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Agro fragmentado

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Presidente da Sociedade Rural Brasileira comenta a disparidade de forças no agronegócio brasileiro e a falta de comunicação no setor

por Cesário Ramalho da Silva

Fernanda Bernardino

"Muito se fala sobre a necessidade do agro se comunicar com a sociedade. Mas será que essa falha de comunicação para fora do setor não está relacionada exatamente com a falta de comunicação dentro do próprio setor?" (Foto: Ernesto de Souza/Ed. Globo)

A diversidade do agro brasileiro é um dos seus principais diferenciais. Produzimos de tudo, somos líderes em produção e exportação de produtos importantes, patinamos em muito poucos. Senão, vejamos. Levantamento doMinistério da Fazenda, com base em números doDepartamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) mostra que o Brasil é o maior produtor mundial de laranja,café, carne bovina e açúcar.

Além disso, somos o segundo em soja e frango, terceiro emcarne suína e quarto em milho. No que diz respeito àsexportações, ocupamos a liderança na soja, café, laranja, carne de frango e açúcar. Somos, ainda, o segundo maior exportador de carne bovina, terceiro de carne suína e quarto de milho. Toda essa pujança do agro gera renda, empregoe desenvolvimento socioeconômico, multiplicados por tantos outros setores, bem como é responsável por trazer divisas para o País. Isso tudo feito cada vez mais com foco no equilíbrio entre ganhos de produtividade e proteção ambiental.
No entanto, essa primazia do agro como carro-chefe da economia brasileira e âncora da balança comercial foi construída de modo conflituoso. São pouquíssimos casos de relações harmoniosas ou, para usar outro termo, no mínimo, equilibradas, dentro das cadeias produtivas. A disparidade de forças é significativa e, pior, crescente de modo negativo para o produtor rural. Os momentos de sinergia entre os agentes da “porteira para dentro” com os da “porteira para fora” são pautados, invariavelmente, pelo mercado. Quando os preços das commodities estão bons, a coisa anda bem. Mas, quando as cotações caem, salve-se quem puder, e a corda sempre arrebenta do lado mais frágil. Desnecessário dizer qual.
Exemplos?! Os sojicultores estão passando por um período razoável por conta da alta dos preços da oleaginosa no mercado internacional. Os produtores de milho – ou aqueles que conseguiram colher algo, em razão da seca – também estão razoavelmente bem, justamente pelo fato de que a estiagem provocou alta dos preços, o que favoreceu quem apostou na safrinha.
Mas, esse “bem-estar” é mais fruto do mercado do que uma cadeia produtiva focada num pensamento em que todos devem ganhar. No agro brasileiro ainda paira uma certa percepção de que se alguém está ganhando, outro deve estar perdendo, e, é claro, não precisa ser assim. Também é verdade que existem produtores, independentemente da atividade, que têm uma trajetória de negócios mais estável.
São aqueles com mais recursos próprios, que puderam investir em tecnologia de ponta, diversificaram sua produção. Mas, a maioria, infelizmente, fica à mercê de fatores além de sua alçada, e, em muitos casos, não por culpa deles. Estão aí o sucateamento da extensão rural, os planos econômicos malsucedidos, a infraestrutura (sempre ela) deficitária para assumir seus respectivos lugares no banco dos réus.
Suinocultores, citricultores e pecuaristas são os exemplos mais recentes de deterioração de cadeias produtivas. Os produtores sofrem com embargos, restrições, aumento de custos, poderio econômico do setor industrial, entre outros fatores. Isolados, agindo de forma individual, os produtores sobrevivem de medidas governamentais paliativas e almejam mudanças estruturais. Não é à toa que pipocam propostas para a criação de conselhos que tragam algum tipo de equilíbrio nas relações contratuais e reforcem a transparência.
Tudo isso nos leva a refletir que a mesma heterogeneidade positiva para a produção do agro também é ruim para o setor do ponto de vista de relacionamento. Muito se fala sobre a necessidade do agro se comunicar com a sociedade. Mas será que essa falha de comunicação para fora do setor não está relacionada exatamente com a falta de comunicação dentro do próprio setor? Mais do que acirrar conflitos, o que o agro precisa é de mediação, de articulação, de integração. As entidades representativas dos produtores, sob a liderança natural da senadora Kátia Abreu, já entenderam isso. É preciso mais.

Cesário Ramalho da Silva é agricultor, pecuarista e presidente da Sociedade Rural Brasileira.

Fonte: Globo Rural