Agricultura ajuda PIB e economia cai apenas 0,2% no 1º trimestre

Analistas previam queda de até 1,6% no período; puxado pela safra de soja, o setor de agropecuária cresceu 4,7%, enquanto a indústria teve queda de 0,3% e os serviços encolheram 0,7%

Safa de grãos boa no primeiro trimestre garantiu avanço da agricultura
Safa de grãos boa no primeiro trimestre garantiu avanço da agricultura

Após ficar praticamente estagnada em 2014, a economia do Brasil encolheu no primeiro trimestre deste ano. No período entre janeiro e março, o Produto Interno Bruto (PIB) – soma do valor final de todos os bens e serviços produzidos no País – caiu 0,2% na comparação com o quarto trimestre de 2014. Os dados foram divulgados nesta sexta-feira, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado, no entanto, veio melhor do que a mediana das projeções dos analistas, que era de queda de 0,5%. As estimativas de 56 instituições consultadas pelo AE Projeções; iam de uma retração de 0,10% até uma queda de 1,60%. Influenciado pela safra de soja, o setor agropecuário teve forte crescimento no período, de 4,7%, e ajudou a puxar o PIB. Foi a alta mais expressiva desde o terceiro trimestre de 2012 – quando a agricultura cresceu 10,9%. Já a indústria amargou queda de 0,3% na mesma base de comparação, enquanto os serviços recuaram 0,7%.

"É uma safra relevante para o primeiro trimestre, além de apresentar expectativa boa para esse ano e ganho de produtividade", afirmou Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE. A agropecuária pesa 5,6% sobre o cálculo do PIB. Além do setor, também contribuíram positivamente para o resultado a área extrativo mineral e e os serviços de informação, relativos às telecomunicações e aos serviços de internet.

Na outra ponta, o resultado negativo foi influenciado diretamente pela crise hídrica e energética no País. De acordo com Rebeca, a redução no consumo de água e o maior uso de térmicas foram os principais itens responsáveis pela retração na economia. "No viés negativo, a distribuição, produção de eletricidade e água, em função da redução no consumo de água e pelo maior uso das térmicas, e isso afeta o valor agregado da atividade", informou a coordenadora.

Já na comparação com o primeiro trimestre de 2014, a economia teve queda mais forte, de 1,6%. Nesta base de comparação, o PIB de serviços mostrou queda de 1,2%, enquanto agricultura cresceu 4% e a indústria recuou 3%. Com o dado divulgado nesta sexta-feira, o PIB acumula queda de 0,9% em 12 meses. Em valores nominais, o PIB do primeiro trimestre do ano somou R$ 1,4 trilhão.

Os investimentos – que são uma medida para estimar se os setores da economia vão aumentar a produção – caíram 1,3% ante o quarto trimestre de 2014. A queda marca o sétimo trimestre seguido de retração, nessa base de comparação, e traz mais temores sobre o desempenho do PIB neste ano.

O recuo da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) – como são denominados os investimentos – ante o trimestre imediatamente anterior foi também o maior nessa base de comparação desde o segundo trimestre de 2012, quando houve queda de 1,4%. Já na comparação com o primeiro trimestre do ano passado, o investimento encolheu 7,8%. A taxa de investimento, por sua vez, ficou em 19,7% no primeiro trimestre.

Crise afeta consumo das famílias. As quedas do consumo das famílias e do consumo do governo no primeiro trimestre de 2015 ante os três imediatamente anteriores foram as maiores nessa base de comparação desde o quarto trimestre de 2008 – o auge da crise internacional. O consumo das famílias caiu 1,5% agora, ante 2,1% no último trimestre de 2008. Já o consumo do governo recuou 1,3% agora, contra 3,4% há sete anos.

A queda no consumo das famílias foi influenciada pelo aumento de juros, pelo crédito mais caro e menos acessível, pela aceleração da inflação e pela deterioração no mercado de trabalho, afirmou Rebeca, do IBGE. "Houve aumento de juros, crédito para pessoas físicas está mais caro e menos acessível, a inflação deu uma acelerada e o emprego e a renda também desaceleraram", disse. "É um efeito conjunto", acrescentou.

Na comparação com o mesmo período do ano passado, a queda de 0,9% no consumo das famílias foi igual ao recuo observado no terceiro trimestre de 2003 (-0,9%) e a maior nesta comparação desde o segundo trimestre de 2003, quando o recuo foi de 2,2%. Já a baixa de 1,5% no consumo do governo, nessa mesma base de comparação, foi a mais intensa desde o quarto trimestre de 2000, quando a queda foi de 2,8%.

Câmbio impulsiona exportação. O setor externo, por sua vez, deu uma contribuição positiva ao PIB do primeiro trimestre. Segundo Rebeca, do IBGE, a desvalorização do real ante o dólar ajudou a impulsionar os embarques para fora do País, ao mesmo tempo em que inibiu compras.

"O câmbio tem efeito positivo nas exportações e negativo nas importações, embora haja outros efeitos", contou a coordenadora do instituto. "Existe expectativa de aumento da demanda de petróleo pela recuperação de economias avançadas, então petróleo foi produto mais exportado", acrescentou.

As exportações subiram 3,2% no primeiro trimestre deste ano em relação a igual período de 2014, enquanto as importações caíram 4,7% nesta mesma base de comparação. O dólar, porém, não foi o único responsável pela melhora dos resultados. "A demanda interna também está mais fraca, afetando importações", disse Rebeca.

(Reportagem de Antonio Pita, Idiana Tomazelli, Mariana Sallowicz e Vinicius Neder)

Fonte: O Estado de S. Paulo

29 Maio 2015 | 09h 00