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AGCO critica Plano Safra e cobra agilidade na liberação do crédito rural

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Direção da empresa espera queda de 20% nas vendas de tratores na América do Sul neste ano e fala em recuperação do mercado só no final de 2016

agco_massey_valtra_executivos (Foto: Raphael Salomão)

Executivos da AGCO criticam Plano Safra e a demora na liberação dos recursos para os produtores rurais (Foto: Raphael Salomão)

A direção da ACGO, detentora de marcas como Massey Ferguson, Valtra e GSI, fez duras críticas à execução do Plano Agrícola e Pecuário para a safra 2015/2016, iniciada oficialmente em julho deste ano. Em entrevista coletiva realizada em Brasília (DF), os executivos reclamaram da demora nas liberações de crédito e da burocracia, embora vejam como positivo o formato da política de incentivo ao setor adotada pelo governo federal.

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“É muito simples: o governo publicou uma estrutura de financiamento da safra e agora não tem dinheiro para isso”, disse o CEO Global da companhia, Martin Richenhagen, justificando a escolha da capital federal como local do encontro com os jornalistas na necessidade de falar sobre o ambiente político e econômico do Brasil. “Temos que deixar os políticos cientes da importância da agricultura para a economia brasileira”, acrescentou, elogiando, por outro lado, o fato do apoio ao setor agropecuário não ser baseado em subsídios diretos, mas em equalização de taxas de juros e crédito.
Produtor rural no estado de São Paulo, o vice-presidente de Marketing e Pós-vendas da AGCO na América do Sul, Bernard Kiep, acrescentou que o problema não está no Plano Safra, mas no fato dos recursos previstos não chegarem à produção. “Não tem se tornado efetivo. A burocracia está forte, o sistema está mais moroso e não está girando como deveria. E isso é muito sério porque a safra depende cada vez mais do crédito disponível para os agricultores”, disse.
As críticas foram feitas um dia depois de reunião da ministra da Agricultura, Kátia Abreu, com representantes dos produtores rurais e bancos para discutir a execução do Plano Safra 2015/2016. No encontro, a ministra avaliou como “normal” a maior exigência na análise de riscos, mas disse que a situação pode ser contornada. Um novo encontro deve ser marcado para setembro. Também na terça-feira (25/8), o Ministério divulgou que, em julho, as liberações de crédito rural foram 30% maiores que as do mesmo mês do ano passado. O montante foi de R$ 11,596 bilhões ante R$ 8,886 bilhões registrados em julho de 2014.
Na semana passada, representantes da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que reúne a indústria automobilística e as grandes fabricantes de máquinas agrícolas, se encontraram com a direção do Banco do Brasil. Além de um incentivo de R$ 3,1 bilhões para a indústria até o final do ano, foi anunciada uma plataforma de relacionamento com as revendas de equipamentos agrícolas que, segundo a própria Anfavea, tem o objetivo de “garantir agilidade na liberação dos recursos de investimentos do Plano Safra”.

"Na aquisição de bens de capital, a desburocratização está andando, mas não como a gente gostaria", reconheceu Bernard Kiep. O ponto mais grave a curto prazo é o custeio. O tempo de plantio e está chegando o dinheiro tem que estar na ponta para o agricultor comprar seus insumos", acrescentou.

Mercado No mercado brasileiro, o maior na região da América do Sul, as duas marcas da multinacional registram queda nas vendas neste ano, acompanhando a tendência de registrada pela indústria de máquinas agrícolas de um modo geral.

De acordo com dados da Anfavea, a Massey Ferguson vendeu 8,138 mil tratores de janeiro a julho, redução de 27,1% em relação ao mesmo período no ano passado. A Valtra comercializou 6,980 mil, 25,6% a menos. Nas colheitadeiras, a Massey vendeu 360 no acumulado dos primeiros sete meses de 2015, redução de 31,9%. Na Valtra, foram 139 unidades, 44,6% a menos que no intervalo de janeiro a julho de 2014.
A estratégia comercial da empresa no Brasil está baseada nas linhas de financiamento (inclusive com participação do seu próprio banco, joint venture da multinacional com o holandês Rabobank) e em linhas de consórcio. O vice-presidente de Marketing e Pós-vendas da AGCO na América do Sul, Bernard Kiep, informou que a empresa está estruturando, a exemplo de concorrentes, operações de barter, possibilitando o pagamento do equipamento em produto.
No entanto, independente de sua própria política comercial, os executivos da AGCO não consideram outra possibilidade para este ano que não o de uma retração nas vendas, seja na América do Sul, seja em outras regiões do mundo. Só nos tratores, a expectativa é de redução de 20% no volume (em 2014, foram 72 mil) no mercado sul-americano. Na Europa, a estimativa é de 5% a 10%, a mesma para a América do Norte.
Em 2014, as vendas globais da AGCO já tinham caído em relação ao ano anterior, totalizando US$ 9,7 bilhões. A América do Sul, que tem como líder o Brasil, representa 17% da comercialização total “É um período curto em que teremos um tempo para respirar. Até o final de 2016, o mercado vai voltar, inclusive aqui no Brasil”, avaliou Richenhagen.
Em longo prazo, ele acredita que os fundamentos são favoráveis ao aumento do uso de tecnologia no campo. Do ponto de vista global, lembrou das expectativas de crescimento da população, consequentemente, da demanda por alimentos. Em relação ao Brasil, destacou o rápido aumento daprodução agrícola, especialmente de grãos, e disse que os produtores, mais profissionalizados, demandarão cada vez mais equipamentos de alta tecnologia.

POR RAPHAEL SALOMÃO, DE BRASÍLIA (DF)

Fonte : Globo Rural