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Agronegócio é modalidade promissora

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Marisa Cauduro/Valor 

Margo Black, CEO da Swiss Re: "Uso de tecnologias, como drones e fotos de satélites são essenciais para melhorar a gestão e reduzir os custos operacionais"

O seguro rural apresentou crescimento nominal de 11,3% em 2016, com vendas de R$ 3,6 bilhões. O ritmo foi menor do que em anos anteriores, mas foi comemorado por ter avançado diante da crise que derrubou outros nichos de negócios importantes, como o seguro de carro (que caiu 3,2%). O agronegócio está na pauta das seguradoras e resseguradoras como uma das modalidades mais promissoras do mercado brasileiro nos próximos anos, diante do apoio que dá aos produtores rurais e também ao governo, que não precisa renegociar dívidas dos agricultores que contam com seguro para perdas.

"Sem as proteções oferecidas por várias modalidades acopladas ao seguro rural, os produtores convivem com um ciclo vicioso de pobreza, quando ocorrem infortúnios, como secas prolongadas ou excessos de chuva, que são as causas mais comuns de pedido de indenização do seguro", segundo Wady Cury, presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Privados (FenSeg) e diretor da BB Mapfre, líder do segmento rural.

Dos R$ 3,6 bilhões do seguro rural, o seguro agrícola, que conta com subvenção do governo, representou R$ 1,5 bilhão. O restante das apólices se refere a riscos, como florestas, penhor, vida, pecuário, máquinas agrícolas e benfeitorias entre os principais negócios.

Hoje o Brasil tem apenas 11 seguradoras autorizadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) a atuar com seguro agrícola.

Por entender que o seguro agrícola, além de contribuir para aumentar a estabilidade financeira do produtor rural, também pode reduzir os problemas com a produção de alimentos por meio da indução de boas práticas de manejo, garantindo a segurança alimentar de uma nação, o governo tem buscado elevar o subsídio ao setor. A previsão para 2017 é manter os mesmos R$ 400 milhões disponibilizados pelo governo em subsídio rural em 2016. Um valor bem acima do que os R$ 290 milhões de 2015.

A tendência é de que novas companhias se interessem pelo setor diante de um possível aumento do volume de subsídios. Na mesa de negociação entre governo e entidades do setor, como a Confederação Nacional dos Agricultores (CNA), está o valor de R$ 1,2 bilhão para elevar a área plantada segurada de 14% para 25%, explica Cury.

Em países como Estados Unidos, Canadá, Espanha, Rússia e China, por exemplo, a subvenção ao prêmio do seguro rural chega a 90% da área plantada. No Brasil, a taxa de penetração ainda é pequena em termos de cobertura geográfica, mas já alcança mais de 80 culturas.

O clima tem dois efeitos nesse negócio: aguça o apetite dos produtores rurais e investidores da cadeia do agronegócio, ao mesmo tempo que inibe o das seguradoras. Boa parte das perdas, ou 83%, se deu por chuva excessiva e seca, segundo levantamento dos últimos cinco anos. Em 2016, dos R$ 1,5 bilhão em vendas de seguros agrícolas, R$ 1,3 bilhão voltaram aos produtores em indenizações. "Não podemos ter visão de curto prazo neste segmento. A sinistralidade de 97% de um ano pode cair para 15% em outro diante da ausência de severidade do clima. É preciso ser especialista e pensar no longo prazo", ressalta o executivo da BB Mapfre, que detém 75% das vendas do segmento rural.

Os fenômenos climáticos como El Niño e La Niña são cíclicos, ou seja, de tempos em tempos eles vão afetar os cultivos e o mercado segurador vai sentir o seu efeito na rentabilidade do negócio. "A ideia é que esses fatores sejam levados em consideração na hora da precificação de uma cobertura de seguro agrícola e, assim, nos anos bons fazemos um colchão para suportar um ano como o de 2016", afirma Margo Black, CEO da Swiss Re, uma das maiores resseguradoras do mundo.

Além da BB Mapfre, a Allianz também aposta no segmento rural e exibe bons resultados com a carteira. "Temos sido mais demandados pela contratação do seguro de grãos, principalmente para as culturas de soja, milho e trigo", conta Joaquim Francisco, superintendente de agronegócios da Allianz Seguros, que atua no segmento há 20 anos. A seguradora acumulou R$ 119 milhões em prêmios em 2016 e fechou o ano ocupando o quatro lugar no ranking.

Se depender do ânimo dos resseguradores, que vendem seguro para as seguradoras, o segmento rural vai crescer no médio prazo. Tarcisio Godoy, presidente IRB Brasil Re, o maior ressegurador do Brasil, afirma que "o agronegócio brasileiro é um dos mais vigorosos do mundo e atrai interesses de investidores em todas as suas etapas". Com o apoio dos resseguradores, que vendem seguro para as seguradoras, a tendência é de que o apetite das companhias de seguros por um ramo, conhecidamente de natureza catastrófica, aumente gradualmente.

"O resseguro oferece suporte financeiro e também capacidade técnica e tecnológica para a estruturação de produtos e gestão do risco", comenta Margo. "O uso de novas tecnologias, como drones, fotos de satélites e ferramentas de monitoramento climático, são essenciais para melhorar a gestão e reduzir os custos operacionais", acrescenta a CEO da Swiss Re.

Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e atual consultor da GVAgro, é um dos entusiastas. Ele costuma afirmar em artigos e palestras que o campo pode gerar muito mais riqueza e empregos no Brasil, desde que se resolva a logística, a infraestrutura e se organize um seguro rural digno desse setor.

Por Denise Bueno | Para o Valor, de São Paulo

Fonte : Valor