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AGRONEGÓCIOS – Estoques e preços afetama produção gaúcha de trigo

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Volume regulador em 240 milhões de toneladas e ausência de sobretaxas do Mercosul impactam atividade

Volume regulador em 240 milhões de toneladas e ausência de sobretaxas do Mercosul impactam atividade

Com as colheitas das safras de verão encerradas na maior parte do Estado, o principal foco da agricultura gaúcha, agora, é o trigo. Por foco, porém, não se deve entender investimento. Ao contrário. A semeadura que começará a ser feita em breve fatalmente reunirá um número cada vez menor de triticultores e áreas. Plantar menos é uma ação estratégica frente ao cenário global do cereal e reflexo de inconsistentes políticas internas.

O mundo conta com estoque regulador em patamares históricos (de cerca de 240 milhões toneladas), os maiores produtores estão com boas safras a caminho (o que derruba ainda mais os preços), e o grão que entra do Mercosul (especialmente de Paraguai e Argentina) não tem taxa de importação e germina em solo vizinho com um custo de produção menor. O resultado? Produtores gaúchos estão começando um novo plantio com 20% a 30% da colheita passada ainda em estoque.

É por isso que não espanta o brado mais comum em eventos rurais, hoje, ser aquele feito por produtores que estão se retirando da cultura ou reduzindo significativamente a área destinada a ela.

Antolí Fauth Mello, de Coxilha, no Norte do Estado, pode ser considerado um símbolo da retração. Os 200 hectares plantados em 2016 devem ser reduzidos à metade neste ano. "Em vez de ganhar com o trigo, estou gastando com ele. Desde maio do ano passado, eu mais investi do que tive retorno. O gasto começa com o plantio e em sementes de melhor qualidade e segue até agora. Além do que apliquei, ainda arco, hoje, com o estoque, já que não vendi tudo. O governo quer promover um pão mais barato ao consumidor estimulando importações, mas isso acaba sendo feito às custas do produtor", lamenta Mello, que seguirá plantando o grão apenas para não prejudicar a qualidade da terra nem deixar áreas completamente paradas até a nova safra de verão.

Queda de 15% a 20% no plantiojá é esperada para este ano

Apesar de a semeadura ainda estar um tanto distante do início, o que normalmente entre o final de maio e o começo de junho, o movimento de produtores por financiamento e sementes já permite indicar a queda como certa. A única dúvida é o tamanho do distanciamento do produtor gaúcho dessa cultura no ciclo de 2017. Assistente técnico da Emater, o engenheiro agrônomo Claudio Dóro estima recuo próximo de 15% na área semeada. Na Embrapa, há quem pressinta perigo maior e queda na casa dos 20% ou mais.

"O desestímulo vem basicamente de um conjunto de três fatores. O preço está baixo, não há liquidez para a venda, e a cotação do dólar estimula importações", resume Dóro, que estima a semeadura de apenas 650 mil hectares de trigo no Estado neste inverno, ante quase 777 mil no ano passado.

O volume de terra que será cultivado deve ficar bem abaixo do indicado como ideal dentro da recomendação de rotação de culturas, diz Dóro. "Temos cerca de 7 milhões de hectares destinados ao plantio no Estado. O trigo deveria ocupar uma parcela de cerca de 30% disso. Ou seja, próximo de 2 milhões de hectares", calcula o assistente técnico da Emater.

Pesquisador da Embrapa, Eduardo Caierão explica que o abandono da cultura, apesar de seguir uma lógica econômica, é arriscado pelo ponto de vista da qualidade futura do solo. "O trigo faz parte de um sistema de produção. Ao plantar o trigo no inverno, o produtor está preparado a terra para o verão. Sem essa adubação e essa proteção, o solo fica mais pobre para a posterior safra de soja", alerta Caierão.

Ainda que tenha ciência da importância do trigo para a produtividade da soja, o revés econômico que o grão tem imposto ao produtor inibe voos mais altos. O presidente Comissão do Trigo da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Hamilton Jardim, também elenca a falta de apoio interno para o cereal como um dos fatores cruciais para a depressão da atividade tritícola. "A cotação mínima do trigo está em R$ 38,65, e não é respeitada. O grão chega ser negociado a R$ 28,00, R$ 27,00. E os mecanismos do governo de estímulo ao setor enfrentam uma longa burocracia, e não cumprem o seu papel. Entre o produtor apresentar a nota da venda a preço reduzido e receber o prêmio de equalização (Pepro) pode levar um ano, mas não deveria passar de um prazo entre 60 e 90 dias", critica o representante da Farsul, ressaltando ainda carências como dificuldades de acesso a financiamentos para o custeio da lavoura, o que leva o produtor a bancar a lavoura do próprio bolso ou com juros elevados.

Alguns fatores que desestimulam a cultura no Estado

O trigo na Argentina deverá apresentar crescimento de 42% em relação ao último ano, alcançando 16 milhões de toneladas. Além disso, há expectativa de boa qualidade e baixa presença de doenças. Vale lembrar que um dos principais destinos do trigo argentino é o Brasil. O Paraguai também tende a ter grande e qualificada safra.

A Austrália, outro importante produtor, deve colher 35 milhões de toneladas (alta de 45% em relação ao ano anterior). O Canadá produzirá cerca de 31,7 milhões de toneladas (alta de 14%); e os Estados Unidos, mais de 60 milhões de toneladas (crescimento de 12%). A Rússia, outro importante produtor, também tende a ampliar o fornecimento mundial do grão.

No Brasil, em 2016, houve safra recorde, elevando os estoques a níveis incomuns, dificultando a venda de toda a produção e permitindo aos compradores negociar mais preços e prazos, com prejuízo ao produtor.

/EMATER/DIVULGAÇÃO/JC

Thiago Copetti

Embrapa

Fonte: Jornal do Comércio