Agronegócio aliado da natureza vira referência

Joyce Cury/Valor

Leonino Balbo: inventário de fauna mostra que áreas da empresa concentram biodiversidade superior à de florestas

Responsável por uma fatia de 23% do Produto Interno Bruto (PIB) e por mais de 30% dos empregos, o agronegócio é um importante pilar da economia brasileira, O país é o segundo maior produtor mundial de soja e carne bovina e o primeiro em cana-de-açúcar. Mas esse gigantismo cobra um alto preço para o meio ambiente. O agronegócio é apontado como uma das indústrias que causam maiores impactos, desde o desmatamento derivado do avanço da fronteira agrícola até o uso intensivo de agrotóxicos e seus efeitos cumulativos sobre a água e o solo. Não à toa, as principais metas climáticas assumidas pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris afetam a agricultura e pecuária.

A cana-de-açúcar é uma das culturas que alicerçaram a expansão do agronegócio brasileiro. A gramínea é cultivada desde os tempos do Brasil Colônia. Seus principais derivados, o açúcar e o etanol, são importantes da pauta de exportações. Foi em Sertãozinho (SP), principal produtor de cana do país, que um agrônomo resolveu plantar cana de modo diferente no final da década de 1980.

Tradicional na região, o Grupo Balbo era uma empresa familiar que cultivava cana e produzia açúcar e álcool em suas duas usinas na cidade. Em 1987, Leontino Balbo Júnior, neto do fundador e então recém-saído da faculdade de agronomia, decidiu testar o cultivo da cana sem agrotóxicos, com controle biológico de pragas, práticas de proteção do solo como o plantio direto (onde a matéria orgânica da colheita é deixada na terra para servir como adubo), e sem a queimada na colheita – prática seria proibida quase 20 anos depois. O objetivo do projeto, batizado de Cana Verde, era converter parte da produção para a agricultura orgânica. Balbo vislumbrava o potencial de mercado para o açúcar orgânico, especialmente o europeu.

O início não foi fácil. Balbo precisou desenvolver, junto aos fornecedores de maquinário agrícola, colheitadeiras específicas para colher cana crua. Foi preciso muito estudo, tentativas e erros para acertar a mão no manejo das pragas. Hoje a empresa familiar é o principal empreendimento de agricultura orgânica do Brasil e o maior produtor de açúcar orgânico do mundo, com 21,6 mil hectares de áreas de manejo certificado.

Produz anualmente 87 mil toneladas de açúcar (58 mil toneladas para exportação) e 55 milhões de litros de álcool para a indústria de cosméticos, com grandes compradores como a rede The Body Shop e a brasileira Natura. Balbo apostou que os produtos orgânicos também cresceriam no mercado doméstico e criou em 2000 a marca Native, do qual é vice-presidente executivo, que produz açúcar, café, sucos de frutas, chocolates e outros itens industrializados, todos com certificação orgânica. As vendas da Native crescem a uma taxa de 28% ao ano e as fazendas do grupo Balbo são objeto de estudos de universidades do mundo todo e consideradas referência internacional em agricultura ecológica.

Além das práticas de produção orgânica, as plantações convivem com áreas de mata nativa e, à medida que aumentava a produção orgânica, mais animais eram avistados nas fazendas, o que levou a empresa a fazer monitoramentos de fauna em parceria com a Embrapa, autarquia que atua em apoio técnico agrícola. Em 11 anos de monitoramento, foram constatadas 340 espécies de mamíferos.

A agricultura praticada por Balbo se enquadra no conceito de agricultura regenerativa dos ecossistemas. "Na prática, o cultivo orgânico associado às áreas de vegetação nativa fazem das nossas áreas de cultivo um sumidouro de carbono, e os inventários de fauna mostram que as áreas da empresa concentram biodiversidade superior à de florestas", diz Balbo.

A lição do Grupo Balbo, de que é possível fazer agricultura com alta produtividade e regenerando os ecossistemas, precisa ser assimilada pelo setor para que a produção global de alimentos se torne mais sustentável, diz Laura Santos Prada, agrônoma do Imaflora. Estima-se que no Brasil o percentual da agricultura que receba alguma certificação socioambiental não chegue a 1% do total.

Por Andrea Vialli | Para o Valor, de São Paulo

Fonte : Valor