gaúcho, representando 70% do total, rende até R$ 12,00 o quilo ao produtor.

"O mercado externo paga mais. O grande desafio da cadeia é beneficiarmos aqui dentro e vendermos para fora com valor agregado para outros mercados", defende o assessor técnico da Arco, Edegar Franco. A única indústria gaúcha do setor é Paramount, com sede em Bagé, na Fronteira-Oeste. A Lã do Brasil, localizada em São José dos Campos (SP), é a outra compradora nacional. Aumentar o processamento local, contudo, requer certa reorganização do mercado, pois, enquanto os criadores comemoram o bom momento – forte demanda internacional e valorização dos preços em dólar -, as duas fábricas brasileiras enfrentam dificuldades e processam os pouco menos de 3 milhões de quilos não comercializados junto aos uruguaios.

MARCO QUINTANA/JC

Mercado leva indústria brasileira a diminuir produção

Lã não exportada, 15% do total,  é usada para confecção de fios

Lã não exportada, 15% do total, é usada para confecção de fios

A Paramount, fundada em 1893, já trabalhou com uma capacidade total de 6 milhões de quilos de lã. A empresa, entretanto, vem diminuindo o ritmo nos últimos sete anos e, agora, beneficia no máximo 2 milhões de quilos anuais, comprados diretamente do produtor ou de cooperativas. Em 2016, a fábrica projeta adquirir menos ainda, até 1,6 milhão de quilos. No início de 2014, a indústria fechou a filial de Uruguaiana alegando uma ociosidade de 70% na unidade. É a única do setor em atividade no Rio Grande do Sul.

De acordo com o diretor da divisão de Tops da Paramount, Cláudio Bortolini, diversos fatores explicam a redução. Em primeiro lugar, é que a comercialização é sazonal, realizada nos primeiros meses, enquanto a necessidade de matéria-prima estende-se durante todo o ano. "A rapidez na comercialização da lã faz com que 75% a 80% da lã já tenha saído da mão do produtor até agora, em fevereiro", afirma. Como a indústria uruguaia compra em grandes quantidades e paga à vista ou antecipadamente, a brasileira tem dificuldade em concorrer.

"Nós, da indústria brasileira, temos dificuldades em obter empréstimos com custos razoáveis que nos permitam concorrer no mercado internacional. O financiamento do estoque acaba atrapalhando muito", analisa Bortolini. Ainda assim, mesmo que timidamente, a Paramount planeja se manter no mercado, enviando produtos para a Europa, com o foco na Alemanha, Itália e Inglaterra, além de uma pequena porção para a China. Apenas cerca de 15%, que não é exportado, fica no Brasil para a confecção de tecidos.

Outra reclamação diz respeito à atividade dos barraqueiros, que operam durante os meses de venda da safra sem o recolhimento dos tributos. "A Paramount participa em uma condição desigual da aquisição da matéria-prima em relação aos importadores e aos barraqueiros, já que esses últimos não recolhem tributos", reclama Bortolini. Nesse cenário, para dar fôlego ao setor e manter 5 mil empregos, em janeiro, o governo do Rio Grande do Sul alterou o regulamento do ICMS, garantindo a utilização de créditos presumidos.

STOCKPHOTO/DIVULGAÇÃO/JC

Fonte : Jornal do Comércio