Agro e serviços contratam; economistas projetam melhora

Graças a contratações no setores agropecuário e de serviços – especialmente no segmento de educação -, o país registrou em fevereiro o primeiro saldo positivo de vagas formais depois de 22 meses consecutivos de demissões líquidas, 36,5 mil, mostra o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Excluída a sazonalidade, o resultado de fevereiro ainda é negativo – fechamento de 25 mil postos de trabalho, calcula o Santander -, mas representa uma melhora expressiva quando comparado aos últimos meses, quando o país cortava, em média, 70 mil postos por mês.

O ramo de ensino, que costuma concentrar as admissões no início do ano, respondeu por 70% das 50,2 mil vagas abertas nos serviços. Mesmo sem o efeito sazonal, entretanto, o resultado foi positivo em 15 mil, calcula Rodolfo Margato, do Santander. A abertura de 7 mil postos com carteira assinada nos serviços de alojamento e alimentação e de 3,5 mil nos de administração de imóveis e serviços técnicos, avalia Fabio Romão, da LCA Consultores, também é sinal positivo. "Além de bastante heterogêneos, eles têm a dinâmica mais ligada à da atividade", pondera.

O desempenho ainda está distante do nível registrado em meses de fevereiro pré-crise, quando os serviços geravam mais de cem mil postos de trabalho, mas reitera a expectativa de que o mercado de trabalho dê sinais mais claros neste primeiro semestre de que o pior já passou. O dado positivo de fevereiro surpreendeu a expectativa da LCA, que era de abertura de 14 mil vagas formais. Março, ele afirma, pode trazer mais um número positivo. "Quando o Carnaval cai em fevereiro, geralmente o número de março é melhor", justifica.

Para Margato, do Santander, o mês passado foi uma "inflexão". Ainda que, dessazonalizado, o resultado ainda seja negativo em 25 mil, a desaceleração em relação à média mensal registrada nos últimos três meses, de 70 mil, é expressiva. "Reforça nossa avaliação de que o PIB deve finalmente ser positivo neste primeiro trimestre", ele avalia. A estimativa do banco para a variação do produto é de 0,4% em relação ao quarto trimestre de 2016, na série com ajuste sazonal.

A atividade neste início de ano, ele afirma, será beneficiada pelo bom desempenho do setor agropecuário e pelo início de recuperação da indústria, cuja produção deve crescer 1% sobre os últimos três meses do ano passado, calcula Margato. Diante da retomada, acrescenta, é possível esperar número positivo para o emprego formal indústria, na série dessazonalizada, já no fim do primeiro semestre. A estimativa da LCA para fevereiro é de crescimento de 0,2% da produção.

Na abertura do Caged por segmento, destaca Romão, já é possível ver desempenho melhor do emprego em ramos como o calçadista, único com saldo positivo no acumulado em 12 meses, de 9,6 mil, o têxtil, que abriu 12,8 mil postos no bimestre, o metalúrgico e o mecânico. Esses dois últimos, que não contratavam desde janeiro de 2015, apuraram em fevereiro o segundo saldo positivo consecutivo. "O dado reafirma a melhora que se desenhava em janeiro".

Para a indústria automotiva, entretanto, a perspectiva de contratação é mais remota, avalia Margato. "O nível de ociosidade ainda é grande, muitas empresas fizeram recentemente programas de redução de jornada e colocaram funcionários em layoff".

Após a divulgação dos dados de ontem, a LCA Consultores melhorou a projeção para o Caged fechado de 2017, de 40 mil para algo entre 150 mil e 200 mil. "O número é positivo, mas está longe de recuperar os três milhões de empregos perdidos nos últimos dois anos", diz Romão. O Santander projeta abertura de 300 mil postos de trabalho com carteira assinada neste ano.

Por Camilla Veras Mota | De São Paulo

Fonte : Valor