AGRONEGÓCIOS – Abertura da colheita do arroz sem muito a comemorar

Palanque servirá para reivindicações contra medidas do Estado e da União

Palanque servirá para reivindicações contra medidas do Estado e da União

/IRGA/DIVULGAÇÃO/JC

Thiago Copetti

Palanque da abertura oficial da colheita do arroz vai sediar uma lista de queixas, denúncias e reivindicações de produtores aos governos federal e estadual. Prevista para às 14h desta sexta-feira, na Estação Experimental do Irga, em Cachoeirinha, a cerimônia não será de celebração. De acordo com o vice-presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Alexandre Velho, o atual cenário para o produtor é um dos piores e mais complexos dos últimos anos.

Além de perda de mercado para o arroz paraguaio, explica Velho, a lista de problemas inclui os baixos preços pagos ao produtor (cerca de R$ 7,00 abaixo do custo de produção) e até a venda de arroz de baixa qualidade como se fosse tipo 1, o mais nobre. De acordo com o executivo da Federarroz, a indústria nacional estaria, em alguns casos, lesando o consumidor e prejudicando produtores ao ensacar arroz tipo 2, 3 e 4 (de baixa qualidade) como se fosse tipo 1 e usando desse artifício para baixar preços nas gôndolas e atrair clientes.

"Denunciamos o caso ao Ministério Público em São Paulo, onde o problema é mais grave, e também ao Ministério da Agricultura para que aumente a fiscalização. Essa denúncia já surtiu efeito. Em Goiás e no Distrito Federal foram apreendidas, recentemente, 85 toneladas do produto por irregularidades", diz Velho.

No âmbito internacional, os arrozeiros se mobilizam em ao menos outras duas frentes. Uma das ações é convencer os governos de São Paulo e Minas Gerais a mudarem a tributação do arroz importado, hoje isento de impostos enquanto que o produto nacional tem até 12% de ICMS cobrado em alguns estados. Outra medida que está sendo pleiteada, e que será apresentada ao secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Neri Geller, é facilitar a compra de insumos no Mercosul por parte dos orizicultores.

"O mesmo fertilizante vendido no Brasil e na Argentina, por exemplo, pode ter diferença de preço de mais de 200%. Isso impacta direto no custo e na competitividade do arroz brasileiro", alerta Velho. Com todas essas adversidades, o produtor gaúcho vem reduzindo o plantio e até deixando a atividade, em muitos casos. A safra 2017/2018 deverá cair quase 6% neste ano, de 12,3 milhões para cerca de 11,3 milhões, segundo o levantamento da Conab divulgado neste mês.

Emater-RS divulga preliminar de perdas nas culturas de verão

Apesar de atingirem diretamente a economia dos municípios e dos agricultores da Metade Sul, as perdas estimadas por conta da estiagem, que atinge as regiões de Bagé, Pelotas e Porto Alegre, não devem impactar significativamente na produção das culturas de verão da safra 2017/2018. De acordo com dados preliminares da Gerência de Planejamento da Emater/RS-Ascar, na primeira quinzena de fevereiro, a estimativa atual da produção total de arroz, feijão, milho e soja, gira em torno de 30,1 milhões de toneladas, ou seja, 0,7% maior que a estimativa do início da safra baseada no cálculo de tendência feito a partir da média histórica dos últimos 10 anos. Em relação à safra anterior (33,6 milhões de toneladas), estima-se, até o momento, uma redução de 10,3% (30,1 milhões de toneladas).

O diretor técnico da Emater-RS, Lino Moura, explica o motivo de a estiagem não impactará na produção total. "A área cultivada de soja nas regiões atingidas pela estiagem, Campanha e Zona Sul, representa 18% do total cultivado no Estado. E a cultura de milho, menos ainda, apenas 13%. Na Metade Norte, a safra segue dentro da normalidade com expectativa de aumento na produção." A maior estimativa de perdas é na região de Pelotas, com uma redução de 41,8% na produção de milho (110 mil toneladas), em relação à estimativa inicial de 190 mil toneladas. Já a cultura da soja, deve registrar redução de 18% na região de Pelotas; 11,9% na de Porto Alegre e 6,6% na de Bagé. A cultura deve ter aumento significativo de produção nas regiões de Frederico Westphalen (17,5%); Santa Rosa (15,2%) e Erechim (12,8%). O Estado tem nove municípios em situação de emergência já homologada pelo governo. São eles Cristal, Amaral Ferrador, Hulha Negra, Morro Redondo, São Jerônimo, Cerro Grande do Sul, Canguçu, Arroio do Padre e Pedras Altas. Outros 12 emitiram decretos e aguardam o reconhecimento – Turuçu, Candiota, Bagé, Cerrito, Piratini, Camaquã, Dom Feliciano, Tapes, Chuvisca, Sertão Santana, Herval e São Lourenço do Sul.

Empresas gaúchas precisam abrir ofensiva na Ásia

O secretário da Agricultura, Ernani Polo, apresentou a representantes do setor alimentício gaúcho as percepções do mercado asiático e relatou andamento de tratativas iniciadas em recente comitiva brasileira à Ásia durante encontro nesta quinta-feira. O grupo visitou embaixadores e investidores na Coreia do Sul, Malásia, Indonésia e Singapura. Segundo Polo, há na região um mercado gigante para as empresas brasileiras porque existe grande necessidade de alimentos. "A Coreia do Sul tem 1/3 do território do Rio Grande do Sul e 52 milhões de habitantes. Eles têm uma produção de alimentos reduzida e renda per capita elevada", informou. Apesar do potencial existente, o secretário disse que falta prospecção de empresas brasileiras nesse mercado, principalmente em ações de marketing que agreguem maior valor aos produtos ofertados.

Ao lado do diretor do Departamento de Promoção Internacional do Agronegócio do Mapa, Evaldo Silva, Polo pontuou a importância de o Brasil assumir uma postura mais ostensiva perante esses mercados para viabilizar colocação de cortes de suínos e de aves e produtos lácteos. "Temos produtos de qualidade que muitas vezes não são mostrados. Se as empresas ficarem esperando que o mercado venha comprar será difícil. Temos que tentar ir quebrando as barreiras", recomendou, lembrando que a Apex Brasil tem um escritório na Ásia ao mesmo tempo que a Austrália tem 65. Presente no encontro, o presidente do Sindilat, Alexandre Guerra, reforçou a relevância que esses novos mercados devem ter para o setor lácteo para viabilizar o enfrentamento da crise e as constantes oscilações de preço do leite. "Somos um País importador, mas precisamos que o setor sinta o gosto do mercado externo. Sem dúvida, isso irá tirar pressão do mercado", salientou.

Fonte : Jornal do Comércio