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AGRONEGÓCIOS – Mercado da soja sofre com preços baixos e cenário mundial incerto

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Apenas 30% da safra colhida no Rio Grande do Sul já foi comercializada

Apenas 30% da safra colhida no Rio Grande do Sul já foi comercializada

A supersafra de grãos pode terminar em prejuízo para parte dos produtores gaúchos – ao menos para quem não travou bons preços em negociações no início do plantio. O preço médio da saca no Estado, em 1 de junho, de acordo com a Emater, era de R$ 59,83. E nada indica, até o momento, tendência de valorização. O custo médio de produção medido na região de Cruz Alta pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) ficou em R$ 38,40 neste ciclo. Esse cálculo, porém, leva em conta apenas os recursos básicos investidos na lavoura, como fertilizantes, agrotóxicos, operação de máquinas, transporte e assistência, técnica e juros com financiamento.

Se somados a esses itens os valores referentes a manutenção de instalações e benfeitorias, encargos sociais e seguro, o custo operacional vai para R$ 44,78. Quem arrendou terras para cultivar a oleaginosa no ciclo 2016/2017 calculando que venderia ao menos próximo dos valores obtidos na temporada anterior, quando a saca chegou a cerca de R$ 90,00, está em uma situação de risco.

Os atuais R$ 59,83 por saca de 60 quilos, muito abaixo da média histórica de R$ 77,00 para o mês de junho no Estado, entre 2012 e 2016, segundo a Emater, levará os produtores ao menor índice de comercialização para o período, ressalta o diretor da Brasoja Corretora de Cereais, Antônio Sartori. O executivo afirma que o produtor migrou rapidamente da preocupação inicial de como estocar e armazenar a supersafra para o temor do lucro reduzido.

"A situação é delicada. É o típico cenário em que safra farta não significa bolso cheio. Esperando algum tipo de recuperação, o produtor comercializou apenas cerca de 30% da safra. O normal seria estar em torno de 60%. É um percentual muito baixo de comercialização para o período. Isso se deve a referência que o produtor tem do ano passado, quando vendeu por cerca de R$ 90,00, e hoje consegue apenas de R$ 60,00 a R$ 58,00", explica Sartori.

Sem grandes perspectivas que apontem para uma recuperação dos preços, o sojicultor está adotando um posicionamento perigoso. "Ele sonha que vai ter uma seca nos Estados Unidos ou algum tipo de problema climático que prejudique a safra por lá e acaba elevando os preços em Chicago", diz Sartori. Enquanto não vende, porém, o produtor tem que arcar com custos que deveriam estar sendo pagos com a venda do grão.

"De olho nisto, os bancos têm oferecido muito crédito ao produtor, pedindo a soja com garantia e, em troca, oferece um juro menor. Mas é juro que ele está pagando, seja para custear despesas pessoais, seja para manter a fazenda, que é uma empresa e tem custo de manutenção, máquinas, funcionários", diz Sartori.

Parte dos produtores ainda têm expectativas de que problemas climáticos na produção americana, que se inicia agora, poderia gerar quebras e elevar a cotação. Não é o que vislumbram até o momento, porém, especialistas como Luiz Fernando Gutierrez Roque, consultor da Safras & Mercado. "Esta aposta tende a se sair muito errada. Além de não haver indicativo de que a safra americana terá problemas, alguns prognósticos até apontam para a possibilidade de El Niño. E, estatisticamente falando, quando isso ocorre a produtividade vem elevada. O que poderia reduzir a cotação que hoje está em um pouco acima dos US$ 9, até próximo de US$ 8,50", alerta Roque.

Para o economista da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Antônio da Luz, está em situação mais tranquila quem negociou sua safra no início do ciclo, entre setembro e novembro. "O produtor que fez o que é recomendado e travou preços lá no começo do plantio com certeza vendeu a uma cotação bem melhor do que a atual", diz Luz.

Turbulências inviabilizam projeções para rentabilidade

Rentabilidade do grão está muito dependente da cotação do dólar

Rentabilidade do grão está muito dependente da cotação do dólar

Além de boas negociações na hora da compra de insumos, do clima favorável e da tecnologia aplicada, a rentabilidade da soja depende de um fator que talvez nunca tenha sido tão instável e imprevisível na história recente: a cotação do dólar. Diretor da Brasoja, Antônio Sartori tem uma definição que representa o pensamento de boa parte dos especialistas questionados sobre o que esperar para o preço da soja após a recente e exuberante colheita e sobre o que recomendar ao produtor.

"No Brasil, hoje, falar em 24 horas adiante é longo prazo. Não tem como saber o futuro. Basta ver as cotações do dólar neste ano. Agora, está em torno de R$ 3,29. Mas neste ano já esteve em R$ 3,05 e também em R$ 3,43", ressalta.

A turbulência mundial impõe ainda mais incerteza sobre os rumos da moeda norte-americana. Oriente Médio em conflito, terrorismo, a tensão na Coreia do Norte e seus testes com mísseis e até mesmo os rumos que tomará a Inglaterra na União Europeia são fatores de influência, lembra Sartori. "Vivemos o que eu defino com um cenário de tempestade perfeita", alerta o executivo.

Para o vice-presidente da Associação dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja Brasil), Bartolomeu Braz Pereira, o que resta ao agricultor é ficar de olha nas oscilações do câmbio e fechar negócio nos momentos de pico. "Mas o produtor nunca espera patamares tão elevados quanto os obtidos no ano passado. Os R$ 90,00 de 2016 foram um momento atípico", alerta.

/JONNE RORIZ/AE/JC

Thiago Copetti                     

CAMILA DOMINGUES/PAL/DIVULGAÇÃO/JC

Fonte : Jornal do Comércio