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AGRICULTURA – Agricultores do Ceará sofrem com a seca do reservatório do Cedro

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Estiagem atingiu o açude mais antigo do país no final de 2016, matou cerca de 440 cágados e peixes nativos e ainda prejudica os produtores

açúce-cedro-quixadá (Foto: Hugo Fernandes Ferreira/Arquivo pessoal)

Hoje, o volume do reservatório corresponde a 1,99% da capacidade total, segundo a Cogergh (Foto: Hugo Fernandes Ferreira/Arquivo pessoal)

Mais antigo do país e responsável por banhar uma região do Ceará conhecida como Pedra da Galinha Choca, o açude do Cedro, no município de Quixadá, já serviu de cenário para longa-metragem, mas agora é o palco de um espetáculo diferente. Depois de sete anos de estiagem, em dezembro de 2016 o reservatório secou 100% e atingiu duramente a vida dos agricultores locais, que dependem das águas do Cedro para suas atividades. Além disso, o desastre matou centenas de cágados e outras espécies nativas, transformando o local em um imenso cemitério.
A seca foi consequência da escassez de chuvas entre 2012 e 2016. De acordo com a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Estado do Ceará (Cogergh), hoje o reservatório tem um volume de 2,51 milhões de metros cúbicos de água, o que corresponde a 1,99% da capacidade total de armazenamento, que é estimada em 126 milhões de metros cúbicos.

Tradicionalmente, o entorno do Cedro é uma área povoada por pescadores, pequenos agricultores e criadores divididos em três comunidades: Sabonete, Paudarco e Arisco. Os moradores chamam o reservatório de “pai” devido ao grande auxílio que promove nas plantações.

O casal Antônio Elias Mateus da Silva e Raimunda Almeida Fernandes vive às margens do açude em uma comunidade chamada Sabonete. A família utiliza a água do Cedro para plantar feijão, milho, capim e para matar a sede dos animais. Raimunda diz que hoje tem apenas “quatro litros de feijão” e capim para alimentar as oito cabeças de gado que possuem. Os sertanejos chegaram a perder 80% do plantio por conta da estiagem.
Da safra que estão habituados a colher, 90% é destinado ao consumo próprio da família. Os 10% restantes são comercializados e complementam renda familiar juntamente com o leite do rebanho. A seca dificultou as plantações e o consumo dos últimos meses por conta da grande quantidade de sal acumulado no reservatório, o que também prejudicou a pesca. “Nós podíamos ver uma capa branca em cima das águas”, diz a agricultora.

antônio-elias-mateus-da-silva-raimunda-almeida-fernandes-rodolfo-quixada (Foto: Rosimar Laurentino/Arquivo pessoal)

Antônio da Silva, Raimunda e o filho do casal, Rodolfo, diante da roça de milho (Foto: Rosimar Laurentino/Arquivo pessoal)

Durante a estiagem, as famílias pagavam por carros pipa entregues mensalmente. Mas o volume de seis mil litros mensais não era o suficiente para as quatro famílias que vivem no Sabonete. “Não dava nem pra metade”, diz Raimunda, que armazenava água na cisterna, utilizando-a apenas para as necessidades básicas da família como a preparação dos alimentos, higiene pessoal e para rebanho.
Hoje, a situação no Cedro está longe do ideal. O volume de água continua muito baixo, mas as chuvas do início de 2017 ajudaram a retomar uma pequena porcentagem da capacidade do reservatório. “Ainda não é o suficiente, mas está dando para plantar”, conta Raimunda.

Perdas na fauna

Além dos moradores, a fauna do Cedro também foi duramente atingida pela seca. De acordo com o pesquisador Hugo Fernandes-Ferreira, biólogo e professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), cerca de 500 tartarugas foram mortas. O professor percorreu o açude com seus alunos para registrar o tamanho da devastação e as alterações no meio ambiente provocadas pela seca.

“Havia peixes nativos, peixes introduzidos para consumo como a tilápia, tucunaré, dourado, além de moluscos, anfíbios e crustáceos”, diz Hugo. A pesquisa da Uece, desenvolvida em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) e com a Universidade de São Paulo (USP), inicialmente serviu para avaliar os prejuízos provocados pela seca, mas agora monitora o crescimento dessas e outras espécies nativas no açude.

tartatura-açude-cedro-quixadá (Foto: Ed. Globo)

Centenas de tartarugas morreram com a seca no reservatório (Foto: Hugo Fernandes Ferreira/Arquivo pessoal)

De acordo com Natália Rizzo Friol, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), não é possível dizer, de modo exato, quanto tempo vai levar a fauna se recuperar, mas a pesquisadora diz que, se não forem dizimadas, as espécies recompõem.
Segundo Natália, o tempo de recomposição está ligado a muitos fatores como a pressão de pesca, condições do clima, disponibilidade de recursos nutricionais. A intervenção humana só será indispensável se não houver possibilidade da população se recuperar naturalmente.

Represas

Paulo Ferreira, gerente regional da Bacia do Banabuiú (ao qual o Cedro é integrado), da Cogerh, diz que há soluções para futuros problemas com a estiagem no reservatório. Uma delas seria o represamento do Rio Sitiá, que abastece alguns açudes menores antes de chegar ao Cedro. “A Ong Associação Caatinga tem muitos projetos voltados para essa questão e mostra na prática que é possível aproveitar os corpos d’água da região, mesmo em período seco, através de manejo e gestão séria”, conclui.
Raimunda acredita que o governo deveria investir em poços artesianos. Para ela, contar com as chuvas é arriscado porque não se pode ter certeza de quando e nem qual será a intensidade das precipitações. “Com poços artesianos, seria ideal para abastecer as casas para o consumo dos moradores”, diz.

POR SILENE SILVA