ADM vai reestruturar terminal em Santos

Investimentos gerarão ganho de eficiência para a ADM, diz Eduardo Carvalho Rodrigues, diretor de logística e portos
A americana Archer Daniels Midland (ADM), uma das maiores empresas de agronegócio do mundo, deu início à reestruturação de seu terminal do porto Santos (SP), em um investimento de R$ 287 milhões que deve minimizar uma das maiores máculas do setor graneleiro no município paulista: o odor e a alta emissão de material particulado decorrentes das operações com grãos.

Posicionada desde 1997 em Santos, a ADM fará os aportes para reduzir em 80% o impacto ao ambiente de suas operações em contrapartida à antecipação do contrato de arrendamento de seu terminal, que expiraria em 2017. A readequação para tecnologias mais eficientes constava dos aditivos do contrato e ocorre após 15 advertências e 10 multas ambientais à companhia entre 2006 e 2015, totalizando de R$ 334 mil.

Os investimentos preveem uma remodelação geral das operações, perfazendo todas as etapas de transporte portuário da carga até a chegada do grão no porão do navio. E, de quebra, gerarão um ganho de eficiência crucial para a ADM.

Em entrevista ao Valor, o diretor de Logística e Portos da ADM no país, Eduardo Carvalho Rodrigues, afirmou que entre as medidas está a derrubada de um dos três armazéns da companhia em Santos – o de número 39, localizado no cais da Ponta da Praia – e a construção de um novo. Com isso, a empresa passará de uma capacidade estática de 45 mil toneladas para 72 mil.

As moegas, responsáveis pelo recebimento dos grãos dos caminhões, serão mais "inteligentes", com filtros que aumentarão a aspiração de poeira. As correias transportadoras, que levam os grãos dos silos para os "shiploaders" (os carregadores dos navios), serão "encapadas" para evitar perdas no caminho e emissão de particulados. E dois shiploaders trazidos do Reino Unido subtituirão os atuais.

A vantagem, disse Rodrigues, é que o maquinário inglês é mais moderno: os grãos descem para os navios através de uma tubulação em cascata, e não mais em queda livre, e seguem até o fundo do porão, recuando à medida em que os sensores avisarem que a pilha de soja subiu. "O terminal da ADM em Santos será um modelo em tecnologia de ponta, e não apenas para o corredor de exportação do porto de Santos como para o Brasil", afirmou o executivo, na sede da companhia, em São Paulo.

Localizado no corredor de exportação do porto, na Ponta da Praia, o terminal da ADM é responsável por movimentar quase 6 milhões de toneladas de grãos por ano, um volume significativo para o setor exportador.

Mas o efeito colateral dessas operações – o cheiro do apodrecimento de grãos perdidos pelo caminho e a poeira – se tornou uma variável econômica importante desde que as reclamações da população e as advertências da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) tornaram-se uma constante.

Embora muitas companhias exportem grãos por Santos, as tradings localizadas na Ponta da Praia são as mais responsabilizadas pelos incômodos à população, diz o técnico da Cetesb, Paulo Sérgio Fonseca. "Os terminais da ADM, da Caramuru e Louis Dreyfus estão a uma avenida de distância do mais novo bairro de Santos. Nos últimos anos, ao menos dez torres residenciais foram erguidas no local", afirma. "Coincidentemente, o aumento da população ocorreu em paralelo com o aumento das exportações de grãos em Santos".

A reclamação dos santistas gerou um embate com a Prefeitura da cidade, que chegou a pedir a remoção das tradings da Ponta da Praia – o que caiu por terra com a prorrogação do contrato da ADM.

Há quase duas semanas, a Caramuru teve as operações com soja interditadas pela Cetesb. De acordo com a agência, a interdição ocorreu devido "à emissão significativa de material particulado (poeira) e odores fétidos, proveniente do carregamento de navios, o que acarretou inúmeras reclamações da população".

Desde 2012, a Caramuru já havia sido advertida e multada três vezes, totalizando de R$ 494 mil, pelos mesmos motivos. Ao final, a Cetesb lacrou suas esteiras transportadoras em pleno pico do escoamento da safra atual de soja. Por meio de liminar, a Caramuru voltou a operar no terminal. Procurada, a companhia não quis comentar o assunto.

Há duas décadas em Santos, a ADM obteve pela Secretaria dos Portos, em janeiro de 2015, a antecipação da prorrogação do contrato de arrendamento de seu terminal em Santos. Com a renovação, o contrato passa a valer até 2037.

A trading afirma que, com todas as medidas implementadas, espera atingir a marca de 8 milhões de toneladas de grãos movimentadas ao ano até a safra 2017/18.

Maior porto do Brasil, Santos exportou cerca de 33 milhões de toneladas de grãos em 2015.

Por Bettina Barros | De São Paulo

Fonte : Valor