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AGRONEGÓCIOS – Não existe crise quando o preço é de banana

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Agricultores locais conseguem atender só a 60% da demanda estadual

Agricultores locais conseguem atender só a 60% da demanda estadual

O Rio Grande do Sul está longe de ser líder em produção de banana no País. O clima subtropical, com quatro estações bem definidas, não ajuda – a cultura precisa de calor para se desenvolver, sendo entre 20°C e 24°C o ideal. Dados do IBGE relativos a 2015 (os mais recentes) mostram que o Estado produz 11.360 quilos da fruta por hectare, 21% abaixo da média nacional. Mas experimente perguntar a um bananicultor gaúcho se ele está satisfeito na hora de vender a fruta: a resposta provavelmente será que sim.

O motivo são os bons preços encontrados pelo quilo da fruta nas praças gaúchas. Atualmente, as cotações na Ceasa-RS são de R$ 3,50 o quilo da variedade prata (ou branca) e R$ 3,00 o quilo da caturra (nanica). Os valores estão acima dos praticados, por exemplo, nas centrais de abastecimento de Santa Catarina (R$ 2,00 e R$ 1,65, respectivamente), Paraná (R$ 2,50 e R$ 2,00), São Paulo (R$ 3,19 e R$ 2,25) e Minas Gerais (R$ 2,40 e R$ 1,45). "De pelo menos cinco anos para cá, a banana vem com bons preços", diz o assistente técnico regional em fruticultura da Emater-RS, Luís Bohn.

De acordo com o engenheiro agrônomo, a forte produção em estados como São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso esteve comprometida no período, por conta de secas e dificuldades de produção. Com menos oferta no mercado e o custo do frete em disparada, a alternativa aos gaúchos foi valorizar a produção interna, que também estaria melhorando a qualidade nas caixas de 20 quilos que saem das propriedades. O Estado não é autossuficiente em banana – os gaúchos são capazes de atender apenas a 60% da demanda interna, estima Bohn.

O produtor Telmo Justin Witt, 55 anos, cultiva banana em 6 hectares de uma propriedade no município de Itati. Ele conta que esse é o melhor momento de que se lembra para a cultura, que passou por altos e baixos em sua trajetória, que começou quando criança, ajudando o pai na roça. "Tivemos épocas em que não tinha a quem vender, perdia-se a banana, porque não tínhamos como guardar. O pai chegou a vender caixa de 20 quilos a R$ 2,00, a trocar por rancho no mercado", conta o agricultor. "Hoje, estão pagando até R$ 1,40 pelo quilo (em uma cooperativa da região). Para nós, é uma maravilha." Ele acredita que o aumento das compras governamentais – para merenda escolar, presídios, hospitais, entre outros – e a melhora na qualidade da fruta observada nos últimos anos explicam os preços. A propriedade vende, em média, 200 caixas de 8 quilos por mês. "Vendemos tudo e ainda falta", afirma.

Administrador da Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas (Coomafitt), o produtor Charles Pereira Lima acredita que o mercado aquecido garante a rentabilidade do produtor. O custo de produção, segundo ele, está em torno de R$ 1,30 por quilo na região, enquanto os produtores vendem entre R$ 1,50 e R$ 2,00 para a cooperativa. "Não dá mais pra falar ‘a preço de banana’, porque ele já não é o mesmo de antes", brinca Lima, que vê estabilidade nos preços há pelo menos três anos. Outro fator atrativo para o cultivo seria o fato de ser permanente, gerando renda o ano inteiro. "O produtor está sempre colhendo, colhe a cada 15 dias, senão amadurece", explica.

A característica familiar das propriedades gaúchas produtoras – maioria tem de 4 a 6 hectares, diferentemente de estados como São Paulo, que apresentam grandes áreas com monocultura – também permite explorar um nicho de mercado: a produção orgânica. Foi o que fez o produtor Celito Webber Behenck, 54 anos, que cultiva 7 hectares de banana, sem o uso de agroquímicos, em Morrinhos do Sul.

Trabalhando no local desde a infância, Behenck optou pela prática apenas em 2009, ao observar essa tendência de consumo nos centros urbanos. A produção atual é de 700 quilos por hectare por ano, bem menor que a de banana convencional. "Mas o preço compensa", diz o agricultor, também presidente do sindicato dos trabalhadores rurais do município. O cultivo orgânico representa entre 20% e 25% da produção atual de banana no Estado, segundo Bohn, da Emater-RS.

Municípios do Litoral Norte concentram mais de 90% da produção no Rio Grande do Sul

É no Litoral Norte que a produção gaúcha de banana se desenvolve. Os 10 maiores municípios produtores se encontram por lá e respondem, juntos, por 123,9 mil toneladas da fruta por ano – o equivalente a 92,3% do total no Estado, de 134,2 mil toneladas em 11,8 mil hectares, de acordo com a pesquisa Produção Agrícola Municipal 2015, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os campeões são Três Cachoeiras (39,2 mil toneladas), Morrinhos do Sul (30 mil toneladas) e Mampituba (18,4 mil toneladas). Levantamento da Emater-RS aponta 11.027 hectares plantados neste ano, com envolvimento direto de 2,8 mil produtores e ainda 3,5 mil famílias com relação direta ou indireta.

De acordo com o assistente técnico regional em fruticultura da Emater-RS, Luís Bohn, a região é a principal produtora pela questão do clima – o Litoral apresentaria menos temperaturas extremas que em outros pontos do Estado, além de chuvas regulares ao longo do ano. "Tem ainda a questão da tradição, a cultura da banana veio com o início da colonização", diz. A variedade predominante é o tipo prata, por uma questão de maior concorrência com estados exportadores na caturra, conforme Bohn.

Se a área de cultivo não dá indícios de que aumentará nos próximos anos – está estagnada há pelo menos 10 anos, em cerca de 12 mil hectares -, a esperança é de que o Estado ao menos alcance a média brasileira em produtividade. Hoje, o Estado produz 11.360 quilos por hectare, enquanto a média nacional por hectare é de 14.380 quilos. A tendência é de crescimento, para o técnico da Emater-RS, considerando que as variedades alcançam 60% do desempenho que poderiam no Estado, pela pouca profundidade do solo onde se encontra a produção, pelo clima, que não favorece tanto, e pela questão do manejo. "Antes, a produção de banana era algo quase rudimentar, extrativismo. O produtor colhia, vendia e pronto. Agora, já são trabalhadas mais a tecnologia e as técnicas de manejo, com o agricultor respeitando o espaçamento entre as plantas, mantendo um ritmo de produção, fazendo com mais cuidado", diz.

Charles Pereira Lima, administrador da Coomafitt, espera ainda a disseminação de variedades mais adaptadas ao clima do Rio Grande do Sul, mais frio e imprevisível que nas tradicionais regiões produtoras de banana do País.

KÁTIA MARCON/EMATER/DIVULGAÇÃO/JC

Samuel Lima

Fonte : Jornal do Comércio