Agronegócio argentino acusa governo de inércia

Buenos Aires, 26 – O setor agropecuário da Argentina desperdiça potencial por causa da política oficial de intervenção no mercado. A reclamação é feita quase em coro pelas lideranças que nesta semana participaram da 127ª Exposição de Pecuária, Agricultura e Indústria Internacional, em Buenos Aires Para esses representantes, a safra 2013/14, que poderia chegar a um volume de até 130 milhões de toneladas, deve continuar ao redor dos 100 milhões de toneladas. “Em lugar de estar investindo 260 bilhões de pesos, os produtores poderiam colocar 50% mais por ano”, disse à Agência Estado o economista Ernesto Ambrosetti, chefe do Instituto de Estudos Econômicos da Sociedade Rural da Argentina (SRA). Assim, conforme Ambrosetti, somente em grãos e oleaginosas, o investimento, que na última safra foi de 100 bilhões de pesos, poderia ser de 150 bilhões pesos.

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A Argentina caiu do terceiro lugar no ranking de exportadores de carne, quando vendia cerca de 700 mil toneladas/ano, para o 11º
A Argentina caiu do terceiro lugar no ranking de exportadores de carne, quando vendia cerca de 700 mil toneladas/ano, para o 11º

A colheita recorde que o governo informou há alguns dias, de 105 milhões de toneladas de grãos, foi comemorada pela presidente Cristina Kirchner, durante discurso transmitido em cadeia nacional de TV. O número é contestado pelas associações rurais, que apontam volume inferior, de 97 milhões de toneladas, e acusam o governo de usar de criatividade, já mostrada na apuração da inflação e na contabilidade financeira do Tesouro. “As contas oficiais incluíram cultivos que, tradicionalmente, não entram no cômputo geral da safra, como a canola, o algodão etc”, disse Ambrosetti. A safra de trigo, em fase final de implantação, e as de soja e milho, que começam a ser semeadas em dezembro, têm prognósticos negativos.
Intervenções frequentes na comercialização das principais commodities, altos impostos aplicados na exportação e limites colocados à venda de determinados produtos são apontados pelo setor como limitador do investimento e perda de competitividade do segmento. “Pela primeira vez todos os exercícios que fazemos sobre os resultados econômicos da safra 2013/14 para o produtor são negativos, e isso implica menor uso de fertilizantes e de sementes geneticamente melhoradas”, explicou Ambrosetti. Neste cenário, o rendimento dos cultivos vai depender apenas da sorte de ter bom clima, sem estiagem ou excesso de umidade. O presidente da SRA, Luis Miguel Etchevehere, sintetizou o problema: “Quando tiram a rentabilidade do produtor, ele reduz o uso de tecnologia.”
Desde 2007, quando Cristina Kirchner foi eleita para o primeiro mandato, a produção agrícola na Argentina cresceu somente 1,6%. Entre 2003 a 2007, a colheita cresceu 39%, enquanto na década de 90 a expansão foi de 68%. Os números mostram que o humor dos produtores piora com endurecimento da política de intervenção oficial. Segundo a Associação Argentina de Consórcios Regionais (AACREA), entre 76% a 89% dos lucros das empresas do agronegócio estão comprometidos com o pagamento de impostos federais, provinciais e municipais.

São mais de 20 impostos ao setor, incluindo as famosas retenções, que são cobradas sobre as exportações e têm um peso de 60% no total da carga tributária. O campo paga 58% mais de imposto que a média dos setores da economia. Em um país com inflação entre 25 a 26% anuais, conforme institutos privados, e 10,9%, conforme cálculos oficiais, um câmbio oficial artificial em 5,48 pesos (cotação desta sexta-feira) e um paralelo em 8,41 pesos por unidade, mais as retenções de 35% para as vendas externas da soja; 23% para trigo e 20% para milho, os produtores colocam a boca no trombone para gritar contra o aperto.
“O produtor de soja, por exemplo, recebe 1 dólar a cada 3,20 pesos (considerando o câmbio oficial de 1 dólar a cada 5,48 pesos, menos o desconto de 35% de retenção), mas paga seus insumos pelo preço do dólar paralelo de 8,51 pesos por cada dólar”, reclamou Etchevehere.
O estancamento do agronegócios na Argentina começou em 2008, a partir do conflito travado entre Cristina e os ruralistas por causa da resolução 125, que previa estabelecer retenções variáveis, conforme o valor internacional dos produtos exportados. “Depois do conflito, tínhamos expectativa de recompor a relação com o governo, mas isso nunca ocorreu. A falta de uma mesa de diálogo somada à política de intervenção criou um clima de desconfiança e não previsível”, comentou Luciano Miguens, dono da fazenda Cabaña La Pátria Chica e que presidia a SRA na época do conflito. Ele disse que a política intervencionista faz com que ninguém inicie projetos ou proponha investimentos novos.
“O produtor hoje só investe o que é necessário para manter o negócio e sobreviver. Uma coisa é investir com visão de ampliar a produção e os lucros; outra bem diferente é fazê-lo para manter o status e sobreviver”, sintetizou ele.

Fonte: Marina Guimarães | Tribuna do Norte